Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2014

Geografia Cultural e Teorias Liberais do individualismo

Fonte: geomousinho.blogspot.com

 

Por: Belarmino Mariano Neto

 

Este artigo se coloca na perspectiva de entender o processo sociocultural de construção geográfica do indivíduo liberal. Para tanto, não posso partir apenas de um pensar pessoal, nem partir do zero. É importante que partir de correntes de pensamentos historicamente experimentadas, não apenas enquanto suporte do já escrito, mas na perspectiva crítica e criativa para poder me deparar com a realidade contemporânea do individualismo vivido nas diferentes esferas do cotidiano, servindo como parâmetro para novas reflexões e uma melhor compreensão do objeto de estudo em foco.

A Geografia Cultural é uma corrente de pensamento da Geografia com a qual me identifico, por permitir um maior relacionamento e diálogos com outras ciências sociais como a História, Antropologia, Sociologia, Filosofia e Psicologia. Além do mais, esta escola de pensamento geográfico possibilita leituras diversas na perspectiva tanto do sociocultural, quanto do socioambiental como experimentos de práticas culturais em diferentes ângulos. A exemplo dos estudos sobre: "espaço e religião; espaço e cultura popular; espaço e simbolismo; paisagem e cultura; percepção ambiental e cultural; espaço e simbolismo..."(CORRÊA, 1995, p.03-11).

A construção do indivíduo liberal a luz de ideias desenvolvidas a partir século XVII, será analisada a partir dos cientistas sociais como: Macpherson, Dupuy e Magalhães, pensadores à cerca do indivíduo liberal e da sociedade moderna ocidental.

Na Perspectiva da Geografia Cultural chamo a atenção para pensadores como Corrêa, Rosendahl e Cosgrove. Isso não significa uma exclusão de outros pensadores, mais apenas uma adequação aos limites espaciais do artigo.

A leitura dos autores acima foi no sentido de uma exposição geral, em relação ao pensamento teórico buscando um "fio de intercessão" ou sequência dos fatos que serão levantados ao longo do texto e que servem como um primeiro referencial a cerca do indivíduo liberal ou do debate sobre sociedade e indivíduo, muito presente na Sociologia, Antropologia e que até certo ponto, não vem servindo de referência para geógrafos.

Enquanto diretriz metodológica foi escolhida a análise textual e temática dos diferentes autores no sentido de abordar no texto, uma visão panorâmica e direcionamento desta para nosso foco temático central - A construção do indivíduo liberal. Como sendo justificada por estes autores.

A intenção é na medida do possível, eliminar as ambiguidades e os pontos passíveis de dúvidas. Como a temática geral abrange uma temporalidade (século XVII ao século XX) muito ampla, estarei desenvolvendo uma estrutura a partir de fatos pontuais de maior destaque na história do pensamento liberal e seus desdobramentos.

 

A Teoria Política do Individualismo Possessivo (de Hobbes a Locke).

In MACPHERSON.

 

 

 

Caminhar confundido a tanta heterogeneidade em constante movimento é uma experiência saudável e peculiar. Tudo parece mergulhado numa grande corrente, onde cada um procura o seu próprio objetivo. No meio de tantas pessoas e tamanha excitação, sinto-me cheio de paz, sozinho, pela primeira vez. Quanto mais alto o burburinho das ruas, mais quieto eu me torno (Goethe. In. SENNETT, 1994, p.228).

 

Fonte: moncoeursauvage.wordpress.com

 

As raízes da Teoria Liberal-democrática europeia no século XVII foram historicamente marcadas por significativas contradições no plano econômico, social, cultural e político.

Os elementos da vida urbana como atividades artesanais, manufaturas e mercantis criaram um forte intercâmbio comercial europeu que se estendeu para outras partes do mundo. O surgimento e desenvolvimento da burguesia mercantil, crescimento do número de trabalhadores pobres mais livres, a decadência agrária da aristocracia rural e da nobreza e o fortalecimento dos ideais protestantes, críticas ao poder econômico e político da igreja católica foram fundamentais para a busca de teorias que dessem conta dessa nova realidade (CHAUÍ, 2000, p.398).

Até que ponto os teóricos do século XVII, conseguiram explicar estas novas experiências conflitantes? Será dizer que o indivíduo começa a definir sua existência a partir dessas novas condições sociais?

O individualismo oriundo do século XVII continha a dificuldade central, residindo esta na sua qualidade possessiva. Sua qualidade possessiva se encontra na concepção do indivíduo como sendo essencialmente o proprietário de sua própria pessoa e de suas próprias capacidades, nada devendo à sociedade por elas. O indivíduo não era visto nem como um todo moral, nem como parte de um todo social mais amplo, mas como proprietário de si mesmo (...) achava-se que o indivíduo é livre na medida em que é proprietário de sua pessoa e de suas capacidades. A essência humana é ser livre da dependência das vontades alheias, e a liberdade existe no exercício da posse (MACPHERSON, 1979, p.15).

Macpherson (1979) elege Hobbes e Locke como referência para discutir a teoria política do individualismo possessivo. Três elementos importantes para entender a concepção de Hobbes e Locke: o Estado de Natureza, o Contrato Social e o Estado Civil. Estes conceitos, relacionados aos indivíduos que formam a sociedade e que aceitam submeter-se ao poder político das leis.                              

Para Hobbes, (2001), no Estado de natureza, os indivíduos vivem em luta constante, guerra de todos contra todos. Nesse estado reina o medo. "Para protegerem-se uns dos outros, os indivíduos, se armam, ocupam territórios, mesmo assim o que predomina é a lei do mais forte e a falta de garantias". A natureza humana é marcada pela competição, desconfiança, poder e gloria. A força da astúcia (domínio). Estes são impulsionados pelo princípio de posse, ocupação, invasão e destruição uns dos outros. O Estado de natureza anterior ao estabelecimento da sociedade civil, um "estado de guerra". Assim ele justifica a necessidade do Estado de natureza que leva em consideração o homem social civilizado, baseado no poder do soberano.

Enquanto pensador da Geografia Cultural, posso considerar estes argumentos como representativos de um determinismo de ordem ambiental ‘a natureza do homem’, algo parecido com uma história estanque da política no espaço, sem considerar, no entanto que diversos comportamentos humanos, apontaram para outra matriz de relações homens/homens e homens/natureza enquanto construção cultural. Esta linhagem permite uma construção simbólica para além da ideia de poder. Um exemplo é a própria difusão de técnicas, atitudes, ideias e valores que vão além do egoísmo e da submissão ao poder político soberano.

A grande diversidade cultural manifestada em diferentes espaços e tempos permite uma leitura dinâmica de experiências vividas individualmente ou coletivamente, enquanto práticas dominantes; práticas alternativas de grupos ou indivíduos não dominantes e práticas de minorias excluídas aos olhos dos grupos dominantes, mas com importante valor simbólico e de significados (CORRÊA, In.: COSGROVE, 1995, p.6-7).

 

Fonte: www.universogames.com 

 

A Luta pela sobrevivência, a busca por comida, agasalho e energia foram e ainda são uma constante em todas as culturas do mundo, este tópico pode induzir a uma ideia de egoísmo enquanto marca da natureza do humano. Uma construção natural e cultural dos grupos humanos enquanto competidores. Mas, em contrapartida, existe uma prática muito comum em todas as culturas que é no momento da fartura, a festa, a diversão, sempre regada com muita comida, bebida e alegria solidária. Este não é um comportamento apenas dos momentos de abundância, mas também das fases de dificuldade dos grupos ou indivíduos. Estes agem de forma altruísta, solidária e ou benevolente.

