Sexta-feira, 12 de Janeiro de 2007

A GEOGRAFIA E ORGANIZAÇÃO DO CIBERESPAÇO

 
Landoaldo Figueiredo de Lima[1]
Mahilma França de Oliveira[2]
 
Esse oceano de conhecimento humano que existe no ciberespaço, ao estar tão facilmente acessível - vale repetir – e, ao mesmo tempo, estar fora do controle dos governos e das elites tradicionais é “ ameaçador”: pois contribui efetivamente para despertar a consciência dos cidadãos e aumentar sua capacidade de influencia sobre as instituições dos homens na sociedade real. (JORGE MACHADO)
 
Introdução
 
O presente artigo parte de uma exposição de conceitos de espaço urbano virtual (as cibercidades), a organização do espaço virtual, as tentativas de territorialização deste e uma análise geográfica do tema buscando compreender como o rápido desenvolvimento deste mundo virtual, ao qual nos referimos como ciberespaço afeta a organização do território e o espaço urbano real. Este artigo foi produzido como forma de avaliação e complementação dos conhecimentos produzidos na disciplina: Estudo do Espaço Agrário, Urbano e Industrial, do curso de Licenciatura Plena em Geografia da Universidade Estadual da Paraíba – Campus III, tendo como Professor Dr. Belarmino Mariano.
 
Eu defino ciberespaço como o espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial dos computadores e das memórias de computadores. Esta definição inclui o conjunto dos sistemas de comunicação eletrônicos, na medida em que transmitem informações provenientes de fontes digitais ou destinadas a digitalização (LEVY, 1999, p. 92).
 
Analisando-se alguns conceitos de ciberespaço percebemos neste uma falta de vínculos efetivos com a Geografia Tradicional, por não apresentar uma estrutura física e não ser configurado geograficamente, Machado (2002) define:
 
O Ciberespaço seria uma projeção da realidade, que só existe virtualmente dentro de tais redes (de computadores) onde os signos da experiência humana são convertidos em pixels (contração de picture element) na tela do computador .(MACHADO, 2002, p35).
 
 
Não sendo o espaço virtual dotado de uma arquitetura geográfica tradicional, visto que esta normalmente se entende como uma forma territorial de organização material da sociedade, como é possível definir sua estrutura e compreender a sua organização?
 
A geograficidade do ciberespaço
 
É comum ao falarmos de ciberespaço se pensar em algo distante, totalmente futurista, num espaço longe da nossa realidade, numa espécie de “MATRIX”. No entanto ciberespaço é parte integrante da sociedade contemporânea, logo esta realidade deve ser compreendida pela Geografia (SILVA & TANCMAN, 2000), pois esta se torna uma nova forma de materialização dentro dos avanços da sociedade capitalista.
Existe uma crescente tentativa de controle da rede por parte dos governantes, porém o ciberespaço está livre das fronteiras políticas dos países, aplicar leis e regular as atividades de cidadãos que estão fora de seu território viola a idéia de geografia mutuamente exclusiva que é características dos estados modernos. Nessa perspectiva o espaço geográfico perde sua completa figuração de realidade e um ponto na rede dentro de um país se interliga com outro ponto da rede dentro de outro país em questão de segundos.
O Ciberespaço, assim, possui uma estrutura anárquica, com um crescimento baseado na liberdade de seus participantes, (que além de simples usuários são também cidadãos) e ainda que nem toda população tenha acesso á rede está tem se caracterizado como um espaço público, livre das imposições do mundo real, das ditaduras e de qualquer espécie de fanatismo (MACHADO, 2002). Claro que a rede é uma simulação constante do mercado capitalista que apela com o seu ponto.com para todos os tipos de potenciais e anônimos consumidores.
Quanto mais o ciberespaço se amplia, mais ele se torna universal, e menos o mundo informacional se torna totalizável (LEVY, 1999). Muito embora nem todos tenham acesso á rede, principalmente nos países mais pobres, este acesso tem crescido de forma acelerada, o crescimento do número das chamadas Lan Houses[3] tem aumentado consideravelmente o numero de usuários da rede, fazendo desta cada vez mais um ambiente democrático, de plena liberdade de expressão numa escala mundial, permite que interajam com pessoas de lugares distantes, que haja uma maior troca de informações. Quase tudo o que é, ocorre ou existe na rede é público universal e acessível. Ao mesmo tempo em que este acesso aumenta, também faz surgir sociedades marginalizadas, as quais não possuem nenhuma forma de acesso à rede, os info-excluídos. Desta forma o espaço virtual recria ou reflete a imagem da sociedade real. Seria esta uma imposição do mundo real?
 
