Sábado, 27 de Maio de 2006

A QUE SE REDUZ O ENSINO?

A Que se reduz a ciência? Das coisas as palavras.
Belarmino Mariano Neto.
·      Ponto de Par#tida
 
...“As palavras são o veículo obrigatório na transmissão dos conhecimentos. Através delas, as gerações vão-se transmitindo os seus erros e verdades, os primeiros mais que os segundos. Imitadores uns dos outros, não acertamos a empregar na luta mais que as mesmas armas de nossos contraditores. Com palavras pretendemos destruir o império das palavras”...(MELLA, Ricardo. In: Educação Libertária, pp. 79/80).
 
                        Este trabalho é fruto de uma calorosa discussão sobre as problemáticas do sistema de ensino, ocorrida no curso de metodologia do ensino superior, ministrada pelo professor Antônio Carlos, no Curso de Especialização em Geografia e Gestão Territorial.
                        É objetivo nosso, fazer um resgate de alguns fragmentos das questões abordadas no decorrer do curso, coisa que geralmente não ocorre e como o próprio professor Antônio Carlos coloca: “a grande produção e experimentos realizados em sala de aula, geralmente não são registrados ou publicados e se encerram em si”, perdendo o valor de contributo a ser coletivizado.
                        Para transformar os fragmentos de discussão em uma corrente contextualizada, me ative a algumas leituras extra-classe para anelar alguns pensamentos dando uma versão particular ao tema colocado.
                        Entender ou pensar o ensino em sua atual estrutura, passa por considerar todos os elementos socioculturais e políticos que engendraram o desenvolvimento da humanidade no desenrolar de sua história. Como as relações homens/homens/natureza/homens permitiram as sociedades avançarem em seus fazeres o ensinar/aprender.
                        Este texto questiona o tempo todo, não se dá por satisfeito e chega ao extremo da negação do ensino instituído. Coloca as instituições de ensino enquanto postos avançados de uma sociedade autoritária e desigual, tendo no sistema de ensino um dos meios de reprodução ideológica e manutenção do poder e das idéias nas mãos de poucos. Muitas vezes achamos que estamos cumprindo o papel de “educadores”, e se atentos, logo notaremo-nos como meros (re)produtores dos valores instituídos.
                        Esta produção se propõe enquanto metáfora, demonstrar o quanto as palavras podem esconder em seus signos a real significância das “coisas”, isto é, os que ensinam por que não sabem constróem homens quiméricos, egoístas e sem pontos de partida, ao passo que os que sabem, fazem e no fazer se constrói no dia da consciência, a cons(ciência) de cada um.
                        Por reconhecer a importância do ensinar/aprender, colocamos algumas UTOPIAS para reflexões e ações que apontem para a ALTERATIVIDADE do fazer ensinando.
 
