Domingo, 19 de Novembro de 2006

GEOGRAFIA CULTURAL E DA PERCEPÇÃO: “OS TRABALHOS E OS DIAS DE PROMETEU ACORRENTADO”

   

Fonte: http://www.infoescola.com/mitologia-grega/prometeu/

 

Por Belarmino Mariano Neto 

Acho que existem duas questões em jogo, a primeira é relacionada aos elementos apalavrados e a outra diz respeito ao uso das palavras, pois a palavra é possuidora de muitas forças forjadas nos recônditos de nossa mente, elas expressam pensamentos, expressam sentimentos e, expressam vontades. Este trivium é minha maneira de viver e ver o mundo do qual sou participante.


Todas as palavras são de um potencial sacro fantástico. Elas são imantadas de significados e interesses tão divinos que podem ser encontradas no mitológico mundo de Hesíodo em “os trabalhos e os dias” e esclareço a escolha deste filosofo grego, pois nele encontramos o mito de “Prometeu e Pandora” que começa dizendo: “oculto retêm os deuses o vital para os homens; senão comodamente em um só dia trabalharias para teres por um ano, podendo em ócio ficar; acima da fumaça logo o leme alojarias; trabalhos de bois e incansáveis mulas se perderiam” (HESÍODO, 2006, p.23).


A escolha do fragmento de idéias gregas, tão primitivas e civilizadas encosta nos nossos dias de trabalho e de ócio. Temos muitas alegorias como: a “Caixa de Pandora”, enviada por “Júpiter” para castigar todos os homens mortais de um lugar. Percebam que ainda não estou querendo chegar à idéia instituída como Caos, nem a perspectiva de Nix ou de Eire. Figuras “erradas” e “iradas” que vivem surfando nas ondas olímpicas de nossa tradição filosófica e mitológica. Até porque, gosto por demais do Caos, da Noite e da Discórdia, pois é da deusa da Discórdia que nos alimentamos com os trabalhos e os dias.

 

Fonte: http://www.vanialima.blog.br/2013/04/a-caixa-de-pandora.html


Mas voltemos a Prometeu, pois lhe coube a dádiva de criação do homem, essa mistura de água, terra, ar e ocultos materiais divinos que lhes permitiram direcionar a face aos céus, se imaginando também um pouquinho deuses.
Vejam que estamos pensando em coisas essenciais que poderiam ser aqui representadas como elementos da natureza. Mas parece que na lógica da discórdia e na separação dos materiais, “o olho e o cérebro” (MEYER, 2002), preferem o cérebro matéria, memória expressa em neurônios e percepção visual da terra, do lugar ou do peso do firmamento.

Nesse momento, gostaria de invocar a mulher, pois “Pandora” parece ser o presente de grego, dádiva de Júpiter ao pobre Prometeu. Ela é um castigo de Júpiter e que atingirá de cheio a criação divina em forma de homem.
Nem gostaria muito de colocar o irmão de Prometeu nessa parte da história que lhes conto, mas foi exatamente Epimeteu, quem recebeu Pandora enquanto um presente, do qual Prometeu suspeitava e desconfiava. Pandora trazia em sua caixa, muitos e irados problemas para os homens e estes problemas escaparam antes que Pandora houvesse fechado a sua caixa, restando apenas um cantinho de esperança no fundo das coisas.


Vejam que estamos vivendo mais uma vez à sórdida história das tragédias humanas e colocadas enquanto antecipação de fatos e fantasias tão divinas e tão humanas, com os quais nos tornamos homens mortais. Assim, as coisas estão caminhando em nosso mundinho. O uso in-devido das palavras, fortalecem contradições e expõem as entranhas de tradicionais forças que vivem em subterrâneas camadas do nosso cérebro. Hoje estava me perguntando: Pensamento, memória e o consciente são mesmo de que matéria? Pelo que mesmo estamos lutando em nossos dias? Em que darão estas brigas de Titãs?


