Domingo, 12 de Fevereiro de 2006

Discordianismo

Discordianismo - de belarmino mariano neto - belogeo@yahoo.com.br -

Podemos começar pensando o discordianismo na perspectiva mitológica, isso para encontrarmos uma idéia de deidade ou divindade da discórdia. Essa divindade é de sexualidade feminina. Éris - Uma das divindades primordiais, filha de Nix (a Noite). Em outras versões, é mencionada como filha ou irmã de Ares, o deus da guerra. Acompanhava-o aos campos de batalha, disseminando ódio entre os combatentes. Nix era Filha de Caos, um espaço aberto, matéria rude e informe, à espera de ser organizada, princípio de todas as coisas. Nesse espaço surgiu a Terra (Gaia). Nix gerou uma infinidade de deuses como Nêmesis (a Vingança), Momo (o Sarcasmo), Tánatos (a Morte), Hypnos (o Sono), Éris (a Discórdia). Nix envolvia o Caos como uma sólida casca, dando-lhe o aspecto de um ovo. No interior desse ovo gigantesco originou-se o primeiro ser: Fanes (a Luz). Este ser, unindo-se a Nix, engendrou o Céu e o próprio pai dos deuses. Segundo outra corrente da cosmogonia órfica, Nix não formava uma casca. Era uma ave negra de enormes asas. Fecundada pelo vento, pôs um ovo de prata no seio da Escuridão. Desse ovo saiu Eros, o Amor Universal.
Se Éris pode ser considerada como a divindade da discórdia, assim poderíamos até admitir a existência de um primitivismo religioso pautado na adoração de Éris. Não podemos afirmar que a deusa tivesse seus adoradores de plantão, mas é importante considerar que o próprio sentido da palavra reforçada pelo principio do caos, do conflito ou da guerra (Ares), como filho legítimo de Zeus e Hera, temos nesse caldo divino da cultura grega a essência para o discordianismo filosófico e teológico. Conta o mito que Ares revestido de couraça e capacete e armado de escudo, lança e espada, acompanhava-se de Deimos (o Medo) e Fobos (o Terror), seus filhos com Éris. Zeus era filho de Cronos com Réia e seu pai devora todos os filhos. Cronos - O mais jovem dos Titãs, filhos da Terra e do Céu. A pedido de sua mãe, mutilou o pai e ocupou seu lugar no trono do universo. Esposou sua irmã Réia e teve alguns daqueles que se tornariam os principais deuses olímpicos.
Assim como Éris, Nix gerou também a Morte que para os gregos era um gênio masculino alado que, entre os gregos, personificava a morte. Era filho de Nix (a Noite) e irmão gêmeo de Hipnos (o Sono). Entre os romanos a Morte era uma deusa, Mors, ou mais freqüentemente, uma pura abstração personificada. Se a morte pode ser irmã de Éris, divindade da discórdia, estamos diante da grande dicotomia da mística Grega e até certo ponto ocidental. Vida e morte elementos por essência discordantes mas complementares e que alimentam todos os princípios religiosos. A vida para a morte enquanto a possibilidade de uma outra vida.
O Discordianismo é 'a base de todas as religiões'. Uma visão geográfica do Espaço Geográfico no qual podemos perceber o limite cultural de uma experiência religiosa, seus princípios e relações fechadas em relação aos outros experimentos culturais. O Discordianismo religioso acontece na zona de contato entre duas culturas ou mesmo na base de compreensão cultural de dois ou mais pensadores e propositores de linha de ligação (religare) entre o humano e a inexplicação dos enigmas ou mistérios da natureza envolvente. Em especial no que tange a visão expansiva do que sai do alcance da mente humana. Quando há um ponto de divergência entre dois ou mais filósofos, místicos ou lideres de um grupo social básico para o desenho religioso nascente.
O que apresentamos se confirma em todas as grandes correntes religiosas ou filosóficas, sejam do ocidente ou do oriente. Mas quando observamos os guetos de formação de uma seita e dessa para um espaço de ampliação e até massificação dos contatos intergrupos o discordianismo vai se estabelecendo. A religião ganha sentido no processo de validação dos pares, mas e principalmente no processo arranjado pela discórdia de pontos de vistas, rituais e dogmas da religião oposta e/ou diferente da que se apresenta.