·       Brincando com o Sagrado
 
                        O homem ainda menino e já brincava com os segredos do fogo, brinquedo sagrado que tornava “Deus enquanto homem imortal e o homem enquanto Deus mortal”. Assim pode ter sido seus primeiros passos no brincar de evoluir, brinquedos de pedras. Teoítas[1] fantásticos na arte/técnica de polir e unir madeira, cipó e outros adereços da natureza para um melhor se divertir no ato do primitivo viver.
                        Com sua moleque pedrada o homem vai quebrando as vidraças do desconhecido e mesmo desprovido de razão, ensaia gritos de guerra e planos riscados nas paredes do morar das pedras sobre pedras. São os primeiros mapas mentais, riscos e rabiscos das trilhas a serem trilhadas. Seguir os caminhos do sol e brincar de caçar ou ser caçado pelas leis da selva.
                        Do brincar de se esconder pelas cavernas escuras, assim também eram as suas entranhas do não explicar as imagens e sonhos em constante movimento. O escuro aprisionava no homem criança a sua vontade de ver a noite. Logo, este se voltava para sua chama interior, coletivizada na fogueira do centro da caverna. As palavras disformes davam lugar a outras expressões e signos de comunicação. Da carne chamuscada, a luta pelo melhor pedaço, dos ossos e pedradas nas cabeças nasceram os risos, todos filhos do trágico e do medo. Assim desabrocharam os andaluzes para florear o futurismo dos técnicos da destruição.
                        No filme a Guerra do Fogo, o diretor consegue de forma sutil nos mostrar que o primeiro ato de desenvolvimento da civilização humana em relação aos diversos graus de conhecimento das tribos ou bandos, quando ainda homens das cavernas ou dos pântanos, vai ser no encontro desses grupos, os choques culturais e a expressão do riso. O sorriso marca a fisionomia dos primeiros latejos de pensamento. O riso nasce das diferenças, e da despreocupação, os filhos do medo e do desconhecido se esqueciam do medo quando começavam a sorrir, ou quando algo de trágico os afetavam. O brincar de mascaras, o pintar as pedras paredes da caverna e o ato de se pintar despertam no primata a construção mental dos signos. Daí para a organização das idéias só alguns passos a mais...
                        A caverna e seus entornos era um imenso universo único verso de uma poesia com sons desconexos. O verbo ainda não se fazia homem, mas mesmo sem verbo a criação já tinha poderes em meio as trevas do desconhecido mundo dos homens/animais. O Sagrado ainda era segredo e do segredo guardava-se instintivamente os fios do medo. O fogo apagava a treva para queimar a noite e criar sobras. Luz e sombra é um alimento para depois da caça, a sombra que nasce da luz impressiona os animais humanos, filhos do escuro nascem para o fogo e passam a brincar de deuses.
                        Pensar crianças brincando nas cavernas, pedras, ossos, folhas, insetos, pedras, ossos... brincar é o primeiro ato de criação, ensinar brincando, brincando de ensinar. Como seriam as primeiras crianças? As primeiras formas de aprender?
                        São muitas as tentativas de reconstituição e descobertas dos primeiros homens. Os escritos sobre a possível forma de vida primitiva abundam as bibliotecas de nosso moderno mundo das idéias, e em meio as tantas descobertas predominam as histórias dos adultos. O fazer infantil dos primatas ainda encontra-se sagrado em algum lugar das várias camadas geológicas de vários pontos da terra. Enquanto isso brincar é preciso e é uma das coisas mais sérias no fazer de uma criança.
                        O brinquedo é uma constante nas diferentes formas de uma sociedade, acredito que desde os primórdios. O mais fantástico espaço da fantasia e da não seriedade, ele consegue alimentar a mente de muita imaginação. Você pode se dedicar horas a fio no observar o comportamento infantil diante do brinquedo. Para a criança, brincar é um ato de desvendar emoções e partir para a criação de enigmas e diferentes signos, daí sua importância. Talvez a humanidade possa ter evoluído não a partir de seus adultos, mas de suas crianças em seus constantes atos de brincar. Pensar assim e subverter idéias sobre o ensino hoje, tão sem importância em suas diferentes fases.
 
 
·       “Quem Sabe Faz, Quem não Sabe Ensina”
 
                        A escola enquanto locus do saber, é no fazer moderno um dos espaços que se pretende enquanto organizadora de meios para uma compreensão da realidade. Os homens do nosso tempo foram crianças. Se foram e perderam essa qualidade, precisam entender que não aprenderam os mistérios do fogo, não se queimaram no brincar de “toca” [2], é como não ter história nem experiência para contar. Sendo assim, como criar e transformar a realidade?
 