Mattelart (2000, p. 169-74) considera Kropotin e Reclus, dois importantes geógrafos do pensamento libertário, como defensores de uma rede igualitária na era neotécnica. Eles argumentam que os seres humanos agem muito mais em função da ajuda mútua espontânea, que a simples competição de todos contra todos, levantada por Hobbes e reforçadas por Darwin na ideia de competição e luta pela vida. Reclus em sua grande obra geográfica destaca em diferentes momentos que a maior força de uma sociedade é a fraternidade universal na construção humana, simpatia e respeito que são demonstrados em atos de solidariedade.

Fonte: www.gopixpic.com 

Não estou querendo desde já, eliminar a grande tese da cultura política e até sociobiológica da origem e evolução do homem, enquanto organização de indivíduos competidores que se agrupam para o exercício das disputas por recursos naturais, geralmente respeitando a força e astúcia de um sobre os outros. Estes são apenas alguns elementos de contraposição ao diálogo que ora venho desenvolvendo, sem perder de vista o fio de interconexão com o tema central.

O poder soberano necessário poderia passar a existir conforme dois modos: pela conquista e sujeição dos habitantes por um indivíduo ou um grupo soberano (soberania por aquisição), ou pelo acordo mutuo entre indivíduos para a transferência de todos os seus poderes naturais a um indivíduo ou grupo (soberania por instituição). Não fazia diferença saber como a soberania era estabelecida, desde que fosse reconhecida por todos os cidadãos (MACPHERSON, 1979, p.31).

O pensamento teórico e filosófico de Hobbes, (2001) é visto como pressuposto para a ideia de construção do indivíduo liberal. Em sua principal obra: Leviatã (1611) apresenta todo um conjunto de argumentações a cerca do Estado soberano e da sociedade civil, como modelo político. Para ele "o poder soberano é uma necessidade natural dos indivíduos – corpus de proteção".

No pensamento de Hobbes, marcado pela citação de Macpherson encontra a necessidade de superação do estado de natureza para a sociedade civil, poder político das leis e do contrato social, em que os indivíduos renunciam a liberdade natural em nome do soberano.

Um importante exemplo desse pensamento é a expansão dos interesses dos indivíduos burgueses e contraposição ao controle do Estado absolutista. As conturbações políticas, sociais e econômicas, chocavam os interesses da realeza/nobreza com os anseios dos mercadores. As contradições podiam ser marcadas em relação ao espaço urbano, ao espaço rural e suas produções. Os mercadores, artesões e corporações de manufaturas; permeadas pelo trabalho assalariado marcavam essas novas relações (CHAUÍ, 2000, p.399).

Para Hobbes (2001) o indivíduo constitui uma sociedade civil que necessita de um estado regulado por um soberano que impõe segurança e respeito a cada indivíduo. Este soberano é colocado como uma necessidade natural – "Estado de natureza, garantindo o comprimento das leis e o estabelecimento dos contratos social" (Ibid., 84.) Sem esse estado de natureza, não existiria a sociedade racional civilizada, pois os indivíduos se posicionariam em constante luta de uns contra os outros.

 

Fonte: www.unione.art.br

 

O Estado de natureza da sociedade civil baseia-se na lei, nos contratos e respeito ao soberano, por medo dos outros indivíduos. (...) os homens civilizados estabelecem harmonias em relação aos negócios, ofícios, amizade de mercado, facções, ciúmes, risos e senso de ridículo. (...) toda a sociedade é para o lucro, para a glória e para a dominação. (...) uma sociedade de indivíduos que pensam, opinam, raciocinam, esperam e temem. Tudo isso em relação ao outro. (MACPHERSON, 1979, p.34-37).

Os principais aspectos apresentados podem estar na fisiologia e psicologia do indivíduo. Estabelecido pelo apetite, desejo, aversão, experiência e julgamento em continua mutação. Homens e paixões. Desejos, poder, riqueza, conhecimento e honra. Valores comparativos e atos voluntários e virtuosos. Neste caso, o autor usa todos os indicadores observados em sua vida social de choques e contrastes (burguesia, aristocracia, nobreza, realeza, assalariados, etc.).

É importante destacar que a Geografia Cultural que tento relacionar com as demais ciências sociais, considera ao longo do século XX, importantes argumentos centrados na ideia de cultura caracterizada por componentes materiais, sociais, intelectuais e simbólicos. (CORRÊA, 1995, p. 03).

O mercado competitivo é estabelecido a partir do poder de compra e de venda. Os indivíduos disputam o poder, mais poder como proteção do atual nível de poder ou aceitação do poder. Uma natural luta pelo poder ilimitado pela busca da propriedade e do poder. Temos então uma sociedade competitiva que precisa do soberano como modelo de controle social e contra a violência individual (MACPHERSON, 1979, p.57).

Essa construção pode ser observada em alguns modelos sociais por ele apresentadas:

A sociedade de mercado possessivo - uma economia de mercado e poder. O estado de natureza soberana como estrutura legal e mediação dos contratos e poderes. Diferente da sociedade de costumes "status" – baseada nos costumes/tradições/comunidades dominantes. Existindo uma ausência de mercado, a terra, o trabalho e a produção são alvos de disputas entre rivais de outros grupos. Já a sociedade de mercado simples – o mercado não é de trabalho, mas de bens. Existe uma produção e distribuição de bens e serviços pautados no trabalho, na liberdade e nas recompensas sem garantias (MACPHERSON, 1979, p. 58).

Na descrição destes modelos propostos por Hobbes, (2001) em sua teoria política do estado natural da sociedade civilizada de mercado possessivo os indivíduos vão sendo diluídos no tecido social e em suas contradições.

 

fonte: zelmar.blogspot.com 

 

Na sociedade de mercado competitivo moderno, as regras de poder e controle social apontam para um aprofundamento das disputas do mercado. A Guerra como força de coerção e o estabelecimento de novas regras em ralação aos indivíduos, o mercado e o estado marcam o aprofundamento dos embates.

O liberalismo precisará de elementos que garantam aos indivíduos da burguesia um conjunto de teorias que deem suporte aos seus direitos políticos e econômicos, reconhecidos e garantidos.

Duas questões são levantadas neste momento para a construção do indivíduo liberal: a primeira consiste na busca de garantias para o poder político burguês e a segunda consiste em garantir a propriedade como direito natural.

John Locke, no final do século XVII e inicio do século XVIII, apresentará uma formulação bastante coerente sobre a definição de direito natural a propriedade. Este pensador será analisado Macpherson, como um importante divisor teórico para a ideia de construção do indivíduo liberal, sedimentado do domínio do espaço e pautado em identidades culturais reconhecidas pela sociedade como direito natural do indivíduo:

A propriedade é um direito natural individual e o governo como garantidor das posses dos indivíduos. Direito como vida, liberdade, razão, riquezas (terras e bens). O direito natural com a apropriação pelo uso, trabalho e produção. (MACPHERSON, 1979, p. 209).

Toda a argumentação descrita é baseada nos princípios do cristianismo. O mundo foi criado por Deus para o homem reinar e mesmo ‘expulso do Paraíso’, o homem continuou com o direito de com o seu suor e trabalho tirar da terra o seu pão. Para Locke (In. Macpherson, 1979), este é o legitimo e natural direito á propriedade privada como fruto do trabalho. Consequentemente, a lógica da propriedade privada dos meios de produção, como direito natural aos que dominam este espaço, justifica a garantia liberal da apropriação.

A burguesia tinha as bases para através do Estado Liberal, garantir o direito natural à propriedade, pois o Estado existe a partir do contrato social. Para o pensamento burguês liberal, quem não consegue com o seu trabalho retirar da terra suas posses, é um parasita, pobre, que não consegue a propriedade privada condição natural. Estes pobres são obrigados a trabalhar para os outros por um salário para que possam garantir sua propriedade, ou sobrevivência cotidiana.