 
O ciberespaço e a sociedade
                                         
O controle da informação é, e sempre será, a base do poder na história, o acesso democrático à informação - que se dá também com o direito democrático, à manifestação e, por extensão, o direito a geração de informação – é elemento fundamental de uma sociedade livre e plural (MACHADO, 2002, p.74).
 
Nos dias atuais onde o que vemos são as grandes potências mundiais lutando pelo poder, o ciberespaço é objeto de desejo de muitos. Pois, é nele onde encontramos todo o tipo de informações da maneira mais rápida e precisa possível. Informações estas, necessárias à sociedade, para que esteja bem informada e consciente sobre o que acontece a sua volta e em todo o mundo, podendo assim criar idéias e formar opiniões em busca de exercer os seus direitos.
Ao nos conectarmos a internet, entramos em contato com diversos tipos de pessoas, de diferentes raças, religiões e posições políticas, ou seja, pessoas com diferentes idéias sobre uma infinidade de assuntos expostos sem preconceitos, e é por com conta de toda essa diversidade cultural do ciberespaço que o conhecimento oferecido pela internet à sociedade é vasto, conhecimento que hoje através das Lan Houses, não está disponível apenas ao grupo das grandes elites, grandes políticos ou a grandes intelectuais, estão também disponíveis aos pobres, apesar do difícil acesso a internet nos países mais pobres. E toda essa acessibilidade por parte das massas de manipulação – os pobres – o primeiro grupo são os mais interessados no fim da liberdade da internet, para que não aja a distribuição de cultura aos mais pobres, para que eles não venham a se rebelar, pois segundo Machado (2002, p.75), “quanto mais pessoas tenham acesso a um terminal, maior será o impacto transformador na sociedade”.
Com isto a internet é um elemento transformador no qual a sociedade é o agente de mudança no pensamento das pessoas com suas informações, além de ser um rápido de meio de comunicação.
Concluímos que o ciberespaço é um espaço amplo, sem barreiras e sem fronteiras, portanto, não podemos delimitar o seu território. Sendo assim o ciberespaço perde qualquer vinculo com a Geografia Tradicional. O território do ciberespaço é tão virtual quanto a idéia de espaço ou território enquanto condições humanas de poder.
Também podemos perceber o quanto este mundo virtual e irreal, cheio de liberdade e de informações rápidas, está mais arraigado em nosso mundo real, na nossa sociedade contemporânea, o que gera uma democracia universal para as pessoas que acessam a rede em qualquer parte do mundo, rede esta que cresce de forma proporcionalmente direta ao crescimento da procura ao acesso a rede, fazendo com que cada vez mais as pessoas se tornem mais dependentes do ciberespaço para dar andamento ao espaço real, fora do mundo virtual. O mais marcante disso tudo é que o proibido da sociedade real é o que mais busca-se no universo da virtualidade.
 
 
Referências Bibliográficas
 
 LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999.
 
ALVES, Givanni; MARTINEZ, Vinício. Dialética do Ciberespaço: Trabalho, tecnologia e política no capitalismo global. Bauru: Ed. Praxis, 2002
 
BRAGA, Maria Helena; COSTA, Vaz. O espaço urbano e a arquitetura em Matrix. In: Silva; A. A. , GALEANO, Alex; DANTAS, A. Geografia Ciência dos complexos. Porto Alegre: Salinas, 2004
 
SILVA, Carlos Alberto F. da; Tancman, Michele. A dimensão do ciberespaço sob o prisma da cidade digital de Niterói. (Dissertação) Universidade Federal Fluminese, 2000.


[1] Graduando em Geografia pela UEPB/CH. E-mail: lima.sd@hotmail.com
[2] Graduanda em Geografia pela UEPB/CH. E-mail: mahilma_@hotmail.com
[3] Termo inglês que nomeia espaços destinados ao acesso à internet por parte das pessoas que pagam por hora de utilização. Estas casas tornaram-se bastante populares nos ultimos anos, pois facilitam o acesso à rede por parte da população que não possui computador doméstico.
publicado por olharesgeograficos às 05:50
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