“Toda ciência seria supérflua se o real fosse transparente. as crianças aplicam no brinquedo toda sua sensibilidade sem duvidar daquilo que é dado, daquilo que é aparente. Brincando, ela nega o empirismo comum nos adultos. aquilo que é, não é. Um carrinho não é apenas um carrinho; uma boneca não é apenas uma boneca. É tudo aquilo que sua imaginação quiser.
As crianças com sua refinada sensibilidade percebem desde cedo que os dados imediatos representam tão-somente uma das dimensões do real, mas não são o real. A descoberta do real é uma viagem que vai muito além do mundo das aparências. No brinquedo, o empirismo dos significados óbvios e visíveis não é capaz de contentar as crianças. elas querem sonhar, exercitar todos os sentidos com seus brinquedos e, junto a eles, explorar, sentir e conhecer o mundo. Tudo merece o envolvimento infantil.
O brinquedo é capaz de revelar, assim, muitas das contradições existentes entre a     perspectiva adulta e a infantil. Negando o significado aparente do brinquedo, a criança nega também a interpretação adulta do brinquedo.”(Cf. OLIVEIRA, 1984, pp.9)
 
                        O aguçar a curiosidade , o contato com os desafios do mundo, as viagens pela imaginação, o moldar e dar formas aos diferentes elementos que podem se transformar em brinquedos. O simples ato de quebrar um brinquedo na tentativa de mudanças, leva a criança a elaboração ou contato com o fazer. No ato “destrutivo”, a (des)construção, que muitas vezes é duramente recriminada pelos pais, demonstra uma relação diferente entre a criança e o adulto na compreensão real do brinquedo e da vida. No dizer de Michel Bakunin, “A desordem, ou a ordem livre”, é fundamental para qualquer pensamento, sentimento e vontade. Assim é o fazer infantil, um fazer que sabe, e que dispensa o ensinar de quem não sabe.
                        Do brinquedo as brincadeiras, do objeto individualizado ao brincar coletivo, tudo isso é uma constante no aprender. Nas brincadeiras, as crianças fazem suas próprias regras ou entram em contato com várias regras e práticas de convívio social. É nesse momento de contato com as regras que o poder ideológico vai organizando sua ação de alienação no que estar por vir. O brinquedo que até o momento aparecia como um elemento apenas para brincar ganha nova versão no processo de construção das identidades e concepções de mundo.
                         A indústria da destruição faz tudo igual e em série. Os brinquedos perdem sua identidade mas mesmo assim fascinam, é uma grande fábrica de sonhos que ensina as crianças quais são os primeiros passos para o consumo.
                        Do osso, galhos e pedras, artesanatos para brincar, temos em fase de desaparecimento, importantes momentos da história dos homens artesãos, que brincando com alguns elementos da natureza faziam suas formas de encantar crianças, em um mundo cheio das fantasias realmente mágicas.
                        Será que ainda somos as mesmas crianças que brincávamos como os nossos pais? Somos as cavernas ou as cavernas somos nós, nossos pais e nossos avós?
                        Sendo convidado para uma festinha de aniversário de uma sobrinha, levei como presente um JEEP, carrinho cheio de detalhes. Na hora de abrir os presentes, a garotinha ficou bastante contente com o carro. Poderia ter levado uma boneca de pano, ou alguma coisa artesanal, mas a intenção foi mesmo questionar os papeis do gênero.
                        Para os pais, outros irmãos e demais convidados, aquilo seria um presente para meninos, pois presentes para meninas seriam bonecas.
                        Atingido meu objetivo, isso me fez pensar nas cavernas e nos “pequenos primatinhas”. Uma distância muito grande, mas como podemos brincar com as palavras e com os pensamentos, corremos todos os riscos das imaginadas aventuras. Existiria alguma diferença entre a minha sobrinha e tão distantes garot(a)os? Até que ponto podemos pensar no mundo humano enquanto macro, brincar com os elementos da natureza para construção de carros, manequins, viadutos e mais...
                        Brincamos de construir cidades; fazermos guerras, brincamos de ser natureza fazendo agricultura, brincamos de civilização produzindo cultura. Até chegarmos a macro-física do poder para não podermos mais brincar, pois só uns podem. Ou melhor, resta no lúdico mundo das idéias o brincar de bandidos e heróis para na construção das leituras a nosso história em quadrinhos.
 