O pensamento, o sentimento e a vontade são o trivium para o estabelecimento de uma religião. É na reflexão e na prática de contato entre estes três elementos que se constrói uma unidade religiosa. O mais interessante nesse processo é o fato de que na individualidade, sempre existem pontos discordantes de cada fiel em um todo religioso. Seja em relação a um rito, a um símbolo, a um perfil teórico da base teológica ou até mesmos dos representantes diretos do modelo no qual o individuo se insere.
Nesse sentido o discordianismo tende a ser o elemento chave para na sua ampliação ser gerada uma nova experiência de caráter religioso. Vejamos o caso do cristianismo em sua esfera primitiva com encaminhamentos dos essênios para uma ruptura de alguns valores e dogmas do judaísmo da antiguidade. Estes foram os pilares para uma nova mensagem de fé que demarcou o espaço geográfico do Oriente Médio na Antiguidade. Com a adoção do cristianismo pelos romanos e seu reconhecimento oficial, são estabelecidos os concílios e todo um jogo de regras e disputas de poder na organização hierárquica da Igreja Católica Apostólica Romana. Nesse processo e com um viés espacial demarcado em Roma e em Constantinopla, tivemos elementos discordantes e até mesmo de isolamento cultural que terminaram por provocar uma forte dicotomia no cristianismo católico (ortodoxia e romanismo cristão). É importante ressaltar que o discordianismo pode se estruturar a partir de muitos fatores, mas, o elemento cultural perpassado pelo pensamento, sentimento e vontade delimitados pelo indivíduo e ampliados para demais indivíduos de um grupo religioso, representa o "cimento" de um novo perfil religioso e conseqüentemente a possibilidade de alimentação do discordianismo em sua base. Nessa seqüência e com grandes transformações socioeconômicas, políticas e culturais vividas pela Europa no seu processo histórico de modernidade, fizeram com que o romanismo cristão (cristianismo apostólico romano) sofresse um violento processo discordante em sua base, isso provocou importantes desalinhos na unidade cristã da Europa. O perfil inicial do protestantismo tem suas bases no discordianismo do oficio religioso e hierárquico da estrutura de poder do Vaticano e conseqüentemente na cisão efetiva da base religiosa. Isso gerou cristianismos: luterano, anglicano, dominicano, etc. O principal comprovante da amalgama do discordianismo religioso.
Não enquanto construção religiosa efetiva, mas enquanto busca de um desenho divino que se aproxime o máximo possível do desenho cultural que cada grupo apresenta em sua história.
Esse é um processo de sofrimento religioso que se estabelece principalmente em grandes sistemas religiosos que tendem a impor seu modelo, ou que fecham algumas passagens do pensar e sentir dos seres que tentam seguir o modelo. Isso atravessa de cheio o princípio da vontade, atingindo a essência do humano que se constrói na liberdade individuada em si. O preso pensar, o preso sentir e o preso agir são os alimentadores do discordianismo religioso. A Religião que não perceber a importância da flexibilidade, tende a alimentar em seus fies uma divindade da discórdia. Esse Deus da discórdia pode até ser lido como uma figura do mal que atrapalha o fiel em seu caminho, mais em muitos caso, o Deus da discórdia acaba alimentando a criação de novas divindades e/ou a (re) dimensão da base religiosa existente. Quando os princípios religiosos de um grupo social se dão de forma politeísta, o discordianismo em essência já se encontra manifestado naqueles que tentam atrair alguém para sua seqüência ritual. Mas no caso do monoteísmo, o discordianismo religioso pode ser um processo lento e gradual que só estabelece rupturas bruscas quando elementos diversos da sociedade convergem para a quebra de valores que engendra a sociedade como um todo."