Qual será a função do poder ou Estado soberano? Garantir a propriedade privada, por meio das leis ou da força? A teoria liberal defende que o estado proteja, mas não interfira na propriedade privada. Os proprietários como interessados na preservação ou ampliação de suas posses, são capazes de estabelecerem regras e normas de funcionamento do Estado garante o funcionamento da sociedade civil. Assim, a propriedade é o ato de posse que cada indivíduo busca enquanto prática do próprio corpo (vida), liberdade e bens conseguidos pela sua própria ação direta (trabalho).

Fonte: geografalando.blogspot.com 

 

A contradição pode ser a exata medida da ideia de indivíduo proprietário de si, fazendo o que quiser do seu corpo, vida e trabalho. (ARANHA & MARTINS, 1992, p. 249).

Trabalho assalariado como estado de natureza com salário baseado no livre contrato. Alienação do trabalho como mercadoria vendida livremente. Esta será a base moral positiva para definição da sociedade capitalista. Considera que os operários mesmo sendo proprietários de sua força de trabalho (energia), não dispõem do direito político, pois estes direitos já estão inclusos no direito dos seus patrões. (MACPHERSON, 1979, p.210).

Estes argumentos lançados por Locke (In. Macpherson, 1979), justificam o ‘individualismo possessivo’ e a ideia de democracia liberal pautada na liberdade do ser humano em qualquer relação com o outro. O indivíduo como proprietário de si, pode alienar sua capacidade de trabalho, pois a sociedade de mercado possessivo estabelece amplas relações mercantis, enquanto que a sociedade política é um artifício humano, para proteção da propriedade do indivíduo perante a sociedade civil. Nesse modelo o poder é estabelecido pela coerção da classe dominante e o sufrágio democrático como ideia de liberdade da sociedade de mercado possessivo coercitivo (Ibid., p. 214)

O pensamento de Locke em suas teorias consegue sedimentar as bases para implantação da sociedade liberal e a garantia dos direitos individuais. O direito e o poder não se encontravam nos privilégios da tradição ou herança ou concessão divina, mas no contrato expresso pela livre manifestação da vontade dos indivíduos. O direito natural à propriedade privada e a questão do conhecimento como resultado da experiência, da percepção e da sensibilidade humana, supera as suposições de que os homens possuíam ideias inatas.

Trazer este debate para o universo da Geografia Cultural é reconhecer a importância da vida individual em convergência ou divergência com o grupo, um elemento fundador de uma dimensão espacial da cultural, sobretudo no que diz respeito ao princípio de poder cultural no espaço produzido e vivido pelo liberalismo ocidental.

Macpherson (1979) levanta três importantes categorias como ideia de democracia liberal e individualismo pluralista participativo como experiências teóricas dos Estados Democráticos Liberais do Ocidente. Ele observa que este arranjo teórico vem desde o século XVII com Hobbes e Benthan que viam "o indivíduo como sendo essencialmente um maximizador e consumidor de utilidades (utilitarismo)". Enquanto que os pensadores neoidealistas Stuart e Green consideravam "os indivíduos em pleno exercício de suas faculdades e potencialidades" (Ibid. p. 261)

O mais importante desse capítulo é uma classificação dos tipos de pluralismo em relação ao indivíduo e a participação nas diferentes esferas socioeconômicas e políticas: Pluralismo religioso – puritanismo do século XVII e capitalismo; Pluralismo humanista e neoidealista – indivíduos insatisfeitos com os limites do desenvolvimento individual impostos pela sociedade de mercado competitivo; Pluralismo do produtor – o anarcosindicalismo francês e socialismo corporativo inglês. Homem produtor governado por suas associações e ausência de forças estatais na condução dos interesses coletivos e individuais; Pluralismo anarquista – completa defesa da autogestão pluralista comunitária. Defendem a substituição do estado por comunidades autônomas; Pluralismo pragmático – A ciência e a tecnologia a serviço do desenvolvimento humano; Pluralismo liberal contemporâneo e ou americano – Apresenta aspectos contraditórios da sociedade de consumo e capitalismo maduro. Um pluralismo político e econômico em que os quadros políticos são empresários enquanto que os eleitores são os consumidores; Pluralismo libertário conservador – Ver o homem como consumidor e os grupos de interesse do indivíduo com o poder de pressionar o jogo do mercado em seu favor.

Estes diversos argumentos dão uma tônica forte ao debate sobre a construção cultural do indivíduo liberal, que a Geografia poderá resgatar para seu universo de reflexão, pois pensar o espaço a partir da ideia de indivíduo e de cultural é uma preocupação que deve ser remetida para a Geografia enquanto uma ciência da social.

 

Geografia Cultural, Democracia e individualismo

 

Muitos são os estudos culturais contemporâneos realizados pela geografia ao longo de sua trajetória, sejam apoiados nas teoria social, espacial ou cultural. No entanto, a ideia de Cultura Política, enquanto categoria do universo geográfico, não aparece com tanta freqüência nos textos e contextos do pensamento geográfico. Mas, apostando num caráter holístico, resolvi pensar neste diálogo da Geografia Cultural com outros autores da Ciência Social a partir da ideia de indivíduo e democracia.

 

Fonte: www.criarmeme.com.br

 

Pensar nos Estados Unidos da América (USA), enquanto um espaço de exercício da democracia liberal, foi uma das preocupações do cientista social americano Alex de Tocqueville (ARON, 2000, p. 207). Enfoque este com preocupações relativas a democracia, a liberdade e ao individualismo egoísta culturalmente experimentado pela sociedade Norte Americana.

Trago para esta reflexão uma leitura bastante plural de (MAGALHÃES, 2000, p.141-164), em seu artigo sobre democracia individualista, no qual, ele consegue fazer argumentações teóricas e críticas em relação ao pensamento de Aléxis Tocqueville em relação à história da democracia moderna, em especial a experiência de democracia individualista nos Estados Unidos.

Sua experiência parte da ideia liberal em relação à liberdade, à democracia burguesa e ao individualismo das sociedades modernas.

Existe uma preocupação em relação à revolução democrática, democracia individualista americana, indiferença em relação aos interesses públicos, exercício de uma tirania com o consentimento popular.

Para evitar tais situações, Tocqueville aponta para um "educar a democracia". Sua maior preocupação é a possibilidade que a tirania tem para se vestir de democracia e preencher os espaços deixados entre os interesses e práticas da democracia direta e pelos interesses públicos, substituídos pela democracia indireta e interesses privados individuais.

O Artigo de Magalhães apresenta um conceito mais apurado de democracia e liberdade. Esse conceito se contrapõe ao reducionismo da democracia liberal, exposto por Tocqueville. A democracia como luta de sujeitos impregnados de sua cultura contra a ‘lógica dominadora dos sistemas’. (...) A democracia enquanto um crescente poder social sobre a personalidade e a cultura – democracia como método e exercício de poder. (Touraine, APUD. MAGALHÃES, 2000, p.155).

Considerando a experiência da democracia na perspectiva política de construção espacial de uma cultura social sedimentada nos sujeitos, enquanto indivíduos de poder temos que pensar a relação liberal com a democracia e liberdade de forma crítica. Assim:

“O capitalismo em seu estágio neoliberal projeta o desmantelamento das organizações trabalhistas e busca uma economia totalmente atrelada aos ditames da liberdade de mercado”. A democracia direta é basicamente substituída pela democracia econômica representativa, em que as políticas públicas são desvalorizadas em favor dos interesses das corporações privadas (MAGALHÃES, 2000, p.155).

 

Fonte: resistir.info

 

Tocqueville parece ser um dos primeiros teóricos a analisar o individualismo levando em consideração uma realidade empírica, a sociedade americana do século XIX, ambiente onde o liberalismo político e econômico ganhou maior força, até porque a jovem nação estava aberta para experiências. Assim, os Estados Unidos da América experienciaram a primeira e completa república federativa liberal-democrática burguesa.