·       O Ensino Amor(daçado)
 
                        O mundo contemporâneo, não tendo mais cavernas nem florestas para deixar seus filhos, os deixa nas escolas. Enquanto isso, não tendo mais caça, todos, homens e mulheres, vão brincar de construir as suas megalomaníacas selvas de pedras. Uns brincam de dar ordens e outros brincam de obedecer, estas são as regras. Nas escolas os filhos não podem brincar pois precisam aprender a no futuro construírem as suas próprias pedras de selvas. Estas são as regras, reguladas, carimbadas, rotuladas, avaliadas, e mais... Como somos feitos de sonhos, estamos na escola enquanto crianças, mas preferimos sonhar. Repetimos a escola quantas vezes as regras quiserem, assim podemos entrar no mundo dos metais para construirmos nossos mapas mentais, (des)caminhos com dois tempos: a espera do intervalo e a espera da saída. Um mundo estranho, berço em que não queremos estar dentro nem fora.
                        Observando crianças em sala de aula e no recreio, percebemos dois mundos tão próximos da distância que chegam a assustar. Um tempo tão curto para tanta produção, um tempo tão longo para quase nada. Será que já não seria hora de pensarmos (de)novo na arte do “aprender a fazer fazendo”, do “aprender a amar amando”?
                        Estamos diante de um grande dilema, Por que será que as nossas crianças não querem entrar nessa brincadeira ditada pelos adultos? Teriam consciência de que a escola que hoje se apresenta nada mais é que o autoritarismo como um longo processo, onde para a criança resta uma obediência cega ao professor, para depois, como “bom cidadão” também obedecer cegamente as autoridades sociais?
                        A criança vista como um adulto em miniatura, é arrastada de sua caverna, seus ossos, pedras e até brinquedos industrializados para, na escola da submissão apreender a transmissão de um conjunto de valores socialmente admitidos. Aí nasce a educação proselitista de propaganda, que no dizer de Ricardo Mella: “É aquela que não fomenta a liberdade de pensamento, nem a liberdade do indivíduo e nem sequer uma atitude científica”, mesmo sabendo nós, que somos filhos dos séculos de maiores poderes intelectuais. Quando Michael Bakunin afirma que: “tanto a criança como o adulto, só chegam a sabedoria pela própria experiência e nunca pelos outros”, ele estabelece os fundamentos para dois tipos de morais para o ensino: a moral divina e moral humana: “a moral divina que se fundamenta em princípios imorais: o respeito a autoridade e o desprezo a humanidade”; e a “moral humana ao contrário se fundamenta no desprezo da autoridade e respeito à liberdade e à humanidade”. Quem sabe esteja aí a resistência incansável das crianças de diferentes camadas sociais em se moldar a esta escola que se apresenta, parecendo até que a desobediência é uma das virtudes originais dos homens.
                        A ética e a moral infantil, quando ainda não impregnadas pelos valores e signos sistemáticos da ideologia dominante, são uma essência da liberdade, que lentamente vai sendo tragada pela desigual sociedade. Millôr Fernandes sintetiza muito bem este pensar quando afirma que: “Todos os homens nascem livres e iguais. Logo depois a coisa muda”. É um pensar genérico, mas nos serve, a medida que nos joga no mundo do nascimento ou na origem humana, pois o nascer nos faz pensar antes de homens, crianças. E uma escola ou sistema de ensino que se baseia em forjar inteligências segundo um modelo pronto, se propõe a nada menos que, saquear da criança a faculdade de pensar com sua própria iniciativa.
                        Para as crianças talvez não sirva um livre arbítrio metafísico, abstrato ou fictício, este escamoteia a realidade e na certa nos colocará enquanto escravos de uma moral divina e negadora de homens (re)produtos das relações da sociedade com a natureza e vice versa. “A verdade de hoje pode ser o erro de amanhã”. E a verdade para a criança só existe enquanto experimento. É o brincar com o fogo e se queimar, jogar as brasas para o ar e sentir-se moleque que desafia o sagrado, assim é a verdade infantil e aí de quem desafia-la, pois “na razão, para cada acerto há cem erros”.
 