É nesse sentido que invoco Hesíodo em “os trabalhos e os dias”, pois pelo que me consta, existem muito melindro e vaidade entre as divindades do olímpico mundinho de nossa existência. Por isso os homens e mulheres que não são deuses, mesmo tendo sido projetados com o mesmo material e designe das divindades, precisam trabalhar, mesmo que muitos prefiram o ócio e confusões divinas.


Por outro lado, “O Prometeu acorrentado” acha que Pandora trás em sua caixa todos os tipos de males, uma narrativa em que o ódio, a inveja e tudo mais, recairão sobre o homem e seu lugar.  Vejo que as nossas relações estão tão presas ao mito de Prometeu e Pandora que o mundo dos homens, a história, a tradição, parecem vinganças de Zeus contra um lugar humano, amaldiçoado para sempre.


Gosto da idéia de ser uma mortal e de ver meus dias consumidos pela vida, pela imprevisibilidade, assim me sinto tão divino quanto às crianças que brincam despreocupas do amanhã, mas sei das minhas correntes e assumo a condição “prométeica” de ter que trabalhar os dias, de planejar meus sonhos e de fazer acontecer. Nesse sentido, todos os argumentos e sentimentos de pertencimento ao lugar possuem a mais fiel validade, todos os medos e atropelos na maneira de conduções das idéias são naturalmente aceitáveis por todos, mas a engrandecida e catastrófica idéia de que tudo vai acabar não ajudam na configuração das melhores argumentações para o presente.


Claro que o cérebro, processa necessidade imediata, reação instintiva e o frio na espinha quando se é surpreendido pelo latido do cão nas pernas. Mas passado o susto, recomposto o estado da racionalidade pura, será possível dialogar com as três maiores e invisíveis forças da natureza: Cronos (o tempo), Cosmo (o espaço) Caos (aqui traduzido com a incerteza). Falo do tempo, pois ele é o grande Senhor que a todos consome. No nosso caso, o tempo urge e precisamos ter clareza disso em nossas ações, pois depois que a areia escorre pelo fino gargalo da ampulheta, pouco se tem a fazer.

 

 

Fonte: https://fenixdefogo.wordpress.com/tag/cronos-tita/


Acredito que nessa relação espaço-tempo, a “Intercomunicação dos Sentidos”, Sobre a incerteza, acredito demais nela, é o corpo teórico com o qual gosto de trabalhar. Defendo inclusive que a vida é imprevisível, que “só há um ponto fixo”, como afirma Kafka e que é daí que precisamos partir. Não acredito que o cérebro funcione apenas para transmitir e dividir o movimento das ondas neurais. Algo mais que motricidade e mecânica físico-química acontecem nesse órgão de seleção e ação. Meio que discordando de Bérgson citado por Meyer (2002), somos possuidores de memória pura antecedente e o que chamo de essência espiritual dos titãs. Assim justifico tão enfronhado texto de mitos, homens, mulheres e divindades. 

Por isso, somos homens e mulheres mortais e sem culpas, nesse caso, conscientes dos papeis por nós assumidos entre “os trabalhos e os dias”, temos um poder reconhecido enquanto “lembrança pura”, transformada em “lembrança-imagem” (MAYER, 2002, p.24), e o conhecimento que podemos utilizar servirão para como Hercules, libertamos prometeu das correntes, pois sua luta foi conquistar o fogo para os humanos e por tal façanha foi acorrentado.
O lugar como um detalhe abre espaço-tempo para o uso da inteligência coletiva (LÉVY, 2000) e para a constituição de laços sociais e relações com o saber dos quais temos profundo censo de justiça, ética e mais uma vez inteligência coletiva. 


REFERÊNCIAS


HESÍODO. Os trabalhos e os dias. (Traduz. LAFER, M. C. N.). São Paulo: Iluminuras, 2006.
LÉVY, Pierre. A Inteligência coletiva – por uma antropologia o ciberespaço. São Paulo: Edições Loyola, 2000.
MEYER, Philippe. O olho e o cérebro – biofilosofia da percepção visual. São Paulo: Ed. Unesp, 2002.

publicado por olharesgeograficos às 01:29
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4 comentários:
De Henrique Toscano a 19 de Novembro de 2006 às 03:11
Caro professor Belarmino,

