Sexta-feira, 2 de Janeiro de 2015

Dos mapas mentais da solidão às cartografias do envelhecimento 

Por: Belarmino Mariano Neto

Fonte: Uma longa estrada | Diário de Bordo - leccoo.wordpress.com 

 

No frontal dos teus olhos uma penumbra, um rasgo de luz entre os cacos de vidro cor de bronze se espalham ao final da tarde e o por do sol escorre pelos manguezais do rio Sanhauá, até atingirem o horizonte dos tabuleiros litorâneos na direção ocidental de mais um dia oco que se alonga para os sertões, onde o sol ainda castiga em suas faíscas de luzeiro.

Antiquários envelhecidos arquitetam o olho do tempo, revestindo suas dependências de enigmas como se as soleiras do portal fossem amalgamas para uma ordem ou missão dos templários. Os antiquários são territórios do vivido, das memórias, das lembranças, dos esquecimentos e da senhora que pede passagem para o grande mestre que a todos consome.

Fonte: Simbologia e Alquimia: Gustav Meyrink  - simbologiaealquimia.blogspot.com 

 

Na mente envelhecida, mapas mentais em garatujas desalinham rotas tortuosas de lembranças incompletas, sem legendas claras, nem pontos de partidas. Ilegíveis aos viajantes neófitos. São memórias de fogo, memórias de águas, memórias de magoas e feridas abertas por pontas de arame em farpas. Marca já saradas, que cicatrizaram aquela pele em rugas.

Posso ver no oculto emaranhado da mente, aquela mulher sentada na soleira da porta de entrada do velho casarão desabitado. Uma construção do começo do século XIX, com varandas semiabertas, sustentadas por dez grossas colunas e oito grandes janelas de madeira maciça pintadas com um verde envelhecido e que emolduram a parede da frente do casarão.

 

Fonte: www.blogclickconexao.com.br 

Os seus envelhecidos pés são ao mesmo tempo suaves e sulcados de rugas. Descalços tocam o piso do terraço, um piso de um mosaico quadriculado em tons branco e vermelho muito desgastado. A porta também de madeira maciça se oculta na lateral do abandono e entreaberta representa um umbral com tons esverdeados e camadas descascadas de um azul interno, indicando sobreposição de uma pintura há muito tempo encoberta pelo verde sem vigor, muito mais fuligem, mofo e poeira, que a própria tinta.

Fonte: martaiansen.blogspot.com 

Ela é a guardiã do templo e senhora do tempo. Uma mulher branca e manchada de sardas guarda em si o véu da virgindade sem macula. Foram exatos noventa e sete anos vividos, com os quais demarca o ritual de passagem pelo portal para adentrar o casarão dos seus próprios sonhos. Guarda que segredos? Esconde que mistérios? O que ainda Aguarda?

 

  

 Fonte: mundodogringo | Just another WordPress.com site | Page 37 mundodogringo.wordpress.com 

Pela nudez transparente e fino tecido de suas vestes, notei em seu corpo, uma gigantesca e enrugada tatuagem que representa a cartografia do desejo e as rotas da solidão. As linhas, as curvas e o sinuoso entrecruzado das mesmas, espalham-se pelos seus ombros, abdômen e costa, representando sentidos de subterrâneos sem começo, sem meio, nem fim.

Ela se encontra perdida em entre pensamentos e se sente jovem, se sente mulher em flor de idade, querendo em sede e brasa se derreter por entre os dias, por entre as estreitas e fascinantes sendas da navalha que corta a calma a alma e alegria. Se percebe em meio a cortinas do passado, por entre vidraças do desconhecido, sem saber ao certo do que pensa, do que sente, do que vive em seu distante mundo de tenra idade.

 

Fonte: marasenna.blogspot.com 564 × 510

 

Ela se sente um passaro em plumas humanas em sua nudez vestida de relvas. As linhas da tatuagem cartografada em seu corpo escorre por todos os lados das suas coxas, pernas, ombros e braços. Em tons multicoloridos, como se fossem imagens pintadas em rena indiana, marcam lembranças vivas das primaveras. A finura das linhas tatuadas na sua pele, disputa espaço com o fino tecido do tempo, indicando sentidos conexos, como se fossem garatujas de um passado recente. Escritos legíveis que agussam o sentido da visão em um emaralhado de flores que rodopiam os picos dos seios onstentos em outros cachos que escorrem pelos cabelos e escondem a crina dos seus cabelos até os ombros. 

 

Fonte: www.memmeul.com

Como se retornasse ao embaralhado dos seus pensamentos, a sua mente cambaleia para o passado distante e olhos perdidos ao longe indicam sentidos desconexos, como se fossem garatujas de um passado longincuo. Escritos inelegíveis, configurações divergentes e sem pontos de partidas, confundem o sentido da visão. Dos bicos dos seus seios, escorrem ideias de montanhas sulcadas e desgastadas pela erosão dos olhares de outrora e na couraça da sua pele, desnudam sinuosidades enrugadas que lembram rios intermitentes com intensa lixiviação.

A mulher em sardas esconde em seu dorso símbolos e enigmas de um mapa desenhando e legendado por códigos desconhecidos. Talvez representando uma língua morta ou traçados feitos para confundir os aventureiros, encantando-os para sempre em um cego tatear de estrelas que já não existem mais. Observando o mapa de sua pele, percebi a existência de trilhas apontando para recônditos lugares e vazios abismáticos.

  Fonte: www.artenocorpo.com

Em um suave e lento movimentar das suas mãos, observei o traçado de uma vida de longa solidão em seu destino. Uma vida de nevasca eterna, de fina e invisível areia escorrendo por entre os seus dedos delicados. Enroscados pelos seus antebraços, vi a figura de dois dragões sobrevoando sua alma, sua calma e sua alegria. Nos seus braços, duas serpentes alimentam-se da espera e do imprevisível. E, entre as cobras e os dragões, uma sequência de desenhos tribais, como se representassem uma dança de imagens solares e lunares rodopiando pelo vazio enigmático do seu olhar.

Mas de repente é como se todas estas imagens sumissem de sua pele e do nada os mapas e tatuagens nunca estivessem marcados em seu corpo e tempos. A sua pele nua se revestia da sol, se revestia de velhice e juventude, como em um encotro astral inesplicavel.

     

Fonte: rosaleonor.blogspot.com

Em seu corpo, uma cartografia de desenhos, arranjos e relações encobertos por pesadas camadas do tempo. Um tempo esfíngico mistura carne e pedra, dando forma à envelhecida mulher sentada ao lado de si mesma. Naquele canto do jardim da velha casa. Ali, ela repousa o corpo na claridade solar e percebi que o casarão desaparecera dos seus pensamentos.

Mas o céu com sua abertura de luz e atmosfera nua lhe reaproxima dos cantos do terraço do casarão inclinando suas sombras sobre as paredes envelhecidas do espaço oco. Num jogo fotográfico de luz e sombra, nuvens cruzam o ilusório céu da tarde e, seguindo a rotação da Terra espalha sombras suaves pelo chão desgastado do terraço, marcado com invisíveis pisadas não se sabe de quem.

Por todo o seu corpo feminino, estão esculpidos os sulcos do tempo, manchas solares e cicatrizes de amores desfeitos, escombros de paredes descascadas em suas camadas de tintas. O tempo escorre profundas rugas pela sequidão exposta do seu corpo e nas entranhas de sua pele uma marca cicatrizada indica a cratera de uma grande queimadura que brota na altura do seu coração.

 

Fonte: www.controversia.com.br 

Como hera e ficus verdejante ela agarra-se as pedras e penetra pelos francos das paredes, assim, a mulher se torna o casarão que é habitado por ela própria. Sua carne se mistura com a pedra e o barro da antiga construção em desmoronamento, em uma cartografia de sentimentos e vazios envelhecidos. Seus olhos esverdeados e pesados marejam um olhar para a porta aberta lhe permite pedaços de sentidos de um olhar distante e vazio de presenças.

Sua face encontra-se tatuada em musgos e liquens e suas garras se ficam nas paredes enrecendo novas colunas de vida em galhos que até o tempo se desespera diante do desafiante continuar contando estes mapas mentais de um desconhecido mundo em seiva de mulher. Com os últimos raios do sol, desce o anoitecer e ela levanta-se da velha soleira, entra no casarão destelhado e diante do escuro, leva consigo o que restava do agora, deixando a porta aberta para que o amanhã aconteça.

publicado por olharesgeograficos às 22:30
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Geografia Cultural, Lunário Perpétuo e chuvas de janeiro

Por Belarmino Mariano Neto

Fonte da Imagem: www.todocoleccion.net - 550 × 413Pesquisar por imagens - LUNARIO PERPETUO DE S. CALLEJA MUY ANTIGUO 

UM DIA DE MUITA CHUVA. Hoje é dia dois de janeiro de 2015, aqui no Agreste paraibano, Nordeste brasileiro. Estamos aos pés da Serra da Borborema, uma depressão sublitorânea, com escarpas serranas que variam entre 200 a 550 metros de altitudes. Em pleno verão brasileiro. Distante em aproximadamente uns 100 quilômetros da costa litorânea atlântica, de onde esperamos os ventos alísios equatoriais e do sudeste, trazendo um pouco de umidade para essas serras do planalto da Borborema.


Fotos: Imagens da chuva em Guarabira, 02/01/2015. Belarmino Mariano.
 
Sou um observador das fisionomias da natureza nessa região, em especial quando se trata de tempo e de
mudanças repentinas na paisagem. Estamos em prolongado período de estiagens, muita seca durante todo o ano de 2014, que já vinha de um ano de 2013, não muito chuvoso. Ao Final de dezembro tivemos um lampejos de água em Guarabira, choveu bem menos que o esperado, mas qualquer gota de água nessa época do ano nos animas, pois temos chuvas para mangas, cajás e cajus. Essas chuvas também animam os camponeses locais, pois ficam contando as chuvas em dias. 
 
Sempre que posso converso com os agricultores e quando me deparo com os mais velhos, pergunto sobre o "Lunário Perpétuo". Por aqui só os muito velhos lembram que seus bisavós tinham um livrinho velho desses, escondido a sete chaves. De uma coisa eu sei, restou muito pouco de alguns conhecimentos tradicionais culturas antigas lusitanas. Como diz Alceu Valença "das coisas do arco da velha".
 
Em meus anos de pesquisa ainda não tive a oportunidade de encontrar um lunário perpétuo aqui na Região de Guarabira. Será um achado de grande valia histórica para confirmar o "paradigma indiciário" de que essa foi uma região fortemente influenciada pela cultura do além mar, de homens, bois, ovelhas e cabras. Homens que singrando esses rios do vale do Mamanguape, do vale do Curimataú e do Vale do Camaratuba, tenham implantado aqui uma cultura, cujos conhecimentos, em muito estavam escritas no lunário perpétuo.
 
Vale ressaltar que aqui, esse livrinho tenha que ter sido adaptado, pois os conhecimentos cósmicos e almanáquicos, contidos no lunário obrigatoriamente, eram constituídos com base na observação dos astros, do sol, da lua e dos dias das terras ibéricas. Claro que a base universal contida em suas páginas davam o rumo, apontavam o norte dos conhecimentos tradicionais, trazidos das terras de Portugal.

Segundo um velho aqui do Curimataú paraibano, conhecido por Venâncio da Costa, aos idos dos seus 84 anos de idade, dizia que seu bisavó falava que, quando chove durantes os oito primeiros dias de janeiro, terremos um bom inverno em nossa região. Faz uns dez anos que ouvi essa história ali pelas bandas da Pedra da Boca, já nos limites com o Rio Grande do Norte, nas terras de Araruna. todo inicio de janeiro ficou a escutar os rumos da natureza local.

Fotos: Imagens da chuva em Guarabira, 02/01/2015. Belarmino Mariano.
Vi nesse período de observações que, em nenhum desses anos choveu de maneira intercalada durante os oitos primeiros dias do ano. Mas esse ano, já observei que no dia primeiro caiu um lampejos de água e em especial, no dia dois, choveu bastante por aqui nas terras de Guarabira. No quintal de minha casa o dia amanheceu assim. Chuva durante toda a madrugada, já passando do meio dia e ainda continua chovendo. A gente fica querendo aquela canção de Jorge Ben Jor:  "chove chuva, chove sem parar..."
 
Agora ficamos a pensar em Rachel de Queiroz e seu mais significativo romance regionalista, intitulado o 15, referindo-se a grande seca de 1915, tendo como foco o Sertão cearense, mas que se universalizou como ideia de todo os sertões nordestino e mineiro. Desde 2013 que lembro da aproximação desse  ano de 2015, como um ciclo longo ou secular nos fenômenos da natureza. meus pensamentos se desdobram na direção da grande escassez de água vivida até recentemente no Estado de São Paulo, claro que mais especificamente na Grande São Paulo.
 
Aqui no Nordeste, vivemos o ano de 2014, com grandes perdas de rebanhos, com uma agricultural quase que completamente estagnada por quase todo o ano. Aqui no Agreste, perdemos cultivos e rebanhos. A escassez de água só não foi maior por causas de ações emergenciais tanto do governo estadual (Ricardo Coutinho), quanto do governo federal (Dilma Rousseff).
 
Em minhas viagens em especial para o curimataú e para o cariri, fiquei abismado com tanta seca. Na medida em que me dirigia para Campina Grande, fiquei assustado em contar exatos 57 caminhões pipas, saindo da região do Brejo para as cidades mais secas da região, isso em uma manhã, com apenas uma hora de viagem até Campina Grande. Maior cidade da Borborema, abastecida pelo segundo maior açude paraibano o Boqueirão, que chegou a 17% da sua capacidade hídrica.

Posso dizer que o dia de hoje me enche de esperanças, me faz lembrar do Lunário Perpétuo, me enche os olhos com essa chuva persistente, com uma saída ao meio da rua e fazendo um radial concêntrico, ver o céu cinza em todos os 360 graus da abobada celeste. Esperar que chova durante os oito primeiros dias de janeiro, me faz mostrar a segunda pitanga, em minha pequena pitangueira. Essa foi colhida no dia primeiro de janeiro, ainda espero comer mutias pitangas desse pequeno pé.

Foto: pitangueira em fruto, 01/01/2015, Belarmino Mariano

Estas observações nos chamam para um aprofundamento em estudos geográficos acerca das nossas tradições culturais em fenômenos naturais como chuvas e estiagens. Se em 1930 Rachel de Queiroz escreveu a saga da seca, fico a relembrar meu velho pai Mariano Belarmino, que aos setenta anos de idade, relembrava que na seca de 1915 ele era menino com dois anos de idade, mas na medida em que foi envelhecendo, ouvia dizer que seus antepassados passaram muita fome e sede, nessa época. A seca era tanta que nada conseguia ficar em pé, morria tudo, o verde só se via em cacos de vidros cintilando ao sol. Meu pai dizia que sobreviveram comendo cactos, comendo calangos, carne de jumento seca, batata de umbuzeiro, casca de pau, entre outras iguarias que apresentasse alguma seiva viva.

Fonte: http://antonionobrega.com.br/discografia/

Podemos dizer que hoje os tempos são outros, que o mundo esta conectado e se falta água ou alimentos em uma região, teremos de outras, entre outros argumentos da globalização que faz certo sentido. Mas a água aqui pertinho da gente é uma senda de confiança em um ano mais verde para todos.
Sobre o Lunário Perpétuo muitas são as versões, muitos são os significados e queremos encontrar aqui na nossa região, algo sobre tão antigo e oculto livro de conhecimentos tradicionais. E para esses dias de janeiro, que chova ao som de  Antônio Nobrega.

Esperamos que o Nordeste brasileiro em meio as chuvas de verão, faça sua festa de Reis, faça a sua festa de São Sebastião e que até 19 de março (dia de São José) a gente possa ter chuva e fartura para as festas juninas, como nos velhos tempo. O desafio será recuperamos as nossas nascentes, as nossas matas ciliares e os renascer dos nossos olhos de água. Assim, o medo da seca de 1915, tantas décadas repetidas, não acontecerá em 2015. Deus seja louvado!
publicado por olharesgeograficos às 18:45
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