 
·       Pensando nas Cores Cinzas do Ensino
 
                        Poderíamos começar perguntando a que se reduz o ensino? Existe diferenças entre ensinar e explicar?
                        Ensinar para alguns pode significar o modelar criaturas à medida de seus erros e preconceitos. Logo, todo ensino incorre no dogmatismo ou propaganda de idéias pré-concebidas. Daí observarmos que o educar passa também por princípios preestabelecidos e doutrinários. Assim como Deus nos fez a sua imagem e semelhança, para muitos o ensino teria este papel de transformar os jovens à “nossa” imagem e semelhança, a partir de dogmas religiosos, pensamentos filosóficos, e ou uma opinião sociocultural e política idealizadas por “nós” e imposta via ensino.
                        Enquanto individualidade o homem deve ser livre para desenvolver todas as suas possibilidades, levando em conta os aspectos mentais, físicos, intelectuais ou afetivos, pois a busca do aprender é uma característica natural do homem. Pensando assim, não podemos ver o ensino como uma propaganda, pois nessa condição, todo professor inevitavelmente será um “doutrinador”.
                        Enquanto ser coletivo, a criança que for educada por estes parâmetros nada mais será que uma cópia mal arranjada de uma sociedade que desrespeita a liberdade de pensamento e de ação, eliminando dos jovens o direito ou desejo de saber por si mesmos, de formar suas próprias idéias.
                         O ensino poderá se reduzir a lições e substância das coisas e ou lições de palavras. As palavras podem no máximo servir para algumas explicações, e as explicações geralmente são dadas a partir de idéias feitas, e ensinar a partir de idéias prontas ou semi-acabadas é interferir dogmaticamente na liberdade mental das crianças, por mais bem intencionado que se queira ensinar. O ensino enquanto substância das coisas tem como princípio a experimentação, a comprovação científica e a realidade vivida quotidianamente.
 
“Ensinar é algo mais que explicar, porquanto é instruir ou doutrinar. Quem explica uma doutrina errônea a fim de tornar patente a sua falsidade é claro que está ensinando, mas não ensina a doutrina que explica, apenas a repudia.
Um exemplo entre muitos vai esclarecer esta diferença. Abre-se um livro de geografia elementar e na parte que trata da astronomia se encontra no início a explicação do sistema de Ptolomeu, que põe a Terra no centro do Universo e todos os demais corpos girando ao redor dela. Em seguida vem o sistema de Copérmico, que considera o Sol fixo e os planetas girando ao seu redor. E se acrescenta: este último sistema é o admitido hoje em dia. A coisa é clara; explica-se ou se dá a conhecer o primeiro; explica-se e se ensina o segundo. Não se ensina aquele porque é considerado errôneo”. (MELLA, Ricardo. In: Educação Libertária, pp. 75).
 
                        Logo, mesmo que todo ensino suponha uma prévia explicação, ensinar e explicar não são sinônimos. O querer ensinar é se responsabilizar por uma das atitudes mais sérias do fazer uma sociedade, e talvez resida aí os males de todos os desajustes sócio-econômicos e culturais de nossa época. A escola, a família e o Estado, conseguem moldar em “suas” crianças, os pensamentos, sentimentos e vontades. Daí “ainda sermos os mesmos e vivermos como os nossos pais”.
 