O ensaio, ao que me parece, foi fruto de uma forte reflexão e pesquisa acerca do tema.A sensibilidade para a busca de justificativas filosóficas e "mitlógicas" é excepcional, não fosse a dificuldade de cognição que o texto oferece a alguns, inclusive eu.
Mas, buscando o fulcro de toda a peça e o que dá azo as suas palavras, entendo suas proposições e seus argumentos, devidamente encaixados em outra ótica.
O sacríficio de um campus em virtude de uma suposta atitude propositiva e autônoma de uma universidade em prol de sua consolidação é ilógico.
Quando falamos em consolidação, falamos em atuação completa e proeficiente de tudo o que já existe.
Você não fala na perca do Campus, mas a entende plenamente pois conhece, como exemplificou em seu texto, as dificuldades e a burocracia do poder público, sujeito as maiores incertezas eleitorais.Inda mais, carrega em seu discurso o tal "vislumbro", e este não traz certeza alguma.
Cai por si só alguns policiamentos de discurso, veja só:
"...transferindo paulatinamente alguns cursos e instalando progressivamente novos cursos e novas modalidades de ensino..."

e adiante

"Consolidar as pós-graduações necessárias para a consolidação da UEPB, mesmo que de imediato, seja necessário transferir cursos de graduação de um campus para outro é garantir a expansão e a consolidação da UEPB como um todo."

Pois é, professor.Em um momento as coisas acontecem paulatinamente, em outra, imediatamente.
A própria confusão de idéias e de intenções me faz ver hoje Joedna como uma pessoa sem a menor credibilidade, e se quiseres saber, te explico tudo direitinho.
Quanto a residência dos professores, creio que poucos ficariam aqui, pois muitos são bastante enojados para ficar em uma cidade como uma grande incidência de moscas.
Retornam as vezes tarde da noite para suas casas, nem ao menos fazem de Guarabira dormitório.E condições não faltam.
Belo, inegavelmente você é um dos professores mais identificados com os alunos.Não só por seu grande conhecimento geográfico, mas fundamentalmente por seu conhecimento humano.
Agora, todos nós, alunos e comunidade, esperávamos um posicionamento mais humano e simples, não tão prolixo como seu texto, que por muitos será entendido como "pro lixo", pois simplesmente não serve a causa deles.
Penso que ainda reverás seu pensamentos, e verás que todas essas metas institucionais se resolverão sem sacrifícios, não com uma autonomia universitária arbitrária e insensível.
Você conhece seus alunos, seus problemas, suas dificuldades.Sabe que eles não são estudantes profissionais, mas muitos buscam engradecimento e conhecimento mesmo que no esquecimento.Pois bem, abandoná-los nessa causa é esuqecê-los duas vezes.

Respeitosamente,

Henrique
De Rosangela a 20 de Novembro de 2006 às 01:19
Bonito texto, Belo. Parabéns! De tudo, concordo com o fato "dialogar", que você muito bem enaltece. Conversando, todos poderiam se compreender e compreender a opinião, o julgo, a sugestão, o planejamento do outro. Entristece-me muito a atual situação da UEPB Campus III. Gostaria de ver uma grande mesa, formada por pessoas dispostas a ouvir e a sugerir soluções, soluções estas que fossem boas para todos, principalmente para os alunos do Campus, que são a nossa razão de existirmos enquanto mestres.

Abraços!
De Juliene a 20 de Novembro de 2006 às 18:16
Caro colega Belo,

É a primeira vez que comento sobre esse assunto em público, pois não tive oportunidade de participar da reunião sobre a proposta e sua votação.
Concordo plenamente quando expõe o poder da palavra e o impacto desse poder na vida dos homens, não é à toa que guerras são geradas pelo mau uso da palavra ou ainda a inexistência dela para se efetivar um diálogo. Baseio-me fundamentalmente aí para expor minha indignação. Não houve tempo para palavras ou diálogos, nem sequer discussões. Talvez seja essa a principal revolta dos alunos, eles não foram consultados e não foram esclarecidos, apenas informados.
Sei de todo o processo que citou a respeito da falta de incentivo a uma construção de um verdadeiro campus III (aqui não me resumiria a citar o apoio do poder local, mas de outros âmbitos). Fizemos parte do primeiro concurso, chegamos a uma UEPB que possuía um quadro mínimo de professores efetivos com uma missão principal de tentar consolidar o campus, desenvolvendo a trilogia pesquisa, ensino e extensão. Não foi fácil! Durante esses anos, muitas solicitações e pouco atendimento, mas acima de tudo muita vontade de nossa parte e principalmente dos alunos. O nosso desejo era apostar em um verdadeiro campus III, por isso sempre buscamos o apoio administrativo e, por coincidência (talvez porque experimentamos morar em Guarabira), também propusemos a residência universitária e de professores a Profa. Joedna.
A UEPB cresceu muito nesses quatro anos, e isso é reflexo de todos que arregaçaram as mangas e puseram a mão na massa: professores, alunos, funcionários, administradores, com seus erros e acertos. Mas, o nosso campus precisa se consolidar efetivamente, precisa de muito investimento na infra-estrutura, na capacitação de funcionários, realização de concurso público para professores EFETIVOS para todos os cursos.
Então, aqui começam meus questionamentos:
Por que a expansão da UEPB e não o investimento em campi já existentes para consolidá-la e satisfazer o exigido pelos órgãos de fomento para pesquisa e extensão e pelo MEC?
Por que o sindicato dos professores e funcionários aceitou tal fato? (Já que afirmou em reunião que não apoiaria a expansão logo após a autonomia, porque isso implicaria em afetar a verba destinada aos campi e, principalmente, porque 90% da verba era voltada para folha de pagamento, complicando investimentos em outras áreas.)
Por que isso também não foi amplamente discutido antes de ser efetivado? (Uma administração participativa perpassa por essas discussões, certo?)
Concordo que a consolidação da pós-graduação em João Pessoa é mais fácil, exige menos. Mas, será que vale a pena deixar alunos esperarem a possibilidade de novos cursos serem implantados para poderem seguir sua carreira acadêmica?
Sei da possibilidade de uma parceria com o Governo Federal para implantação de um campus no Brejo e, provavelmente, esses novos cursos estejam atrelados a isso. Então, já que a transferência aparenta ser a única saída, seria fundamental viabilizar essa implantação (em parceria com o Estado e Município) como vem sendo feito em todo Brasil.
Não podemos ficar com hipóteses ou projetos que seriam implementados aos poucos. Entendo e partilho de sua preocupação, da Reitora e da Diretora, mas acredito que nossa razão de existir enquanto instituição são os alunos, por isso temos que pensar com cuidado e com respostas imediatas para o bem deles...

Até breve!
De João Cândido Tessar a 13 de Dezembro de 2006 às 12:04
Belo,

Fico feliz por saber que o senhor é tão prolixo e vertido nos fatos elucubracionais dos antigos gregos. A prolixidade de teu texto não deve ser encarado como algo negativo, mas como algo des-necessariamente tautológico. Quiçá, assim, os 'lares' nos ouçam e corram em nossa ajuda. Instaurou-se, verdadeiramente, um cabo-de-guerra... Fato que de qualquer modo deixou-nos todos tristes. Professores digladiando-se no "adro" da nossa instituição... Foi um pouco demais! Bem, o fato é que os lados se acusam, deendem-se, elucubram fatos! Além da pele em que os mitos foram escritos devemos procurar seus significados profundos. Bem, Pandora não só é aquela que traz os males, mas, contraditoriamente, é também aquela que traz o bem; Prometeu desafiou os deuses e deu liberdade aos homens. Mais do que uma contradição mitológica Prometeu e Pandora não são adversos ou anversos ou mesmo dialéticos, pois fazem parte de uma mesma estrutura se completa e se complementa. Claro, não é o caso para diletantismo mitológico e intelectual. Quero dizer que eu te admiro muito e amo Joedna demais. Sei que a transferência dos cursos para João Pessoa é por demais importante. Assim, fico feliz por saber que a tua intelectualidade e a tua amizade está vertida para este lado tão importante! Grande abraço,

João Cândido Tessar

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