A sociedade americana tende a justificar a legitimidade do indivíduo liberal. Considerando que o estado capitalista, constitucional e democrático tenha se desenvolvido ao longo do século XIX e inicio do século XX, mesmo nas suas diferenciações políticas de legitimação do poder (monárquico parlamentarista, republicano, federativo e até ditatorial). O ideal de sociedade burguesa como fato social, estabelecido na adoção de interpretações tanto ideológicas quanto sociológicas; abordagens que conferem a originalidade do liberalismo.

Dupuy (1988, p.77) elege as duas principais obras de Adam Smith como fundamentais na construção da ciência econômica, demonstrando que a análise científica pode ir além da vontade manifestada nos indivíduos.

Primeiramente relaciona a modernidade individualista segundo duas visões: o indivíduo isolado, agindo por si só, autonomamente; e o indivíduo concorrente, que disputa, sem perspectiva de objetivos comuns ou projetos coletivos. Uma ação de gozo ou prazer, desvinculada do outro, ou o tendo apenas enquanto concorrente (DUPUY, 1988, p.79)

Estas argumentações convergem para a doutrina econômica do liberalismo e para as teorias de Adam Smith, versando sobre filosofia econômica e a economia política, no fazer de uma sociedade de indivíduos em sua ordem.

De forma superficial poderia dizer que mesmo existindo uma representação de individualismo, inveja e egoísmo que fragmentam o sujeito moderno. O modelo ou ordem econômico liberal consegue com a sua lógica de agregação produtiva ligar os sujeitos aparentemente individualizados.

 

 

Fonte: luchadeclases.org.bo

 

Dupuy (1988, p.80) surpreende-se com a possibilidade de astúcia da razão ou astúcia da história. No individualismo metodológico os mitos da solidão sublime, romântico e mesmo místicos convergem para a sutileza dos mecanismos e estruturas sociais com indivíduos passivos, sem astúcia coletiva num processo sem sujeitos comuns.

Mesmo havendo algumas contradições argumentativas em relação as diferentes faces do liberalismo e do próprio individualismo, Dupuy (1988) considera como artifício do individualismo liberal três aspectos distintos:

O primeiro trata o indivíduo a partir de uma vontade, consciência de si, razão, força e poder, não predicativo do indivíduo da econômica política, reduzido ao princípio da realidade; O segundo aspecto é a passagem da razão para o estado de sentimento ou ordem sensorial, diferindo da ciência ou economia política; O terceiro aspecto trata do individualismo metodológico, contraditório e baseado na dedução do indivíduo social de matriz ou tradição complexa (DUPUY, 1988, p. 81 e 82).

 O autor apresenta os fundamentos dessa tradição individualista e da ideia de progresso do indivíduo nesse homem econômico, estabelecido pelo individualismo, egoísta e autônomo, satisfeito e sem querer problemas ou conflitos. Soberano de si mesmo e despreocupado com a vida em sociedade, desvinculado do indivíduo do contrato social.

O eixo central de suas análises está em um constante diálogo com as obras de Adam Smith (1776) - Tratados sobre Teoria dos Sentimentos Morais (TSM) e a Riqueza das Nações (RN), são apresentados como bases do conhecimento sobre o domínio da disciplina econômica.

A ordem dos domínios da moral, simpatia e atividade econômica. Estabelecendo uma emancipação da religião, da política e da moral tradicional. Estas obras negam a experiência dos domínios, ou teoria do conflito, apontando para a metáfora da "mão invisível", em que: "(...) Existindo equilíbrio econômico, haverá sobras e caridade espontânea".

(...) A simpatia passa a ser um processo diferente do egoísmo. Quando o indivíduo se coloca ele mesmo no lugar do outro, torna-se sensível e identificado, sofrendo um contágio positivo. (...) os princípios para a teoria da moral, os julgamentos morais de aprovação ou reprovação e o prazer da simpatia recíproca enquanto ideia de sentimento agregado. (...) Este é um dos principais prazeres da existência (SMITH,  1976, p. 90 a 97). Nesse acordo de sentimento agradável, Smith chega ao ideário da simpatia ativa. Os atores sociais passam a representar no teatro social tais sentimentos e valores para uma sociedade equilibrada.

Dupuy (1988) considera a existência de um paradoxo nessa relação em que ator/espectador está em constante cena, simpatizando ou não com o cotidiano e experiências da vida em sociedade. Assim:

Os indivíduos são levados à lógica da imitação (mimética), cópia ou lógica de uma produção, sem saber nem querer. (...) Uma espécie de loucura ignorante do universo do mercado, da incerteza radical e suas probabilidades, interesses e forças obscuras do mercado. (...) O indivíduo como imitação dos outros. Imitação de formas arbitrárias em relação ao indivíduo e da sociedade (DUPUY, 1988, p.100 a 102).

Dupuy (1988), não convencido do ideário Smithiano, destaca que o julgamento individual perde seu valor perante o resto do mundo em relação ao comportamento da média ou da maioria. O mercado financeiro estabelece uma busca desenfreada pelos dividendos na lógica dos preços de mercado.

Destacaria o atual estágio do individualista e monopolista, com a sequente destruição da diversidade cultural, quebra das leis teoricamente naturais da economia de mercado. Outro exemplo, é a oligopolização das corporações capitalistas. Será que o indivíduo perde a astúcia da razão em meio ao novo estágio de centralidade do capital.

 

 

Argumentos de DUPUY (1988) em relação aos comportamentos do mercado atual:

 

Uma psicologia louca dos indivíduos em suas corporações. Ganhador será aquele mais louco, que tiver a coragem de investir o máximo na sua loucura. Este é o individualismo do sujeito mercantil. (...) Nesta loucura psicológica do mercado, os indivíduos imitam todos os outros. A imitação da imitação enquanto potencialidade. Um sistema de atores em que todos se imitam na loucura do objeto mais inesperado. (...) O jogo especulativo em que cada um rouba dos outros, convencidos da vantagem (DUPUY, 1988, p. 101 a 105).

 

Fonte: acarifotosefatos.blogspot.com 

 

Para o autor, esse é um comportamento como razão individual a serviço da loucura individualista. A razão do mercado em títulos líquidos, suprimindo as instituições e ao longo do tempo desestruturando todo o mundo do capital físico ou (produtivo) real, em que a racionalidade fica presa nas regras e julgo do mercado.

Estas argumentações são percebidas com muita clareza no neoliberalismo contemporâneo. O indivíduo imerso na complexidade social.

Estas são talvez as grandes linhas da filosofia social, política e moral. Com experiências no campo do individualismo, anarquia, estado e utopia, argumentando em linhas gerais sobre lei, legislação e liberdade, e principalmente demonstrando a preocupação com a questão do indivíduo e a teoria de justiça social.

Em meio a essa fogueira de ideias Dupuy (1988), argumenta que o indivíduo deve encontrar sua autonomia frente às contradições impostas quotidianamente, buscando um censo de justiça racional partilhada com seus semelhantes. Defende também uma teoria econômica racional não apenas em relação ao indivíduo, mas ao grupo que ele pertence. Uma ideia de individualismo radical, estabelecido a partir do total respeito dado a uma pessoa humana.

Uma hierarquia encabrestada em que o homem é subordinado a totalidade social manipulada. A complexidade do estado justo, repartição justa para o indivíduo. A cada um segundo seus méritos e capacidade, aceitação de justiça, liberdade enquanto estado de legalidade, ou justiça processual pura (DUPUY, 1988, p. 112).

No atual estágio, uma representação cada vez mais distante da teoria do conflito de classes e muito mais próxima dos indivíduos e seus interesses privados. Essa lógica de representação em que o governo se limita em atender as satisfações e direitos individuais restringe o espaço ao corpus individual, O espaço enquanto cultura produzida coletivamente perde sentido enquanto fragmentação e estilhaços de cada individualidade.