 
·       O Lúdico como Prática na Arte de Fazer Ensinando
 
                        Esta é a volta dos mortos vivos, daqueles que acreditam na existência do sangue correndo nas veias, daqueles que acreditam no fazer acontecer. Para os feitos de barro, que voltem ao pó. Para os feitos de tesão e alegria, que viva o lúdico! Pois a escola sem paredes precisa nascer, e com ela todos os sonhos de liberdade no fazer e pensar dos alunos/professores/alunos. Se temos uma escola e um sistema de ensino autoritário e cheio de barreiras para o fazer coletivo, nos resta como alternativa, as pequenas ações. O movimento pingo d’água pode abrir no seio do arcaico, fendas para a alteratividade sociocultural de uma nova cidadania. a Arte e o Lúdico podem ser as trilhas.
                        Imaginaremos a escola como um circo[3], uma mandala em movimento, um caleidoscópio ambulante. Dois tipos de professores poderão existir: o professor domador, e o professor palhaço. O primeiro é aquele que com seu chicote chamado “autoridade”, vai aos poucos centrando o fazer de uma classe ou grupo as suas vontades, aí teremos alunos enquanto feras domadas. Todos os artifícios serão usados para o controle e bom andamento do espetáculo; o segundo, seria o professor palhaço, aquele que tem como arma roubar a cena para construir o riso e novos homens cheios de crianças que engolem fogo, soltam as feras e fazem do picadeiro uma festa de ensinar e aprender no fazer coletivo. O ser palhaço é dividir a autoria do espetáculo com a platéia, é eliminar o ranço do autoritarismo.
                        Qualquer novidade que tira a sala de aula da rotina já é vista com muito entusiasmo pelos estudantes. Se o professor for dinâmico, terá maior facilidade em trabalhar com a arte e o lúdico em qualquer uma das diversas disciplinas que fazem a escola de nossos dias. Os brinquedos, os jogos, o teatro, a poesia, a música, a pintura, a dança, o vídeo e a confecção de maquetes ou outros instrumentos que sirvam para estimular o ensinar/aprender. As viagens de campo, visitação a fábricas, órgãos públicos, etc., poderão tirar a escola de sua constante crise, dando ao ensino uma nova dinâmica.
·       A Geografia como Exemplo
 
                        Podemos pensar a geografia enquanto um dos caminhos do “meio”, assim , conteúdo pode ser apenas um meio, objetivos e metodologia também como apenas um meio. Nesse contexto não teríamos caminhos prontos, mas apenas trilhas para o caminhar.
                        De acordo com os interesses individuais e coletivos uma educação permanente e na perspectiva de despoluição da mente, que se projete para além do intelecto, trabalhando o físico e também o afetivo. Pensamento, sentimento e vontade livres. Esse será o primeiro passo para não mais ensinarmos o que não sabemos. O ensino se reduzindo ao que ele deve ser: nada mais que o fazer dos que sabem.
                        Uma educação permanente em geografia mais especificamente, deverá levar em conta o naturismo, práticas culturais e sociais e o trabalho prático, em composição com o trabalho intelectual. As relações de gênero do tipo educação sexual, consciência masculino/feminina e mais...O ouvir, ler, falar, escrever. A razão, memória e imaginação. Todos estes elementos, se trabalhados a partir do fazer individual e coletivo em uma perspectiva de desordem ou ordem livre[4], a partir do estudo do meio, ou seja, nossa localidade e nosso tempo, além dos outros lugares, teremos uma geografia eminentemente ALTERATIVA.
 
Do ponto de vista das crianças, “o meio” é toda aquela realidade, física, biológica, humana, que as rodeia, à qual se ligam de uma maneira direta através da experiência e com a qual estão em intercâmbio permanente. Não se pode, portanto, precisar os limites do meio porque à medida que a criança cresce, seus relacionamentos com a realidade que a rodeia se tornam “imperiosos”... O meio cada vez é mais amplo, se estende: meu quintal, minha rua, meu bairro, meu lugarejo, os arredores do meu lugarejo”...(Cf. NIDELCOFF, 1979, pp.10)
 