Belarmino Mariano Neto é professor de Estudos Integrados do Meio Ambiente pela Universidade Estadual da Paraíba - Brasil. Doutorando em Sociologia pela Universidade Federal de Campina Grande e da Paraíba.
Organizador do Grupo de Estudos sobre Essencialismo & Fenomenologia
Contatos: belogeo@yahoo.com.br
A base mitológica desse artigo se encontra no site:
http://www.filonet.pro.br/mitologia/eris.htm

Fonte: http://essencialismo.blogs.sapo.pt/
publicado por olharesgeograficos às 16:57
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Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2006

Cultura, Política e Meio Ambiente

Ligia Tavares – Geógrafa e ambientalista (ligiatavares@uol.com.br)

Já há algum tempo venho me envolvendo com a política local numa tentativa de salvaguardar o que a cidade de João Pessoa sempre teve de melhor, em minha opinião: a qualidade de vida. Como capital, a cidade possui infra-estrutura urbana e administrativa capaz de estimular atividades de serviços e culturais. Em termos de atividades culturais, não se compara às grandes capitais, em termos de quantidade de opções, mas tem sim a qualidade necessária para alimentar uma alma cosmopolita. Lembrava do show de Barão Vermelho com Cazuza que assisti há 21 anos atrás e muitos outros que sempre curti desde que me mudei para cá há 22 anos. E não foram apenas os shows que alimentaram a minha alma roqueira. Aqui aprendi a apreciar a música erudita, semanal e gratuita, os ritmos nordestinos, as artes plásticas, a poesia, a literatura e a filosofia mística.
Avaliar a qualidade da cultura local é algo que só pode ser feita por quem já viveu em outros lugares e por quem viaja constantemente. As novas gerações, nascidas e criadas aqui, e mais exigentes culturalmente, querem ir embora vivenciar outros lugares. Assim como fizeram muitos das gerações passadas que compõem o cenário da cultura local e que para cá retornaram, com o espírito mais tranqüilo, depois de ter rodado pelo mundo e constatado que aqui é tão bom como em qualquer lugar. Se na cidade grande temos mais opções culturais, temos que trabalhar mais para pagar por elas, nos estressar no trânsito diário, viajar para tomar um banho limpo de mar e rodar muito para achar vaga em estacionamento, sem falar na violência, na sujeira, na miséria e em outras características típicas da nossa pátria-mãe, onde a desigualdade social é mais acentuada e visível nas cidades maiores.
Não sendo uma cidade grande como Recife, por exemplo, João Pessoa ainda tem o que falta nelas: a qualidade de vida, que passou a ser valorizada mundialmente nos últimos 20 anos, como recurso necessário no combate às doenças, entre elas as do coração e às relativas ao stress.
No entanto, nesses 22 anos o que assisti em João Pessoa foi uma diminuição gradativa dessa qualidade de vida. Não porque a cidade cresceu, as áreas habitadas se ampliaram, os prédios aumentaram em altura e número e as favelas proliferaram, mas porque tudo isso vem ocorrendo de maneira predatória, sem que o poder público tenha o devido cuidado com o meio ambiente, salvaguardando áreas verdes, criando parques, praças e unidades de conservação municipais. Apesar da propaganda de “cidade verde” para atrair o turismo, as áreas verdes não são valorizadas pelo poder público e quando não são desmatadas, são ofuscadas na paisagem por muros, outdoors e edificações. Veja por exemplo o rio Jaguaribe, que há poucos anos integrava a paisagem das avenidas Rui Carneiro, Epitácio Pessoa e Beira Rio com seu bucolismo natural e atualmente está bloqueado por muros e outdoors. E a tentativa, em curso, de uma construtora de bloquear parte da paisagem do Cabo Branco, com a instalação de um hotel de 124 metros de extensão na frente da mata que recobre o cabo, nosso maior patrimônio natural.
O meio ambiente é uma questão técnica, que exige conhecimento em diversas áreas do saber, incluindo a estética da paisagem, e requer constante aperfeiçoamento e estudo. Algumas questões, como mudança climática e efeito estufa, por exemplo, que afetam todos os ambientes do planeta, estão na vanguarda da pesquisa científica, sempre sujeitas às novas descobertas.
O meio ambiente é também uma questão de sensibilidade. A observação da paisagem requer educação visual e a compreensão do que seja desenvolvimento sustentável exige uma mudança na forma de pensar o mundo e nos valores relacionados ao consumo e às ambições pessoais. Por ser compreensível às mentes mais livres e mais sensíveis ao espírito, o pensamento ecológico é associado a culturas alternativas, causando oposição e repugnância nos que insistem em manter os valores ligados ao materialismo, ao individualismo, ao lucro rápido, ao consumo e à ambição.
O movimento ecológico conservacionista teve sua origem na Califórnia no final do século XIX com John Muir, um irlandês imigrante que criou o primeiro grupo de naturalistas: os Amantes da Natureza. Suas idéias contagiaram os técnicos da Agência Nacional de Pesquisa Geológica nos EUA, resultando, em 1914, na proibição da atividade mineradora na Califórnia, que estava destruindo os mananciais e poluindo os rios. Nos anos sessenta, os efeitos da industrialização já eram evidentes e os ecologistas ganharam força. Atualmente, a disponibilidade de recursos no planeta já é inferior ao consumo planetário e se todos consumirem como os habitantes dos países ricos, o planeta será esgotado rapidamente, o que significa a extinção da espécie humana, como já ocorreu no passado em sociedades antigas. A ciência já fez as contas, daí a necessidade de economizar, preservar, dividir e mudar os valores, que, se tidos como “hippies” há trinta anos, e alternativos, atualmente, já vêm se consolidando como prática de vida e de profissão para muitos. Por isso, o movimento ecológico ganhou o mundo, institucionalizando-se em diversos países.
Ocorre que no Brasil, a institucionalização do meio ambiente em órgãos federais, estaduais e municipais, submeteu a ciência, o conhecimento e a sensibilidade, à política, aos partidos e à arte de vencer eleições, colocando-os desta forma à mercê dos interesses econômicos. Apesar dos esforços de muitos profissionais e dos avanços das legislações ambientais, o que se assiste na prática é a manipulação destas leis visando o atendimento imediato das necessidades econômicas e eleitorais. Além disso, o pouco caso com o meio ambiente, permite que muitas questões sejam discutidas aleatoriamente, onde cada um opina acerca do que acha certo ou errado, sem o devido conhecimento técnico e científico.
No fim, o que se assiste é um descaso por parte dos políticos e da população, a falta de prioridade dada ao meio ambiente pelo poder público e o preconceito com os ecologistas, quadro este que interessa muito mais aos poderes econômicos e aos empreendedores urbanos, responsáveis pela degradação ambiental e da paisagem de nossas cidades, estimuladores da concentração de renda e da exclusão social.
Se a cidade de João Pessoa ainda pode aliar cultura com meio ambiente, promovendo uma real qualidade de vida para seus habitantes e visitantes, o que se assiste, infelizmente, é que ela caminha na mesma trilha das nossas grandes cidades, cuja qualidade cultural vai se tornando inversamente proporcional à qualidade ambiental.
publicado por olharesgeograficos às 18:32
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