Um jogo em que os indivíduos estabelecem a concorrência e rivalidade. Os indivíduos reagem segundo uma aceitação do modelo social como um jogo de concorrência e luta para vencer o outro e ser o melhor, o mais capaz. Um vencedor e bem sucedido individualista incluído ao grupo que reconhece esse princípio da forma consensual. (DUPUY, 1988, p. 112).

Fonte: www.uni-vos.com 

 

O individualismo metodológico pode ser considerado um caminho de análise satisfatório da realidade social, pois o indivíduo e a propriedade privada são bases na construção teórica do liberalismo, raiz de categorias como o contrato social, democracia liberal e do liberalismo político que representam os interesses individuais como sendo sociais.

Dizer que todas estas argumentações em relação à construção do indivíduo liberal já tenham consolidado tal experiência pode representar uma ideia frágil. As novas e vivas experiências nas relações entre os interesses do indivíduo e os interesses sociais devem ser pensadas pela Geografia Cultural na perspectiva do espaço. A compreensão de que o plano teórico do individualismo foi alimentado como ideia de plena liberdade da sociedade ocidental, pode ser um ideário da liberdade e do indivíduo em relação às instituições e a própria sociedade.

O próprio conceito de liberdade foi ao longo do tempo dissociado da categoria igualdade e as contradições existentes no seio da vida social vinculada a restrita liberdade do indivíduo. O individualismo consolida um ideário em que o interesse do indivíduo é a medida de todas as coisas e que a sociedade deve se moldar aos interesses deste. Parece até que não existe a necessidade de luta por este ou aquele modelo social, pois a sociedade de certa forma retira do indivíduo o exercício de sua liberdade e o seu próprio projeto de interesse individual.

No atual estágio de desenvolvimento tecnológico e científico (mecatrônica, microeletrônica, inteligência artificial e cibernética), o universo de homens livres e vazios de capital e de trabalho é muito forte. Indivíduos descartáveis perambulando pelas avenidas das grandes metrópoles sem um lugar definido e, capturados pelo capital, vivem suas contradições.

Considerando à liberdade individual como singularidade humana. A questão é: O indivíduo liberal será capaz de no atual estágio de desenvolvimento, gerar um equilíbrio entre os interesses individuais e coletivos? Ou prevalecerá a instauração de um "reinado da soberania individual ou Associação de Egoístas"?

O "Estado Soberano" construído ao longo da história consolidou o indivíduo liberal possessivo discutido e analisado por Macpherson ao longo da sua teoria política do individualismo possessivo. Mas a questão da propriedade como sendo apenas de alguns indivíduos, gera uma sociedade de desigualdades conflitantes e de exclusão societária.

Fonte: ebrael.wordpress.com 

 

Os sentimentos e práticas de solidariedade, cooperação, mutualismo e reciprocidade enquanto fortalecedores do indivíduo e eliminadores do egoísmo individualista não conseguiram sustentação na sociedade liberal. Mesmo assim, o ideário coletivista e societário, continua sendo pensado em diferentes esferas da sociedade liberal.

Para finalizar este artigo considera a seguinte questão: A propriedade como domínio do coletivo e posse do indivíduo para que este desempenhe livremente as suas potencialidades de produtor independente e coletivamente associado, ainda poderá ser um princípio possível de resgate para a sociedade liberal democrática?

 

Bibliografia

  • ARON, Raymond. As Etapas do Pensamento Sociológico. Trad. Sérgio Bath. São Paulo: Martim Fontes, 2000.
  • CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2000.
  • CORRÊA, Roberto Loobato & ROSENDAHL, Zeny. Espaço e Cultura. Rio de Janeiro: ed.uerj/ NEPEC, 1995.
  • CORRÊA, Roberto Loobato & ROSENDAHL, Zeny (Org.) Geografia Cultural: Um Século (2). Rio de Janeiro: eduerj, 2000.
  • DUPUY, Jean Pierre. "L’Indivídu Liberal, Cet Inconnun: d’Smith a Friedrich Hayer" In, Individu et Justice Sociale: Autor de John Rawls. (vários autores). Paris, Frace. Ed. Du Seul, 1988.
  • HOBBES, Thomas. Leviatã ou o material, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. Trad. De Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001.
  • LUCKE, Jonh. Segundo tratado sobre o governo civil. In: Coleção Os pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1978.
  • LUIZZETTO, Flávio. Utopias Anarquistas. São Paulo: editora brasiliense, 1987.
  • MACPHERSON, C. B. A Teoria política do individualismo possessivo (de Hobbes a Locke). Trad. Nelson Dantas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
  • "Pluralismo, Individualismo e Participação" In, Ascensão e queda da justiça econômica e outros ensaios. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1991.
  • MAGALHÃES, Fernando. O passado ameaça o futuro – Tocqueville e a perspectiva da democracia individualista. Tempo Social; Revista de Sociologia. USP, São Paulo, 12(1), Maio, 2000.
  • MATTELART, Armand. História da Utopia Planetária – da cidade profética à sociedade global. Lisboa: Bizâncio, 2000.
  • OUTHWAITE, Wiliam e Bottomore, Tom. Dicionário do pensamento social do século XX. Editoria brasileira Lessa Prado e WG. Santos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993.
  • ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do Contrato Social. São Paulo: Martin Claret, 2001.
  • SENNETT, Richard. Carne e Pedra – o corpo e a cidade na civilização ocidental. Trad. De Marcos Aarão Reis. Rio de Janeiro - São Paulo: Editora Record, 1994.
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Domingo, 14 de Dezembro de 2014

GEOGRAFIA CULTURAL E DA PERCEPÇÃO: “OS TRABALHOS E OS DIAS DE PROMETEU ACORRENTADO”

   

Fonte: http://www.infoescola.com/mitologia-grega/prometeu/

 

Por Belarmino Mariano Neto 

Acho que existem duas questões em jogo, a primeira é relacionada aos elementos apalavrados e a outra diz respeito ao uso das palavras, pois a palavra é possuidora de muitas forças forjadas nos recônditos de nossa mente, elas expressam pensamentos, expressam sentimentos e, expressam vontades. Este trivium é minha maneira de viver e ver o mundo do qual sou participante.


Todas as palavras são de um potencial sacro fantástico. Elas são imantadas de significados e interesses tão divinos que podem ser encontradas no mitológico mundo de Hesíodo em “os trabalhos e os dias” e esclareço a escolha deste filosofo grego, pois nele encontramos o mito de “Prometeu e Pandora” que começa dizendo: “oculto retêm os deuses o vital para os homens; senão comodamente em um só dia trabalharias para teres por um ano, podendo em ócio ficar; acima da fumaça logo o leme alojarias; trabalhos de bois e incansáveis mulas se perderiam” (HESÍODO, 2006, p.23).


A escolha do fragmento de idéias gregas, tão primitivas e civilizadas encosta nos nossos dias de trabalho e de ócio. Temos muitas alegorias como: a “Caixa de Pandora”, enviada por “Júpiter” para castigar todos os homens mortais de um lugar. Percebam que ainda não estou querendo chegar à idéia instituída como Caos, nem a perspectiva de Nix ou de Eire. Figuras “erradas” e “iradas” que vivem surfando nas ondas olímpicas de nossa tradição filosófica e mitológica. Até porque, gosto por demais do Caos, da Noite e da Discórdia, pois é da deusa da Discórdia que nos alimentamos com os trabalhos e os dias.

 

Fonte: http://www.vanialima.blog.br/2013/04/a-caixa-de-pandora.html


Mas voltemos a Prometeu, pois lhe coube a dádiva de criação do homem, essa mistura de água, terra, ar e ocultos materiais divinos que lhes permitiram direcionar a face aos céus, se imaginando também um pouquinho deuses.
Vejam que estamos pensando em coisas essenciais que poderiam ser aqui representadas como elementos da natureza. Mas parece que na lógica da discórdia e na separação dos materiais, “o olho e o cérebro” (MEYER, 2002), preferem o cérebro matéria, memória expressa em neurônios e percepção visual da terra, do lugar ou do peso do firmamento.

Nesse momento, gostaria de invocar a mulher, pois “Pandora” parece ser o presente de grego, dádiva de Júpiter ao pobre Prometeu. Ela é um castigo de Júpiter e que atingirá de cheio a criação divina em forma de homem.
Nem gostaria muito de colocar o irmão de Prometeu nessa parte da história que lhes conto, mas foi exatamente Epimeteu, quem recebeu Pandora enquanto um presente, do qual Prometeu suspeitava e desconfiava. Pandora trazia em sua caixa, muitos e irados problemas para os homens e estes problemas escaparam antes que Pandora houvesse fechado a sua caixa, restando apenas um cantinho de esperança no fundo das coisas.


Vejam que estamos vivendo mais uma vez à sórdida história das tragédias humanas e colocadas enquanto antecipação de fatos e fantasias tão divinas e tão humanas, com os quais nos tornamos homens mortais. Assim, as coisas estão caminhando em nosso mundinho. O uso in-devido das palavras, fortalecem contradições e expõem as entranhas de tradicionais forças que vivem em subterrâneas camadas do nosso cérebro. Hoje estava me perguntando: Pensamento, memória e o consciente são mesmo de que matéria? Pelo que mesmo estamos lutando em nossos dias? Em que darão estas brigas de Titãs?


É nesse sentido que invoco Hesíodo em “os trabalhos e os dias”, pois pelo que me consta, existem muito melindro e vaidade entre as divindades do olímpico mundinho de nossa existência. Por isso os homens e mulheres que não são deuses, mesmo tendo sido projetados com o mesmo material e designe das divindades, precisam trabalhar, mesmo que muitos prefiram o ócio e confusões divinas.


Por outro lado, “O Prometeu acorrentado” acha que Pandora trás em sua caixa todos os tipos de males, uma narrativa em que o ódio, a inveja e tudo mais, recairão sobre o homem e seu lugar.  Vejo que as nossas relações estão tão presas ao mito de Prometeu e Pandora que o mundo dos homens, a história, a tradição, parecem vinganças de Zeus contra um lugar humano, amaldiçoado para sempre.


Gosto da idéia de ser uma mortal e de ver meus dias consumidos pela vida, pela imprevisibilidade, assim me sinto tão divino quanto às crianças que brincam despreocupas do amanhã, mas sei das minhas correntes e assumo a condição “prométeica” de ter que trabalhar os dias, de planejar meus sonhos e de fazer acontecer. Nesse sentido, todos os argumentos e sentimentos de pertencimento ao lugar possuem a mais fiel validade, todos os medos e atropelos na maneira de conduções das idéias são naturalmente aceitáveis por todos, mas a engrandecida e catastrófica idéia de que tudo vai acabar não ajudam na configuração das melhores argumentações para o presente.


Claro que o cérebro, processa necessidade imediata, reação instintiva e o frio na espinha quando se é surpreendido pelo latido do cão nas pernas. Mas passado o susto, recomposto o estado da racionalidade pura, será possível dialogar com as três maiores e invisíveis forças da natureza: Cronos (o tempo), Cosmo (o espaço) Caos (aqui traduzido com a incerteza). Falo do tempo, pois ele é o grande Senhor que a todos consome. No nosso caso, o tempo urge e precisamos ter clareza disso em nossas ações, pois depois que a areia escorre pelo fino gargalo da ampulheta, pouco se tem a fazer.

 

 

Fonte: https://fenixdefogo.wordpress.com/tag/cronos-tita/


Acredito que nessa relação espaço-tempo, a “Intercomunicação dos Sentidos”, Sobre a incerteza, acredito demais nela, é o corpo teórico com o qual gosto de trabalhar. Defendo inclusive que a vida é imprevisível, que “só há um ponto fixo”, como afirma Kafka e que é daí que precisamos partir. Não acredito que o cérebro funcione apenas para transmitir e dividir o movimento das ondas neurais. Algo mais que motricidade e mecânica físico-química acontecem nesse órgão de seleção e ação. Meio que discordando de Bérgson citado por Meyer (2002), somos possuidores de memória pura antecedente e o que chamo de essência espiritual dos titãs. Assim justifico tão enfronhado texto de mitos, homens, mulheres e divindades. 

Por isso, somos homens e mulheres mortais e sem culpas, nesse caso, conscientes dos papeis por nós assumidos entre “os trabalhos e os dias”, temos um poder reconhecido enquanto “lembrança pura”, transformada em “lembrança-imagem” (MAYER, 2002, p.24), e o conhecimento que podemos utilizar servirão para como Hercules, libertamos prometeu das correntes, pois sua luta foi conquistar o fogo para os humanos e por tal façanha foi acorrentado.
O lugar como um detalhe abre espaço-tempo para o uso da inteligência coletiva (LÉVY, 2000) e para a constituição de laços sociais e relações com o saber dos quais temos profundo censo de justiça, ética e mais uma vez inteligência coletiva. 


REFERÊNCIAS


HESÍODO. Os trabalhos e os dias. (Traduz. LAFER, M. C. N.). São Paulo: Iluminuras, 2006.
LÉVY, Pierre. A Inteligência coletiva – por uma antropologia o ciberespaço. São Paulo: Edições Loyola, 2000.
MEYER, Philippe. O olho e o cérebro – biofilosofia da percepção visual. São Paulo: Ed. Unesp, 2002.

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Sábado, 13 de Dezembro de 2014

A MULTICULTURALIDADE COMO NORTEADORA DA PAISAGEM E IDENTIDADE SOCIAL DOS INDIVIDUOS.

 

 

 

 

DSC03259.JPG

 Fonte: Imagem da Praia de Tambaba, Litoral Sul da Paraíba-Brasil. MARIANO NETO, 2013,

Fonte: http://meioambiente.culturamix.com/natureza/paisagens-urbanas-e-rurais

 

AUTORES do artigo:

Grd. Sharlene da Silva Bernardino - Geografia –UEPB/CH – Sharlene_sb@hotmail.com

Prof. Dr. Belarmino Mariano Neto – Geografia – UEPB/CH – belogeo@yahoo.com.br

 

A paisagem pode ser tomada como reflexo de vários elementos culturais inseridos numa sociedade. Alguns desses símbolos se destacam e acabam por hierarquizar alguns hábitos, fazendo com que os cidadãos que compõem uma sociedade acabem por deixar de perceber a dimensão dos elementos advindos de várias culturas que tornam a cidade, em especial a metrópole, um âmbito de constantes trocas culturais.

Este trabalho intensiona observar a importância dos símbolos que constituem e identificam uma paisagem, infatizando a falta de percepção dos indivíduos para reconhecerem esses elementos no espaço a sua volta. É considerada nesse contexto a importância da paisagem materializada, como também aquela que se constitui para

além do poder ótico.

A pesquisa foi realizada a partir da leitura e análise de textos que colocam a paisagem e a cultura como norteadores da identidade social dos indivíduos. Fica evidente que a paisagem acontece de maneira única e veloz tendo em sua

composição elementos que advém de hábitos culturais de vários lugares. Diante das pesquisas e análises textuais que se processaram se faz clara a necessidade da compreensão dos elementos culturais que são construtores de uma paisagem mesclada pela multiculturalidade constituinte por um cotidiano que transpassa a capacidade

perceptível dos indivíduos que o compõem.preocupação em compreender a relação do homem com o seu meio. Um dos pontos de maior relevância para esse entendimento é a observação e análise da paisagem, já que esta é capaz de retratar as mais diferentes maneiras do individuo relaciona-se com o espaço.

Espaço este que segundo Milton Santos (1997), constituiu-se de sistemas que “é formado por um indissociável, solidário e também contraditório, de sistemas de objetos e sistemas de ações, não considerados isoladamente, mas como um quadro único na qual a historia se dá”.

A geografia é uma área do conhecimento que sempre demonstrou interesse pela ideia de paisagem. Nessa perspectiva, a paisagem pode ser tomada como expressão materializada das relações entre o homem e meio que acontecem num determinado espaço, Wether Holzer apud Londscape coloca que: como suporte físico das atividades humanas, mas como palco de um processo interativo onde ela é apropriada pelas culturas que a modifica e lhe introduz novos elementos”. É necessário colocar também que a paisagem é algo para além do visível que se compõe a despeito da interferência humana na funcionalidade dos elementos simbólicos que a desenha.

Para Correia (1995):

“a paisagem enquanto elemento geográfico fundamental é vista não só a paisagem é de um lado o resultado de uma dada cultura que a modela, e de outro, constitui-se em uma matriz cultural (...) muitos de seus elementos servem de mediação na transmissão de conhecimentos, valores, contribuindo para transmitir de uma geração à outra o saber, crenças, sonhos, e atitudes sociais (Correia 1995, p. 4-5).

Assim, a paisagem é concebida pela junção de inúmeros elementos que estão dispostos em um espaço representado por mecanismos culturais que acabam por demandar as ações sociais. Contudo, Laraia (1932 p.80) coloca que “a participação do individuo em sua cultura é sempre limitada; nenhuma pessoa é capaz de participar de todos os elementos de sua cultura”. Aqui, para Correia (1985), no entanto, a paisagem sofre uma dinâmica constante que para ser percebida se faz essencial está voltado para elementos que requerem uma percepção sensorial, Fernandes (2003) capta essas sensações e as descreve como: 

Os ditames culturais podem passar de uma geração à outra como já descrito matérias primas, primeiras e familiares que encontro em um fantástico balé de cores e forma (...) como se essa linguagem visual me detivesse diante dos

objetos e me pusesse a diante deles(...)gosto das comidas e bebidas locais(...)essas coisas todas que mexem com os sentidos esse se misturam quando entro em contato com o mundo, estabelecem códigos de afetividade,

desenham traços sensoriais dentro de mim. A tudo isso posso denominar de paisagem. (Fernandes 2003, p.68-69).

Essa fusão cultural desenhada por elementos que só são perceptíveis por suas cores, sons, cheiros, dentre outras peculiaridades, passa, por vezes, despercebida à sagacidade humana, acontecendo com maior relevância nas grandes metrópoles onde a demanda de serviços e produtos provém dos mais diversos lugares. Ralp Linton apud

Laraia traz um formidável texto que retrata de maneira humorada as limitações do individuo para detectar os elementos culturais que permeiam a paisagem a sua volta. O cidadão norte-americano desperta num leito construído segundo padrão originário do oriente próximo, mas modificado na Europa Setrentional, antes de ser transmitido à América. Sai debaixo de cobertas feitas de algodão cuja planta se tornou domestica na Índia; ou de um linho de lã de carneiro, um e outro domesticado no oriente próximo; ou de seda, cujo emprego foi descoberto na china(...).

Ao levantar da cama faz uso dos ”mocasins” que foram inventados pelos índios das florestas do leste dos Estados Unidos e entra no quarto de banho cujos aparelhos são uma mistura de invenções européias e norte-americanas, umas e outras recentes. Tira o pijama, que é um vestiário inventado na Índia e lava-se com sabão que foi inventado pelos antigos gauleses, faz a barba que é um rito masoquistico que parece provir dos estão sobre uma cadeira do tipo europeu meridional e veste-se. As peças de seu vestiário têm a forma das veste de pele originais dos nômades das estepes no antigo Egito e cortados segundo um padrão provenientes das civilizações clássicas do Mediterrâneo; a tira de pano de cores vivas que amarra ao pescoço é sobrevivência dos xales usados nos ombros pelos os croatas do século XVII. Antes de tomar seu breakfest ele olha a rua através da vidraça feita de vidro inventado no Egito(...). De caminho para o breakfest, pára para comprar um jornal, pagando-o com moedas, invenção da Líbia antiga. No restaurante, toda uma série de elementos tomados de empréstimos o espera. O prato é feito de uma espécie cerâmica invetada na china. A faca é de aço liga feita pela primeira vez na Índia do Sul(...). Começa seu breakfest com uma laranja vinda do Mediterrâneo Oriental, melão da pérsia, ou talvez uma fatia de melancia gado bovino e a idéia de aproveitar o leite são originários do oriente próximo, comer, nosso amigo se recosta para fumar, hábito implantado pelos os índios que procede dos índios da Virginia, ou cigarro, proveniente do México se for fumante valente pode ser que fume mesmo um charuto, transmitido à América do Norte pelas Antilhas, por intermédio da Espanha. Enquanto fuma, lê noticias do dia, impressas em caracteres inventado pelos os antigos semitas, em

material inventado na China e por um processo inventado na Alemanha.

Ao inteirar-se das narrativas dos problemas estrangeiros, se for bom cidadão conservador, agradecerá a uma divindade hebraica, numa língua indo-européia, o fato de ser cem por cento americano (Ralph LintonapudLaraia, 1932, p.107- A Velocidade dos acontecimentos que moldam a metrópole torna, cada vez sumerianos ou antgo Egito. Voltando ao quarto, o cidadão toma as roupas que asiáticas; seus sapatos são feitos de peles curtidas por um processo inventado africana, toma café planta abissínia com nata e açúcar.

A domestificação do ao passo que o açúcar foi feito pela primeira vez na Índia(...). Acabando de americanos e que consome uma planta originária do Brasil; fuma cachimbo, 108) mais, a paisagem reflexo de uma multiculturalidade que em certos momentos transita na busca por identidade. Certeau (1986 p.46) descreve “a cidade contemporânea como um labirinto de imagens, onde o comércio liga os desejos às realidades”. Um espaço restrito, como os descrito, aqui, por Ralp Linton, podem ganham, ainda mais mobilidade nas ruas das grandes metrópoles. Essa movimentação constante e ritmada velozmente é tema da composição noticias populares da cantora e compositora Ana

Carolina lançada em 2006 pela gravadora Sony music.

Eis um trecho:

Essa dinamização, que ocorre desde os atos rotineiros acontecidos dentro de

Tomei um táxi um motorista mexicano Veio falando sobre o 11 de setembro.

Havia um homem na calçada lendo o código da Vinci ou lia o código da venda.

Na parada havia um peruano cheio de badulaques, vendendo, nike, bike, coca-

cola light,canivete aceita cheques pros breguetes. Noticias do Iraque na tv da

lanchonete (CAROLINA, 2006, CD, SONY MUSIC).

 

Os símbolos singulares descritos no fragmento desta composição são construtores de uma paisagem abarrotada de infindas culturas compactadas num dado espaço. Para Delfuss (1978 p. 9) “todo elemento do espaço e toda a forma de paisagem constituem fenômenos únicos que jamais podem ser encontrados exatamente iguais em

outros locais ou outros momentos”. Elementos multiculturais que a instituem, no entanto, a dimensão desses símbolos não é absorvida em sua totalidade pelos os indivíduos que a formam e a modelam segundo

suas necessidades. mutação, mudanças essas que segundo Laraia (1986 p. 96) são dividas em dois tipos

“uma que é interna, resultante da dinâmica da própria cultura e uma segunda que é o resultado do contanto de um sistema cultural com outro”, o homem acaba por centrar-se apenas no que considera peculiar a sua cultura esquecendo-se que, a mesma, jamais se constitui de maneira unilateral.

 

REFERÊNCIAS:

BURQUE, Peter (2003). Hibridismo Cultural. Rio grande do Sul : Ed: Unisinos.

CERTEAU, Michel 1986. A cultura no plural. Ed: Papirus. Campinas São Paulo.

DELFUSS, Olivier (1978).. O espaço Geográfico. Ed: Difel Difusão S.A.

FERNANDES, Manoel (2003). Aula de geografia e algumas crônicas. Ed: Bagagem.

Campina Grande.

LARAIA Roque de Barros (2003). Cultura: Um conceito Antropológico. 16 ed. Rio de

Janeiro: Jorje Zahar.

WERTHER, Holzer. (1996). A Arte da Geografia e os geógrafos humanistas in

Revista Fluminense de Geografia (1996). AGB. Niterói, Rio de Janeiro.

CORREIA, Roberto Lobato. (1995) A dimensão cultural do espaço: Alguns temas.

In. Espaço e cultura. UERJ.

Desta maneira, considera-se que a paisagem social é definida e sentida pelos

Na ânsia de adequação a um meio que está em constante processo de

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Mulher e Natureza

Fonte: http://www.hypeness.com.br/wp-content/uploads/2013/08/katerinaplotnikova05.jpg

 

Começo esse texto com o trecho de um poema escrito no Manifesto caleidoscópio da paixão poética pelo nada (http://essencialimo.blogs.sapo.pt) .Assim segue a ideia de mulher, sociedade e natureza enquanto marcas das ações humanas no espaço:

 

Quando ocupei o útero de Gaya ainda não era homem, mas apenas sonho. Gaya gerou do sêmen solar a luz da vida que germina em suas entranhas fecundas. Primeiro um pó de luz se espalhando pelos recantos e imaginários olhos de mulher, que chora, grita, e sorrindo cria nas profundezas do ser os cristais para o novo e despreendido movimento do nascer galáctico: o filho de uma nova idade, fluído de uma aromática essência de mulher que chorando se corta por dentro e sangra um avermelhado e violento momento matriarcal (MARIANO NETO, 1996:07).

 Esse trabalho é apenas um ensaio que se coloca enquanto brecha e linha temática para que estudos mais aprofundados aconteçam, as ciências humanas e sociais precisam refletir sobre o papel da mulher enquanto existência de resignificado papel e desenho da cartografia social.

 

Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora este produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino. (Simone de Beauvoir, ‘O segundo sexo’, 1949).

 Quando propomos relacionar a mulher com natureza, não é com a intenção de encontrarmos a “natureza feminina”, ideia de que a mulher possa estar mais próxima da natureza como se expressam em seu próprio corpo, “os ciclos naturais”, como se estes elementos fossem responsáveis pelo destino das mulheres.

Muito mais que isso, a mulher é essa natureza humana em seu desenho civilizatório, o princípio básico do trabalho cotidiano, as imposições sócio-econômicas, éticas ou morais e a quebra dessas amarras por um movimento historicamente sedimentado na luta pelo destino em suas mãos e as feituras cotidianas de espaços e paisagens que marcam os significados do trabalho da mulher.

Tomando como base a sociedade ocidental, temos que os distanciamentos humanos da natureza a partir do trabalho criaram uma espécie de dicotomia, onde as diferentes sociedades que tomaram como base a acumulação ou pilhagem dos elementos naturais, afastarem-se da possibilidade de harmonia entre seres humanos e meio ambiente natural.

Mesmo sabendo que toda e qualquer coisa existente em nosso seio social, de forma material ou imaterial é em si natureza trabalhada. Assim é a construção do meio ambiente humano, enquanto natureza social, ou espaço artificial, e que muito nos interessa, pois nele, toda a cultura produzida com os elementos vivos que foram historicamente sendo manipulados pelos braços femininos (agricultura, domesticação, ervas, sementes, jardins, alquimia dos alimentos), poder que na Antiguidade sagraram a mulher como divindade, ou que no medievo concederam como bruxaria. Trabalho social, sexualmente bem definido que lhes dar o poder de manipular com a natureza, experimentos empíricos que tornaram as mulheres equilibradas de razão e emoção, mas reprimidas ou controladas pela força, encobrindo por milênios a fio, quem é que realmente mantém uma sociedade em pé e constrói uma civilização de “homens fortes”.

A mulher na construção desse cotidiano social vai contribuindo sobremaneira para na interface sociedade/natureza, pintar um quadro que muito se expressa nas grandes obras das civilizações. Com seu sorriso misterioso a mulher vai se construindo enquanto bruxa, fada ou feiticeira, enquanto filha do estupro ou aborto do medo, violação patriarcal do divino.

 

O homem aí diz que as mulheres precisam ser ajudadas para subir nas carruagens e carregadas para atravessar regos, a para ter o melhor lugar em todos os cantos. Ninguém nunca me ajudou para subir em carruagens ou passar por cima de lamaçais, para me ceder o melhor lugar - e não sou eu uma mulher? Olhai meu braço! Eu lavrei e plantei e armazenei em celeiros, e nenhum homem podia me ultrapassar - e não sou eu uma mulher? Pude trabalhar e comer tanto quanto um homem podia - quando tive a oportunidade - e agüentar chicote também! E não sou eu uma mulher? Tive treze filhos, e vi a maioria vendida como escravos, e quando chorei com minha dor de mãe, ninguém me ouviu, a não ser Jesus - e não sou em uma mulher? (TRUTH, Sojourner, ex-escrava, líder abolicionista, USA, séc. XIX).

 

Nos dias atuais, a técnica/ciência tornou a terra em uma pequena aldeia global, grandes megalópoles abundam em vários cantos do planeta. É uma fase de forte artificialização do espaço, onde o distanciamento das coisas do meio ambiente natural e a simulação de novos arranjos criam um humano frio, de concreto, vidro e metal. Mas na sacada de um edifício com cinqüenta andares, no último dos andares, as vezes é possível ver com a ajuda de uma luneta um pequeno jarro de flores. Orquídeas, margaridas, dálias ou rosas. Terá sido o trabalho e sensibilidade de um homem?

Concluímos esse pequeno ensaio dizendo que sem a leveza livre e suave dos cabelos ao vento e o caminhar descalço, sem as asas da paixão ou o voar de pássaros o nosso universo não teria um toque mágico de mulher, com tintas e cores tecidas no multicolorido amar incolor, que transpondo montanhas, sussurra em nossos ouvidos castelos encantados respondem pelas grandes transformações da sociedade que busca se humanizar em seu processo civilizatório.

 

Belarmino Mariano Neto, Guarabira, 2014.

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LUGAR SOCIAL E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Comunidades: Caboclo e Pedra Grande - Guarabira – PB  

Maria Das Graças Silva

Autora: Maria das Graças da Silva
Estudante do Curso de Especialização em Geografia
UEPB/CH/DGH
UNIVERSIDADE ESTADUAL DA PARAÍBA
CENTRO DE HUMANIDADES
DEPARTAMENTO DE GEOHISTÓRIA
E-mail: gracagbapb@hotmail.com
 
A reflexão que fazemos sobre o lugar onde vivemos, nos direciona para a importância do conhecimento e das práticas que revelam modos de pensar e sentir conexo aos modos de utilização dos recursos essenciais á vida. Os saberes e os diversos elementos que se interagem num determinado espaço precisam ser reconhecidos numa perspectiva de realidade que se ajustem as diversidades constituídas naquele pequeno universo. A interação e a convivência  individual e coletiva dos que formam um núcleo comunitário produzem os saberes que dão estilo aos modos de relação com o lugar em que vivemos.
Desde as mais remotas civilizações a humanidade precisa se organizar em grupos sociais, é nessa forma de viver em sociedade que os contatos, as expressões, os sentimentos e as experiências são estimulados. “O conhecimento não é um espelho das coisas ou do mundo externo. Todas as percepções são, ao mesmo tempo, traduções e reconstruções cerebrais com base em estímulos ou sinais codificados pelos sentidos.” (MORIM, 2003). 
 
Fonte: http://observatoriodoagreste.blogspot.com.br/2014/11/lugar-social-e-desenvolvimento.html

ARTIGO NA INTEGRA: file:///C:/Users/Pc/Downloads/download(1556)%20(1).PDF
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