                        As práticas em geografia podem ser as mais diversas possíveis. Para dimensionar tais propostas, podemos pensar diversas formas de trabalhar o ensino de geografia não enquanto aparelho ideológico que massifica idéias pré estabelecidas, do tipo: heróis de guerras, grandes nomes dos governantes nacionais, pátria, nação, etc. As principais avenidas de nossas cidades geralmente são nomeadas com figuras “ilustres” da história brasileira. Esse tipo de espaço que a geografia materializa precisa ser superado, em seu lugar, pode-se trabalhar com a liberdade de interesse e pensar dos alunos a partir de seus meios espaciais e suas contradições.
                        Podemos começar com a compreensão de nossa casa, enquanto micro-espaço de relações. Entender esse espaço do lar é fundamental para se ir mais adiante. O quintal, o jardim, os diversos ambientes, seus tamanhos e como são ocupados.
                        É muito fora da realidade o aluno decorar nomes de rios do Egito, da Europa ou Ásia, e não saber o nome e as condições de vida do rio que corta sua cidade.
                        Os jogos cognitivos também são muito importantes, vamos citar alguns exemplos: jogos podem ser trabalhados como geradores de discussões e conteúdos para a geografia. O xadrez, o Woor, imagem em ação e outros, permitem novas idéias para o aprender.
                        Podemos trabalhar relações sociais e de poder dentro do xadrez, como também a geopolítica e suas estratégias de guerra. O xadrez é um excelente espaço para o exercício de pensar o espaço geográfico, além da elaboração mental, ou exercício da racionalidade. Trabalhar o xadrez no ensino superior ou em qualquer outro estágio do conhecimento é uma importante oportunidade de colocarmos para os alunos a importância e experiência em trabalhar pela vereda artístico-cultural.
                        O “Woor”, um jogo de estratégias para a guerra, se bem usado, dar uma excelente oportunidade de trabalho com conceitos de região, de totalidade, além de um infinito horizonte histórico, uma vez que as regras do jogo nos remete a uma organização territorial feita a partir das duas primeiras grandes guerras mundiais. Entender o espaço geográfico a partir do WOOR, é levar em conta os processos e interesses sócio-econômicos e políticos das várias organizações humanas. O jogo também nos permite fazer uma leitura cartográfica das diferentes regiões e países no planeta. O jogo cria um espirito de disputa acirrada, isso pode ser trabalhado na perspectiva crítica em relação aos sistemas capitalista, socialistas e ou outros, até mesmo imaginários.
                        Outro jogo interessante para despertar os alunos para as formas, é o TANGRAN, um jogo que cria mil e uma possibilidades de formas a partir de sete peças que originam um quadrado e daí para tudo o que nossa imaginação for capaz.
                        Ainda trabalhando noções de espaço, temos o CALEIDOSCÓPIO, brinquedo inventado pelos Persas a mais de dois mil anos antes de Cristo e que nos coloca frente a frente com o caos e o cosmos. O micro, meso e macro espaço, em formas triangulares, exagonais, etc. É a multidisciplinalidade de nossa visão onde as formas nunca se repetem. Podemos afirmar que este pequeno “brinquedo”, apresenta um conjunto de formas do pensar euclidiano, responsáveis pelas idéias de espaço matemático. Ou seja, um passo para a busca de teorias de espaço para a geografia.
                        Trabalhando os elementos da natureza, podemos pensar em temas ligados a topografia, pois a partir das formas, podemos ensinar fazendo. Para isso, basta o professor observar a taba da maré[5], e quando a praia estiver com a maré baixa, é só levar a turma para na areia trabalhar. Nesse ambiente podemos exercitar na prática, as diversas formas de relevo da superfície terrestre, ou especificamente de nosso meio vivido. Os planaltos, as planícies, os vales, as montanhas, as cordilheiras, etc. No ato de fazer vai-se colocando os diferentes conceitos da geomorfologia. Construída essa base topográfica, a partir de mapas já existentes, estamos estudando também cartografia, e nesse momento entram outros elementos da paisagem, vegetação, rios, animais(natureza), e pontes, cidades, traçados de circulação, indústrias, produções agrícolas (sociedade).
                        Além do relevo, a praia é um bom lugar para se trabalhar os pontos de orientação, os ciclos da água, a hidrosfera, a litosfera, a atmosfera e completando o ciclo, a biosfera. Estes são alguns poucos exemplos de atividades práticas que poderão render homens livres e mais comprometidos com os destinos do planeta “nicho” de todos.
                        Falar dessas coisas, me faz lembrar de Hulboltd e Ritter, exemplos de que o geógrafo precisa ser antes de mais nada um viajante, e só aí é que a descrição faz algum sentido, que para se aproximar da fidelidade será preciso a maior riqueza de detalhes, quase um romance.
 
