Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2006

Cultura, Política e Meio Ambiente

Ligia Tavares – Geógrafa e ambientalista (ligiatavares@uol.com.br)

Já há algum tempo venho me envolvendo com a política local numa tentativa de salvaguardar o que a cidade de João Pessoa sempre teve de melhor, em minha opinião: a qualidade de vida. Como capital, a cidade possui infra-estrutura urbana e administrativa capaz de estimular atividades de serviços e culturais. Em termos de atividades culturais, não se compara às grandes capitais, em termos de quantidade de opções, mas tem sim a qualidade necessária para alimentar uma alma cosmopolita. Lembrava do show de Barão Vermelho com Cazuza que assisti há 21 anos atrás e muitos outros que sempre curti desde que me mudei para cá há 22 anos. E não foram apenas os shows que alimentaram a minha alma roqueira. Aqui aprendi a apreciar a música erudita, semanal e gratuita, os ritmos nordestinos, as artes plásticas, a poesia, a literatura e a filosofia mística.
Avaliar a qualidade da cultura local é algo que só pode ser feita por quem já viveu em outros lugares e por quem viaja constantemente. As novas gerações, nascidas e criadas aqui, e mais exigentes culturalmente, querem ir embora vivenciar outros lugares. Assim como fizeram muitos das gerações passadas que compõem o cenário da cultura local e que para cá retornaram, com o espírito mais tranqüilo, depois de ter rodado pelo mundo e constatado que aqui é tão bom como em qualquer lugar. Se na cidade grande temos mais opções culturais, temos que trabalhar mais para pagar por elas, nos estressar no trânsito diário, viajar para tomar um banho limpo de mar e rodar muito para achar vaga em estacionamento, sem falar na violência, na sujeira, na miséria e em outras características típicas da nossa pátria-mãe, onde a desigualdade social é mais acentuada e visível nas cidades maiores.
Não sendo uma cidade grande como Recife, por exemplo, João Pessoa ainda tem o que falta nelas: a qualidade de vida, que passou a ser valorizada mundialmente nos últimos 20 anos, como recurso necessário no combate às doenças, entre elas as do coração e às relativas ao stress.
No entanto, nesses 22 anos o que assisti em João Pessoa foi uma diminuição gradativa dessa qualidade de vida. Não porque a cidade cresceu, as áreas habitadas se ampliaram, os prédios aumentaram em altura e número e as favelas proliferaram, mas porque tudo isso vem ocorrendo de maneira predatória, sem que o poder público tenha o devido cuidado com o meio ambiente, salvaguardando áreas verdes, criando parques, praças e unidades de conservação municipais. Apesar da propaganda de “cidade verde” para atrair o turismo, as áreas verdes não são valorizadas pelo poder público e quando não são desmatadas, são ofuscadas na paisagem por muros, outdoors e edificações. Veja por exemplo o rio Jaguaribe, que há poucos anos integrava a paisagem das avenidas Rui Carneiro, Epitácio Pessoa e Beira Rio com seu bucolismo natural e atualmente está bloqueado por muros e outdoors. E a tentativa, em curso, de uma construtora de bloquear parte da paisagem do Cabo Branco, com a instalação de um hotel de 124 metros de extensão na frente da mata que recobre o cabo, nosso maior patrimônio natural.
O meio ambiente é uma questão técnica, que exige conhecimento em diversas áreas do saber, incluindo a estética da paisagem, e requer constante aperfeiçoamento e estudo. Algumas questões, como mudança climática e efeito estufa, por exemplo, que afetam todos os ambientes do planeta, estão na vanguarda da pesquisa científica, sempre sujeitas às novas descobertas.
O meio ambiente é também uma questão de sensibilidade. A observação da paisagem requer educação visual e a compreensão do que seja desenvolvimento sustentável exige uma mudança na forma de pensar o mundo e nos valores relacionados ao consumo e às ambições pessoais. Por ser compreensível às mentes mais livres e mais sensíveis ao espírito, o pensamento ecológico é associado a culturas alternativas, causando oposição e repugnância nos que insistem em manter os valores ligados ao materialismo, ao individualismo, ao lucro rápido, ao consumo e à ambição.
O movimento ecológico conservacionista teve sua origem na Califórnia no final do século XIX com John Muir, um irlandês imigrante que criou o primeiro grupo de naturalistas: os Amantes da Natureza. Suas idéias contagiaram os técnicos da Agência Nacional de Pesquisa Geológica nos EUA, resultando, em 1914, na proibição da atividade mineradora na Califórnia, que estava destruindo os mananciais e poluindo os rios. Nos anos sessenta, os efeitos da industrialização já eram evidentes e os ecologistas ganharam força. Atualmente, a disponibilidade de recursos no planeta já é inferior ao consumo planetário e se todos consumirem como os habitantes dos países ricos, o planeta será esgotado rapidamente, o que significa a extinção da espécie humana, como já ocorreu no passado em sociedades antigas. A ciência já fez as contas, daí a necessidade de economizar, preservar, dividir e mudar os valores, que, se tidos como “hippies” há trinta anos, e alternativos, atualmente, já vêm se consolidando como prática de vida e de profissão para muitos. Por isso, o movimento ecológico ganhou o mundo, institucionalizando-se em diversos países.
Ocorre que no Brasil, a institucionalização do meio ambiente em órgãos federais, estaduais e municipais, submeteu a ciência, o conhecimento e a sensibilidade, à política, aos partidos e à arte de vencer eleições, colocando-os desta forma à mercê dos interesses econômicos. Apesar dos esforços de muitos profissionais e dos avanços das legislações ambientais, o que se assiste na prática é a manipulação destas leis visando o atendimento imediato das necessidades econômicas e eleitorais. Além disso, o pouco caso com o meio ambiente, permite que muitas questões sejam discutidas aleatoriamente, onde cada um opina acerca do que acha certo ou errado, sem o devido conhecimento técnico e científico.
No fim, o que se assiste é um descaso por parte dos políticos e da população, a falta de prioridade dada ao meio ambiente pelo poder público e o preconceito com os ecologistas, quadro este que interessa muito mais aos poderes econômicos e aos empreendedores urbanos, responsáveis pela degradação ambiental e da paisagem de nossas cidades, estimuladores da concentração de renda e da exclusão social.
Se a cidade de João Pessoa ainda pode aliar cultura com meio ambiente, promovendo uma real qualidade de vida para seus habitantes e visitantes, o que se assiste, infelizmente, é que ela caminha na mesma trilha das nossas grandes cidades, cuja qualidade cultural vai se tornando inversamente proporcional à qualidade ambiental.
publicado por olharesgeograficos às 18:32
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