“Um mapa do mundo que não inclua a UTOPIA não merece nem ser olhado, pois deixa de fora o país no qual a humanidade está sempre a desembarcar”... (WILDER, 1979, pp.7)
 
                        A Educação Artística poderá ser uma grande ponte para a arte do fazer geográfico, um exemplo disso pode ser o passar técnicas para a confecção de maquetes sobre os mais variados temas geográficos, tais como: uma fábrica, uma fazenda, uma cidade, a poluição, os vulcões, o sistema solar, etc. São muitas as possibilidades, e esse fazer é para a criança uma gostosa brincadeira de aprender.
                        O teatro, a dança, o folclore, a expressão corporal, a consciência corporal, a música, a poesia, a pesca os castelos de areia e muito mais, estão carregados de geografia da percepção, de geografia geral e ou regional. Isto podendo ser trabalhado em qualquer idade do fazer geográfico.
                        Pensar estas formas é apontar para a superação de alguns obstáculos por que passa a educação hoje, são desafios que podem mexer com as estruturas do bem arquitetado sistema de ensino, mas esta é a tarefa dos que querem uma escola viva, atuante, participativa. Só assim iniciaremos o processo de construção de uma nova sociedade, onde menina(o), mulher e homem tenham como base: a solidariedade, a cooperação e a reciprocidade, pilares de construção da GRANDE PIRÂMIDE QUE SONHAMOS HUMANIDADE. Construída pela Grande Universidade da Vida - GUV.


[1] Teo ( Deus), ítas (de Pedras). Relação homens das cavernas e pedras com o sagrado.
[2] Brincar de toca, é o mesmo que pega, onde as crianças treinam sua resistência e agilidade. Começa com um único garoto(a) que tenta tocar nos outros, os que vão sendo tocados passam a formar uma corrente humana até que todos se unam, ou sejam tocados.
[3] Esta idéia vem sendo discutida pelo Professor Manoel Fernandes da UFPb DGEOC, (mimeo).
[4] Cf. BAKUNIN, Michael. A Educação Integral. In: Educação Libertária, pp. 34/49.
[5] O exemplo da praia, pode ser trabalhado em rios, para os lugares distantes do mar.
publicado por olharesgeograficos às 21:56
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Abril 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
23
24
25
26
27
28
29
30

.posts recentes

. A Democracia Brasileira c...

. Destruição do Rio Doce em...

. Geopolítica: Tragédia Sír...

. Refugiados: Para onde cam...

. AS OLIGARQUIAS E O PODER ...

. A Força do “Não”

. GEOPOLÍTICA AMERICANA NAS...

. Resenha Geográfica - Kant...

. A geografia Cultural - Ol...

. Programa de Teoria da Geo...

.arquivos

. Abril 2016

. Novembro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Julho 2012

. Dezembro 2009

. Fevereiro 2009

. Julho 2008

. Novembro 2007

. Setembro 2007

. Maio 2007

. Março 2007

. Janeiro 2007

. Novembro 2006

. Setembro 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds