Sábado, 31 de Dezembro de 2005

Geografia Cultural e Pobreza

DO CULTO A CULTURA DA POBREZA: Encontros com a Cidadania Incompleta.

Belarmino Mariano Neto.

"Miséria é miséria em qualquer quanto. Riquezas são diferentes. A fome está em toda parte. (...) Índio, mulato, preto, branco. (...) A morte não causa mais espanto (...) Cores, raças, castas. Riquezas são diferentes." (Arnaldo Antunes/Sérgio Brito/Paulo Miklos, Titãs, BMG/Ariola, São Paulo, 1992)


Este trabalho objetiva relacionar idéias sobre a cultura da pobreza e a pobreza propriamente dita. Neste sentido, usaremos os escritos de Lewis (1969), A Cultura da Pobreza. E Mueller (1997) em um artigo que trata da Degradação da Pobreza no Brasil. Além de variados exemplos pertinentes ao tema, para substanciar nossa visão de pobreza enquanto uma condição social com viés físico ou material, e culturais. Sendo representados nos dias atuais como parâmetros para uma cidadania incompleta.

Antes de enveredarmos pelos conceitos de Cultura da Pobreza, propostos por Lewis, ou pela degradação da pobreza de Muelle, enfatizaremos alguns cultuadores da pobreza como padres, poetas e pintores. Isto é, aqueles que vivem da cultura da pobreza e que geralmente não vivem na pobreza ou em sua cultura.

Os padres por fazerem seus votos de pobreza em uma visão do Cristo Primitivo, defensor de um reino em que os pobres seriam os bem aventurados. Pois para o cristianismo, seria "mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, de que um rico entrar no reino do céu". Os Franciscanos são um excelente exemplo dos cultuadores da pobreza.

Os poetas quando falam dos moribundos que perambulam pelas calçadas da vida, ou quando se alimentam com os restos podres da cidade. Ou quando escrevem sobre camas de papelão nos quartos de calçadas das grandes lojas de departamento que embalam os sonhos de cola dos meninos e meninas de rua.

Os pintores que povoam suas telas com uma geografia dos miseráveis, expressões de desconcerto do olhar, crianças barrigudas e casebres de taipa enquadrados e fixos, seguem expostos pelas ruas avenidas dos mais recônditos lugares.

O jans saído das fábricas e oficinas carregados de graça e fuligem em corpos operários, ganhou as ruas e passarelas da moda mundial. A cultura da pobreza lida pelo rústico e pela simplicidade do não ter, do despossuir tonificou esse modelo ou desenho social que serve de protesto e consumo, nos deixando confundidos, entre a cena, o cenário e a poesia do mercado concreto em seus diversos papeis.

O sonho de casamentos e amores impossíveis entre protagonistas ricos e pobres são os motivos de vasta literatura em que as tramas são construídas em dramas, tragédias e comédias. Aparecendo enquadrados pelos sonhos dos pobres encarcerados em seu real e pela "fome dos meninos que têm fome". E que geralmente, só se realizam nos melodramas das telenovelas "globais."

Lewis (1969), conceitua a Cultura da pobreza como sendo tanto uma adaptação quanto uma reação dos pobres a sua posição marginal numa sociedade estratificada em classes, altamente individualista, capitalista. Representa um esforço para enfrentar os sentimentos de desesperança e desespero que se desenvolvem quando verificam a impossibilidade de alcançar êxito de acordo com os valores e objetivos da sociedade envolvente.

Nesse contexto, temos como estrutura lógica da cultura da pobreza um modo de vida de parte da sociedade, na qual, suas características se materializam em diferentes momentos históricos, emergindo com maior força na sociedade moderna, em que, a idéia de pobreza e a natureza da pobreza toma maior corpo físico.

Tanto do ponto de vista de indivíduos, como de famílias, passando por regiões e países. A cultura da pobreza assume perfil espacial ou territorial, determinada pelas condições de classe, valores e atitudes que os pobres, assumido, tanto individualmente quanto coletivamente. Essa pobreza enquanto privação e dificuldades materiais vai se transformando em um modo de vida a ser transmitido pela sociedade e pela família.

Podemos pensar na origem da cultura da pobreza e não conseguimos data-la, mas a lógica aponta para os primeiros passos da história de exclusão, escravidão e submissão de povos ao longo das civilizações.

Na atualidade, podemos pensar nos Astecas do Novo México e nos negros de algum morro do Rio de Janeiro e lhes colocar tão distantes e tão próximos, pois ambos estão inseridos no contexto histórico da Cultura da pobreza. Pois foram submetidos aos choques culturais do início da modernidade. Um tempo tão presente que em menos de quinhentos anos globalizou a pobreza e condicionou homens, mulheres e crianças a condição subumana de alienação material e intelectual.

A quebra dos modelos tradicionais de organização social, pautados na comunhão, na solidariedade e no coletivismo, são condições favoráveis a instituição da cultura da pobreza. Isso, todos podemos ver em função dos ritmos acelerados de modernização. Quando essa quebra se processa, temos o florescer da cultura da pobreza como uma subcultura da sociedade.

O mudo social desajustado, cria relações de dominação do homem pelo homem. Estes são os pré requisitos mínimos para uma forte carga política e ideológica das experiências humanas. Temos então, as condições de segregação, violência, fome, subdesenvolvimento e exploração como molas propulsoras da cultura da pobreza. Na qual, os pobres vão em meio a sua realidade, incutindo geração após geração, um forte sentimento de marginalidade, de desamparo, de dependência, de inferioridade, de infortúnio e falta de aspirações.

No contexto Brasileiro, temos uma acentuada presença da cultura da pobreza, engendrada pelo modelo de desenvolvimento adotado neste país. Para entendermos a cultura da pobreza e sua materialização no Brasil, teremos como suporte o texto de Mueller (1997), que ao tratar da degradação da pobreza, especialmente nas cinco últimas décadas, faz uma crítica ao estilo de desenvolvimento adotado e como a ecologia econômica pode apontar soluções para as questões socioambientais em relação as camadas pobres da sociedade brasileira.

O autor ao identificar o modelo de desenvolvimento adotado no Brasil, como sendo desigual, ele busca em alguns indicadores socioambientais os argumentos que justificam a degradação dos pobres.

Os maiores problemas da pobreza no Brasil da atualidade, estão na concentração urbana dos pobres, na degradação sanitária, na desigual distribuição da renda e no baixo padrão de consumo dos pobres.

O Brasil a partir dos anos cinqüenta, começou a viver um surto de modernização (industrialização, urbanização e crescimento econômico). Na verdade, esse modelo foi limitado e concentrado em áreas do Centro - Sul do país, gerando uma concentração urbana da pobreza.

A partir dos anos 70 a modernização da sociedade atinge o campo. Esse momento será marcado pelos CAI’s (complexos agro-industriais). Identificado como modernização conservadora da agricultura, onde máquinas, ferramentas e produtos da indústria são produzidos para ampliar a produção agrícola. Modernização conservadora, pois não alterou a estrutura fundiária do país, que pela falta de uma reforma agrária nacional, favoreceu um forte deslocamentos de pessoas pobres do campo para os grandes e médios centros urbanos do país.

A migração rural - urbana em nosso país, gerou diferentes instalações da pobreza nos grandes centros urbanos, onde a submoradia, as deficiências sanitárias e os prejuízos ambientas são alguns dos aspectos da cultura da pobreza no Brasil.

Este estilo de desenvolvimento desigual, gerou uma urbanização da pobreza, com grades aglomerados populacionais, onde os bolsões de miseráveis são territorialmente expressivos. Pobres espremidos em áreas de riscos que na maioria das vezes são ilegais perante o poder público, não assistindo estas áreas de uma infra estrutura básica (água encanada, instalações sanitárias, eletrificação, saúde, educação, etc.).

Os assentamentos de pobres, são áreas ambientalmente frágeis e fora do zoneamento urbano. Em função das mínimas condições de instalação, com: elevados riscos de desabamento, sujeitas as enchentes, sem estrutura sanitária, pequenos espaços para famílias numerosas e as vezes agregadas, com acústica desapropriada para os altos ruídos, sem condições para se contrapor as variações de temperatura e vulnerável a sujeira, aos ratos, baratas e diversos tipos de doenças infecto-contagiosas.

Este é uma quadro pintado pela realidade dos grandes centros urbanos do país. Áreas como a Grande São Paulo e Rio de Janeiro, Salvador, Recife e todas as outras grandes e médias cidades brasileiras. São comuns as favelas, mocambos e palafitas em áreas de encostas, morros, no limites de movimentadas rodovias ou em baixo das redes de alta tensão elétrica.

As estimativas de 1960, feitas pelo IBGE, indicavam aproximadamente 16 milhões de pobres no Brasil. Em 1998, este número já estava na casa dos 45 milhões de pobres, amontoados em especial nos grandes centros urbanos.

A falta de assistência pública de serviços básicos é lamentável. Em muitos casos não existe água encanada e a colete de lixo nem sempre é feita, além da falta de instalações sanitárias, geram um acumulo de lixo, dejetos humanos e consumo de águas contaminadas que são os principais indicadores de doenças infecto-contagiosas.

A pobreza em nosso país é geral. Nas três últimas décadas acentuou-se mais ainda em função da grande concentração de renda e das disparidades regionais.

O crescimento econômico do Brasil, não veio acompanhado das melhorias sociais para a população de baixa renda, ficando excluída do consumo, de saúde, educação, moradia, qualificação, lazer, etc. Este modelo de desenvolvimento, concentrador e excludente, gerou disparidades regionais ainda maiores. Temos as regiões Nordeste e Norte como áreas marcadas fortemente pela pobreza de sua população.

Nessa cultura da pobreza, temos uma forte cobrança dos deveres e obrigações dos pobres, que vão desde a obrigatoriedade do voto para os analfabetos até ocupação em alguma atividade (produção), mas a estes mesmos pobres, são negados os direitos e garantias mínimas. É isto que identificamos como a cidadania incompleta, como raiz de sustentação da cultura e da degradação da pobreza, tanto a nível global, como a nível nacional, regional e local.

Notas:

LEWIS, Oscar. La Vida: a Puerto Rican Family in the Culture of Poverty: San Juan & New York, London (Panther Books), 1969. Tradução de F. Moonem.

2. MUELLER, Charles C. Problemas Ambientais de um Estilo de Desenvolvimento: A Degradação da Pobreza no Brasil. UnB/ Brasília: Ambiente e Sociedade - Ano I - nº 1 - 2º semestre de 1997.

3 Cf. Adriana Calcanhoto, Esquadros. Senhas. São Paulo: BMG/Ariola, 1996.

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Sistema de Informação Geográfica

Da cartografia virtual aos novos desenhos e arranjos geográficos.
Belarmino Mariano Neto.

“Matéria, vida e mente – Estes três elementos formam os pilares da ciência contemporânea (...) na divisão do núcleo do átomo, na decodificação do núcleo da célula e no desenvolvimento do computador eletrônico.” (KAKU, 2001: 21).

Estamos começando esse artigo considerando como fundamental essa trilogia proposta por MICHIO KAKU, (2001), pois o autor nos chama atenção exatamente para a idéia do átomo, do computador e do gene. A mente vem simbolizando esse processo revolucionário da ciência e da tecnologia. Seja na perspectiva da física quântica, da informática ou da revolução biomolecular. Estamos vivendo uma experiência de quebra de fronteiras científicas, mas também da formação de novas fronteiras de conhecimentos, criações e descobertas. Esse futuro que se apresenta de forma acelerada tem em suas digitais experiências microeletrônicas, biotecnológicas, telecomunicações, robótica e produção de novos materiais enquanto arranjos e desenhos cartográficos em uma crescente modal sem precedentes na história das civilizações.
Nosso objetivo é entender as diferenças entre sistema de cartografia automatizada e sistema de informação geográfica; fontes de dados geográficos e manipulação em informação espacial; conceito de topologia; SIG’s (Sistema de Informações Geográficas) aplicado ‘a pesquisa; objetos estatísticos e campos dinâmicos; procedimentos de análise espacial em SIG’s; vantagens e desvantagens dos SIG’s e aplicabilidade. Nesse contexto levantamos todo o processo histórico que permitiu essa realidade tecnológica para a atualidade.
PIERRE LEVY, (2000) começa suas escrituras sobre o Ciberespaço levantando uma importante questão sobre os impactos dessas novas tecnologias. E gostaríamos de dizer que não se trata apenas de impactos, mas de um novo mundo que passa a ser construído, mapeado e cartografado pelas digitais tecnológicas do universo virtual presente.
Pensar o século 21 no contexto do atual passa pôr uma reflexão dos comportamentos sócio-econômicos e técnico-científico-informacional por que passa a humanidade em seus diferentes estágios de desenvolvimento. (SANTOS, 2001: 32).
Passa também pela compreensão das novas expressões incorporadas ao cotidiano dos povos, tais como mercadorização generalizada, as revoluções midiáticas, os internautas e a virtualidade do mundo são alguns dos novos elementos que começam a fazer parte do cotidiano nosso. Mundialização da produção, da circulação e circuitos financeiros imediatos, onde o capital especulativo circula a uma velocidade luminar, com paradas de metrô em cada uma das bolsas de valores mundiais. Incontroláveis, transitórias e deixando marcas irreversíveis no mundo do capital produtivo.
Em macros ou microcomputadores circulam grandes volumes de informações e produtos de informação que serão consumidos pelas pessoas desse mundo moderno. Mapas, gráficos e tabelas são algumas linguagens usadas nesses sistemas de circulação das idéias mundiais.
Se as duas guerras mundiais criaram fronteiras militares, ideológicas e políticas que culminaram com os programas da Guerra Fria, foi esta mesma “guerra” que alimentou o progresso tecnológico e econômico, dos Estados Unidos, que vendeu para o mundo do século 20, seu potencial militar e técnico-científico, além das ações imperialistas, calcadas na defesa do mundo e baseadas na agressão, subversão, terror ideológico e dominação econômica e cultural que moldaram o mundo da modernização, modernização esta com um grande fosso de riqueza e pobreza dentro de cada lugar onde o sistema construiu sua hegemonia. Especialmente no tocante a quebra das produções tradicionais e nas periferias dos sistemas centrais. Esse mundo da ‘técnico-ciência e informação’, já possui diversos centros de excelência, seja na Europa Ocidental (U.E.), no extremo oriente (Japão) ou até mesmo em espaços do capitalismo periférico, Como São Paulo, México ou Buenos Aires.
A modernização do mundo nos apresenta um novo conceito de espaço geográfico que pode ser trabalhado a partir da idéia de um conjunto de instalações das relações sociais movidas pelo trabalho que capitaliza o capital, onde espaço é mercadoria. Espaço que se torna raridade nessa construção do sobreviver humano, espaço onde podem ser lidas as contradições das relações e forças produtivas que em sua gênese, combinam-se, complementa-se simultaneamente.
A nova revolução industrial (micro-eletrônica, cibernética, computacional, robótica, cognição, etc.), começa a construir um mundo para homens em sobra, vazios de trabalho, desempregados e contraditoriamente perdidos de sua milenar cultura da atividade. Essa lógica do real/virtual combina-se na construção da sociedade que desfrutará ou não as décadas do século 21. Sendo o Sistema de Informações Geográficas indispensável para os que querem navegar sem muitos náufragos, mesmo para aqueles sem propósitos pré-definidos.

“O lançamento do projeto infovias provocou grande alvoroço nos Estados Unidos. As ondas que acompanham a série de fusões, aquisições e alianças que hoje acontecem no setor da comunicação e da informática, os anúncios concernentes ‘a futura televisão digital de alta definição..., vários sinais ultimamente têm chamado à atenção do grande público para o que se convencionou chamar de multimídia.” (LEVY, 2000: 11)

LEVY, (2000) consegue nos apresentar os elementos básicos para os contornos ou fronteiras entre o real e o virtual em que a grande onda tecnológica vem carregada por um processo de interconexão de diferentes meios de comunicação/informação gerando com isso o ciberespaço de profunda engenharia virtual que se manifesta em ações práticas e cotidianas dos seres que acessam informações digitais.
Se os inventores dos computadores se utilizaram de Gutenberg para ‘encostar’ suas engrenagens gráficas, acoplando-as ao computador. O SIG’s (Sistema de Informações Geográficas) faz o mesmo com a cartografia tradicional, pois ao se automatizar e tornar-se digital, utiliza-se dos sistemas de informações geográficas convencionais para um geoprocessamento não convencional, onde aparecem os gráficos, tabelas, informações estatísticas, informações aéreas e topologia que armazenados compõem os bancos de dados espaciais. Assim teremos produtos como mapas tridimensionais ou digitais de alta resolução sobre os mais diferentes temas que se possa imaginar.
Os dados geográficos devem vir de uma realidade espacial que será usada inicialmente a partir das coordenadas geográficas. Para tal, a moderna tecnologia oferece o GPS, que via satélite informa com exatidão os diferentes pontos da superfície terrestre. O Banco de Dados, obtido a partir das diversas informações do local mapeado, de forma descritiva. Outra informação importante é a relação tempo espacial do objeto de estudo. Estes elementos serão básicos para o Geoprocessamento como um sistema de análise de artigos geográficos com natureza multidisciplinar.
As informações espaciais vão desde a idéia de localização, aos objetos que caracterizam os dados geográficos. Tratando-se da localização a partir de coordenadas cartesianas, definem-se as dimensões em pontos, linhas, áreas ou polígonos, determinados no tamanho espacial e volume tridimensional que representará o objeto físico.
Nos atributos que estruturam a representação do real em produtos cartográficos, tem-se a posição das coordenadas, seus valores numéricos dentro de uma representação analógica, onde se destacam os modelos vetorial e matricial. As vantagens do sistema vetorial estão na boa representação das imagens, em uma estrutura compactada, com criações topológicas. Enquanto que o modelo matricial apresenta uma estrutura de dados bem mais simples, com associação de diferentes camadas e uma análise espacial de fácil explicação e assimilação. Mesmo sabendo-se que os dois modelos apresentam algumas desvantagens, como: perda de informação nos grandes volumes de dados, dificuldade para ligações em redes e no caso específico do sistema vetorial, uma complexa estrutura de dados dificuldades na filtragem e análise espacial em polígonos.
Quando se chega aos conceitos e paradigmas em informações espaciais, pode-se notar que a informação espacial e a realidade espacial dependem diretamente de um modo escalar. Nesse sentido, o tipo de escala escolhido, a forma dos objetos discretos e estatísticos, e os campos dinâmicos são de importância impar. No tocante a correlação espacial, variabilidade e transição do fenômeno estudado, criando-se uma espécie de dicotomia, em como melhor representar espacialmente o fenômeno.
Essa dicotomia estar diretamente relacionada aos sistemas estáticos e dinâmicos em que a rede topológica é estática e os fluxos (rios, vias, correntes energéticas, etc.) são dinâmicos. Assim têm-se alguns critérios de valores que podem ser simples ou multivalores. Na teoria Booleana, os elementos podem ser representados em campos de sim e não, ou (0 e 1), onde o comportamento dos dados será sempre determinístico e simplificado. Já a teoria de Fuzzy, aponta para a probabilidade e possibilidade dos fenômenos, respeitando-se a incerteza no trato dos dados.
Estas teorias apontam para a inevitabilidade de erros, especialmente quando você deixa uma análise mais simples, como aquilo que existe ou não existe, encobrindo os campos de transição entre o existir e o inexistir. Pois quando o comportamento determinístico nega a incerteza, perde-se o probabilístico. Isso sem esquecer que tem grande peso para os SIG’s, a diferença entre a realidade e a representação da realidade modelada, além da precisão e da qualidade das informações.
Nesse contexto incorpora-se a topologia como um importante processo matemático que define as relações espaciais, levando-se em conta as propriedades geométricas invariáveis, que através dos pontos, linhas e polígonos permite a geo-codificação, fazendo do mapa um meio de comunicação em informação cartográfica armazenadas.
Os SIG’s São apontados como ciência ampla e de múltipla aplicação, pois seus componentes principais como: Hardware, Solfware, Base de Dados e o Ambiente Organizacional, permitem diversos usos e aplicações, tanto em áreas técnicas como em áreas científicas, além do uso pelas pessoas já incorporaram a informática ao seu cotidiano. Podem-se listar aqui as diversas áreas e usos do SIG’s como demonstrativo de sua indispensabilidade para o atual estágio de desenvolvimento da sociedade humana:

• Planejamento (agronomia, agricultura, florestal, ambiental, urbano, rural);
• Criminalística, Justiça, Saúde, segurança, trafego, estradas, trânsito;
• Ciências Marítimas, Ciências Sociais, Ciências Naturais;
• Gerenciamento de Recursos Naturais;
• Temas como: limites geográficos, solos, vegetação, hidrografia, relevo, geologia, climatologia, estatísticas;
• Monitoramento em habitat e vida selvagem e reservas naturais;
• Estudo de áreas de inundação e impactos ambientais;
• Gerenciamento de qualidade de água;
• Sistemas urbanos, redes subterrâneas, redes energéticas, rodovias, cabos, condutos, etc.
Diversos campos da ciência podem fazer uso dos materiais que os SIG’s processam, seja da área de humanas, ciências jurídicas, ciências exatas ou naturais. Mas o Sistema de Informações Geográficas também pode ser usado pela sociedade como um todo, ou por indivíduos em suas atividades diárias, pois diversas áreas do cotidiano social já funcionam dentro de uma rede onde informações geográficas estão facilitando suas vidas. São muitas, as vantagens de uso das informações geográficas, especialmente em espaços urbanos, devido as grandes concentrações demográficas, atividades produtivas e circulação da produção, informação e idéias.
Talvez as desvantagens estejam relacionadas ao fato de se estar trabalhando com dados estatísticos, incorrendo-se em algumas margens de erros que podem distanciar o sistema da realidade. Outra desvantagem é que em muitos casos, muitos dos programas ainda não foram traduzidos para a língua portuguesa, dificultando seu uso.
Atrelado a isso, denota-se uma dependência do Brasil aos programas e tecnologias estrangeiros, tornando-os caros no mercado local. Mesmo assim, o processo de globalização avança sobre esses mercados periféricos gerando entre outras coisas experiências de contrabando e o barateamento de alguns equipamentos, mesmo que de forma restrita. Uma saída para se evitar esse tipo de relação seria um investimento dos governos na perspectiva de equipar as instituições de ensino superior com equipamentos e tecnologias da informação, tidos como essenciais em qualquer tipo de pesquisa científica.

Fontes:
Este curto texto foi elaborado com base no curso sobre Sistema de Informação Geográfica. Ministrado pelo professor Eduardo Viana, com algumas informações de revistas sobre SIG’s.
KAKU, Michio. Visões do Futuro – como a ciência revolucionará o século XXI. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
LÉVY, Pierre. Cibercultura, São Paulo: Editora 34, 2000.
LÉVY, Pierre. A inteligência Coletiva – por uma antropologia do ciberespaço. São Paulo: Edições Loyola, 2000.
SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço-técnica e Tempo, Razão e Emoção. SP: Hucitec, 1996.
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização – do pensamento único à consciência universal. RJ/SP: Record, 2001.
SANTOS, Milton. Natureza e sociedade Hoje: uma leitura geográfica. São Paulo: Hucitec, 1997.
SANTOS, Milton. Ensaios de Geografia contemporânea (Org. Ana Fani). São Paulo: Edusp, 2001.
TEXEIRA, A.; A. Moretti, E. Christofoletti, A. Introdução aos Sistemas de Informação Geográfica. São Paulo: Edição do Autor, 1992.
MARIANO NETO, Belarmino. Ecologia e Imaginário - memória cultural, natureza e submundialização. João Pessoa: Ed universitária da ufpb, 2001.

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Geografia Cultural e Gênero

Geografia Cultural e Gênero: Mulher, Natureza e Trabalho.
Belarmino Mariano Neto

Estamos começando esse artigo com o trecho de um poema escrito no Manifesto caleidoscópio da paixão poética pelo nada (http://essencialimo.blogs.sapo.pt) por considerar o campo de estudo da geografia cultural enquanto um universo multiplicador de possibilidades. Assim segue a idéia de mulher, sociedade e natureza enquanto marcas das ações humanas no espaço:

Quando ocupei o útero de Gaya ainda não era homem, mas apenas sonho. Gaya gerou do sêmen solar a luz da vida que germina em suas entranhas fecundas. Primeiro um pó de luz se espalhando pelos recantos e imaginários olhos de mulher, que chora, grita, e sorrindo cria nas profundezas do ser os cristais para o novo e despreendido movimento do nascer galáctico: o filho de uma nova idade, fluído de uma aromática essência de mulher que chorando se corta por dentro e sangra um avermelhado e violento momento matriarcal (MARIANO NETO, 1996:07).

Esse trabalho é apenas um ensaio que se coloca enquanto brecha e linha temática para que estudos mais aprofundados aconteçam, pois a geografia assim como as demais ciências humanas e sociais precisa refletir sobre o papel da mulher enquanto existência de resignificado papel e desenho da cartografia social.

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora este produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino”. (Simone de Beauvoir, ‘O segundo sexo’, 1949).

Quando propomo-nos relacionar a mulher com natureza, não é com a intenção de encontrarmos a “natureza feminina”, idéia de que a mulher possa estar mais próxima da natureza como se expressam em seu próprio corpo, “os ciclos naturais”, como se estes elementos fossem responsáveis pelo destino das mulheres.
Muito mais que isso, a mulher é essa natureza humana em seu desenho civilizatório, o princípio básico do trabalho cotidiano, as imposições sócio-econômicas, éticas ou morais e a quebra dessas amarras por um movimento historicamente sedimentado na luta pelo destino em suas mãos e as feituras cotidianas de espaços e paisagens que marcam os significados do trabalho da mulher.
Tomando como base a sociedade ocidental, temos que os distanciamentos humanos da natureza a partir do trabalho criaram uma espécie de dicotomia, onde as diferentes sociedades que tomaram como base a acumulação ou pilhagem dos elementos naturais, afastarem-se da possibilidade de harmonia entre seres humanos e meio ambiente natural.
Mesmo sabendo que toda e qualquer coisa existente em nosso seio social, de forma material ou imaterial é em si natureza trabalhada. Assim é a construção do meio ambiente humano, enquanto natureza social, ou espaço artificial, e que muito nos interessa, pois nele, toda a cultura produzida com os elementos vivos que foram historicamente sendo manipulados pelos braços femininos (agricultura, domesticação, ervas, sementes, jardins, alquimia dos alimentos), poder que na Antigüidade sagraram a mulher como divindade, ou que no medievo concederam como bruxaria. Trabalho social, sexualmente bem definido que lhes dar o poder de manipular com a natureza, experimentos empíricos que tornaram as mulheres equilibradas de razão e emoção, mas reprimidas ou controladas pela força, encobrindo por milênios a fio, quem é que realmente mantém uma sociedade em pé e constrói uma civilização de “homens fortes”.
A mulher na construção desse cotidiano social vai contribuindo sobremaneira para na interface sociedade/natureza, pintar um quadro que muito se expressa nas grandes obras das civilizações. Com seu sorriso misterioso a mulher vai se construindo enquanto bruxa, fada ou feiticeira, enquanto filha do estupro ou aborto do medo, violação patriarcal do divino.

“O homem aí diz que as mulheres precisam ser ajudadas para subir nas carruagens e carregadas para atravessar regos, a para ter o melhor lugar em todos os cantos. Ninguém nunca me ajudou para subir em carruagens ou passar por cima de lamaçais, para me ceder o melhor lugar - e não sou eu uma mulher? Olhai meu braço! Eu lavrei e plantei e armazenei em celeiros, e nenhum homem podia me ultrapassar - e não sou eu uma mulher? Pude trabalhar e comer tanto quanto um homem podia - quando tive a oportunidade - e agüentar chicote também! E não sou eu uma mulher? Tive treze filhos, e vi a maioria vendida como escravos, e quando chorei com minha dor de mãe, ninguém me ouviu, a não ser Jesus - e não sou em uma mulher?”(TRUTH, Sojourner, ex-escrava, líder abolicionista, USA, séc. XIX).

Nos dias atuais, a técnica/ciência tornou a terra em uma pequena aldeia global, grandes megalópoles abundam em vários cantos do planeta. É uma fase de forte artificialização do espaço, onde o distanciamento das coisas do meio ambiente natural e a simulação de novos arranjos criam um humano frio, de concreto, vidro e metal. Mas na sacada de um edifício com cinqüenta andares, no último dos andares, as vezes é possível ver com a ajuda de uma luneta um pequeno jarro de flores. Orquídeas, margaridas, dálias ou rosas. Terá sido o trabalho e sensibilidade de um homem?
Não arriscaríamos responder esta simulação, para não torná-mos absolutistas ao extremo. Mas gostar-mos-ia de dizer que o que temos de natureza humana, e natural dentro da urbes, tem refletido em grande escala o trabalho da mulher. Basta olharmos para o verde nossos jardins e quintais, tão trabalhados pelos braços da mulher, hábito campestre que torna a cidade com ar de natureza em cada canto.
Este tipo de trabalho reaproxima o humano da natureza, ou seja, na perda do instinto animal, o nascimento do sexto sentido, como sendo um emocional superior, alimentado pela imaginação e que se manifestam muito mais forte na mulher.
Quando estamos em uma sala de aula com jovens estudantes, e ao nos aproximarmos da porta, interrogando-os sobre o que é isto? Os mesmos poderão responder, sem sombra de dúvidas que é uma porta. Mas instigados a ver mais coisas, via imaginação culturalmente acumulada, dirão que ali existe madeira, dobradiças, trincos, pregos. Ou seja, o material aparente.
Mas se estimula-los ainda mais nessa imaginação podem ver que a porta representa prisão, liberdade ou segurança; que a porta feita de madeira ou outra matéria morte é antes de qualquer coisa um grande acumulo de trabalho individual e coletivo, primário, secundário e terciário. Ela é culturalmente, algo mais que uma palavra singular.
Não é a porta que esconde a sua essência em significados, mas todo um conjunto de valores sociais que ideologicamente não querem que o trabalho coletivo seja desvendado, daí a busca de simplificação das coisas, e no mais, a desvalorização do que venha a ser trabalho para ou de mulheres, crianças e homens.
Aí reside um dos grandes problemas de homens que acham ser a mulher uma singular palavra, como portas que podem ser fechadas ou abertas ao ritmo dos séculos de força e músculos tencionados.
Concluímos esse pequeno ensaio dizendo que sem a leveza livre e suave dos cabelos ao vento e o caminhar descalço, sem as asas da paixão ou o voar de pássaros o nosso universo não teria um toque mágico de mulher, com tintas e cores tecidas no multicolorido amar incolor, que transpondo montanhas, sussurra em nossos ouvidos castelos encantados respondem pelas grandes transformações da sociedade que busca se humanizar em seu processo civilizatório.
Belarmino Mariano Neto, João Pessoa, Paraíba, Brasil.
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Geografia Cultural

GEOGRAFIA CULTURAL E CONSTRUÇÃO DO INDIVÍDUO LIBERAL

Belarmino Mariano Neto (belogeo@yahoo.com.br)


Este artigo se coloca na perspectiva de entender o processo socicultural de construção geográfica do indivíduo liberal. Para tanto, não posso partir apenas de um pensar pessoal, nem partir do zero. É importante que partir de correntes de pensamentos historicamente experimentadas, não apenas enquanto suporte do já escrito, mas na perspectiva crítica e criativa para poder me deparar com a realidade contemporânea do individualismo vivido nas diferentes esferas do cotidiano, servindo como parâmetro para novas reflexões e uma melhor compreensão do objeto de estudo em foco.
A Geografia Cultural é uma corrente de pensamento da Geografia com a qual me identifico, por permitir um maior relacionamento e diálogos com outras ciências sociais como a História, Antropologia, Sociologia, Filosofia e Psicologia. Além do mais, esta escola de pensamento geográfico possibilita leituras diversas na perspectiva tanto do sociocultural, quanto do socioambiental como experimentos de práticas culturais em diferentes ângulos. A exemplos dos estudos sobre: “espaço e religião; espaço e cultura popular; espaço e simbolismo; paisagem e cultura; percepção ambiental e cultural; espaço e simbolismo...”(CORRÊA, 1995:03-11).
A construção do indivíduo liberal a luz de idéias desenvolvidas a partir século XVII, será analisada a partir dos cientistas sociais como: Macpherson, Dupuy e Magalhães, pensadores à cerca do indivíduo liberal e da sociedade moderna ocidental.
Na Perspectiva da Geografia Cultural chamo a atenção para pensadores como Corrêa, Rosendahl e Cosgrove. Isso não significa uma exclusão de outros pensadores, mais apenas uma adequação aos limites espaciais do artigo .
A leitura dos autores acima foi no sentido de uma exposição geral, em relação ao pensamento teórico buscando um “fio de intercessão” ou seqüência dos fatos que serão levantados ao longo do texto e que servem como um primeiro referencial a cerca do indivíduo liberal ou do debate sobre sociedade e indivíduo, muito presente na Sociologia, Antropologia e que até certo ponto, não vem servindo de referência para geógrafos.
Enquanto diretrizes metodológicas elegi a análise textual e temática dos diferentes autores no sentido de abordar no texto, uma visão panorâmica e direcionamento desta para nosso foco temático central - A construção do indivíduo liberal . Como sendo justificada por estes autores.
A intenção é na medida do possível, eliminar as ambigüidades e os pontos passíveis de dúvidas. Como a temática geral abrange uma temporalidade (século XVII ao século XX) muito ampla, estarei desenvolvendo uma estrutura a partir de fatos pontuais de maior destaque na história do pensamento liberal e seus desdobramentos.

A Teoria Política do Individualismo Possessivo (de Hobbes a Locke).
In MACPHERSON.

Caminhar confundido a tanta heterogeneidade em constante movimento é uma experiência saudável e peculiar. Tudo parece mergulhado numa grande corrente, onde cada um procura o seu próprio objetivo. No meio de tantas pessoas e tamanha excitação, sinto-me cheio de paz, sozinho, pela primeira vez. Quanto mais alto o burburinho das ruas, mais quieto eu me torno. (Goethe. In. SENNETT, 1994:228).

As raízes da Teoria Liberal-democrática européia no século XVII foram historicamente marcadas por significativas contradições no plano econômico, social, cultural e político.
Os elementos da vida urbana como atividades artesanais, manufaturas e mercantis criaram um forte intercâmbio comercial europeu que se estendeu para outras partes do mundo. O surgimento e desenvolvimento da burguesia mercantil, crescimento do número de trabalhadores pobres mais livres, a decadência agrária da aristocracia rural e da nobreza e o fortalecimento dos ideais protestantes, críticas ao poder econômico e político da igreja católica foram fundamentais para a busca de teorias que dessem conta dessa nova realidade. (CHAUÍ, 2000:398).
Até que ponto os teóricos do século XVII, conseguiram explicar estas novas experiências conflitantes? Será dizer que o indivíduo começa a definir sua existência a partir dessas novas condições sociais?
O individualismo oriundo do século XVII continha a dificuldade central, residindo esta na sua qualidade possessiva. Sua qualidade possessiva se encontra na concepção do indivíduo como sendo essencialmente o proprietário de sua própria pessoa e de suas próprias capacidades, nada devendo à sociedade por elas. O indivíduo não era visto nem como um todo moral, nem como parte de um todo social mais amplo, mas como proprietário de si mesmo (...) achava-se que o indivíduo é livre na medida em que é proprietário de sua pessoa e de suas capacidades. A essência humana é ser livre da dependência das vontades alheias, e a liberdade existe no exercício da posse. (MACPHERSON, 1979:15).

MACPHERSON (1979), elege Hobbes e Locke como referência para discutir a teoria política do individualismo possessivo. Três elementos importantes para entender a concepção de Hobbes e Locke: o Estado de Natureza, o Contrato Social e o Estado Civil. Estes conceitos, relacionados aos indivíduos que formam a sociedade e que aceitam submeter-se ao poder político das leis.
Para Hobbes, (2001), no Estado de natureza, os indivíduos vivem em luta constante, guerra de todos contra todos . Nesse estado reina o medo. “Para protegerem-se uns dos outros, os indivíduos, se armam, ocupam territórios, mesmo assim o que predomina é a lei do mais forte e a falta de garantias”. A natureza humana é marcada pela competição, desconfiança, poder e gloria. A força da astúcia (domínio). Estes são impulsionados pelo princípio de posse, ocupação, invasão e destruição uns dos outros. O Estado de natureza anterior ao estabelecimento da sociedade civil, um “estado de guerra”. Assim ele justifica a necessidade do Estado de natureza que leva em consideração o homem social civilizado, baseado no poder do soberano.
Enquanto pensador da Geografia Cultural, posso considerar estes argumentos como representativos de um determinismo de ordem ambiental ‘a natureza do homem’, algo parecido com uma história estanque da política no espaço, sem considerar no entanto que diversos comportamentos humanos, apontaram para uma outra matriz de relações homens/homens e homens/natureza enquanto construção cultural. Esta linhagem permite uma construção simbólica para além da idéia de poder. Um exemplo é a própria difusão de técnicas, atitudes, idéias e valores que vão além do egoísmo e da submissão ao poder político soberano.
A grande diversidade cultural manifestada em diferentes espaços e tempos, permitem uma leitura dinâmica de experiências vividas individualmente ou coletivamente, enquanto práticas dominantes; práticas alternativas de grupos ou indivíduos não-dominantes e práticas de minorias excluídas aos olhos dos grupos dominantes, mas com importante valor simbólico e de significados (CORRÊA, In.: COSGROVE, 1995:6-7).
A Luta pela sobrevivência, a busca por comida, agasalho e energia foi e ainda é uma constante em todas as culturas do mundo, este tópico pode induzir a uma idéia de egoísmo enquanto marca da natureza do humano. Uma construção natural e cultural dos grupos humanos enquanto competidores. Mas, em contrapartida, existe uma prática muito comum em todas as culturas que é no momento da fartura, a festa, a diversão, sempre regada com muita comida, bebida e alegria solidária. Este não é um comportamento apenas dos momentos de abundância, mas também das fases de dificuldade dos grupos ou indivíduos. Estes agem de forma altruísta, solidária e ou benevolente.
(MATTELART, 2000: 169-74) considera Kropotin e Reclus, dois importantes geógrafos do pensamento libertário, como defensores de uma rede igualitária na era neotécnica. Eles argumentam que os seres humanos agem muito mais em função da ajuda mútua espontânea, que a simples competição de todos contra todos, levantada por Hobbes e reforçadas por Darwin na idéia de competição e luta pela vida. Reclus em sua grande obra geográfica destaca em diferentes momentos que a maior força de uma sociedade é a fraternidade universal na construção humana, simpatia e respeito que são demonstrados em atos de solidariedade.
Não estou querendo desde já, eliminar a grande tese da cultura política e até sociobiológica da origem e evolução do homem, enquanto organização de indivíduos competidores que se agrupam para o exercício das disputas por recursos naturais, geralmente respeitando a força e astúcia de um sobre os outros. Estes são apenas alguns elementos de contraposição ao diálogo que ora venho desenvolvendo, sem perder de vista o fio de interconexão com o tema central.

O poder soberano necessário poderia passar a existir conforme dois modos: pela conquista e sujeição dos habitantes por um indivíduo ou um grupo soberano (soberania por aquisição), ou pelo acordo mutuo entre indivíduos para a transferência de todos os seus poderes naturais a um indivíduo ou grupo (soberania por instituição). Não fazia diferença saber como a soberania era estabelecida, desde que fosse reconhecida por todos os cidadãos. (MACPHERSON, 1979:31).

O pensamento teórico e filosófico de Hobbes, (2001) é visto como pressuposto para a idéia de construção do indivíduo liberal. Em sua principal obra: Leviatã (1611), apresenta todo um conjunto de argumentações a cerca do Estado soberano e da sociedade civil, como modelo político. Para ele “o poder soberano é uma necessidade natural dos indivíduos – corpus de proteção”.
No pensamento de Hobbes, marcado pela citação de Macpherson, encontro a necessidade de superação do estado de natureza para a sociedade civil, poder político das leis e do contrato social, em que os indivíduos renunciam a liberdade natural em nome do soberano.
Um importante exemplo desse pensamento é a expansão dos interesses dos indivíduos burgueses e contraposição ao controle do Estado absolutista. Veja que as conturbações políticas, sociais e econômicas, chocavam os interesses da realeza/nobreza com os anseios dos mercadores. As contradições podiam ser marcadas em relação ao espaço urbano, ao espaço rural e suas produções. Os mercadores, artesões e corporações de manufaturas; permeadas pelo trabalho assalariado marcavam essas novas relações. (CHAUÍ, 2000:399).
Paras Hobbes, (2001) o indivíduo constitui uma sociedade civil que necessita de um estado regulado por um soberano que impõe segurança e respeito a cada indivíduo. Este soberano é colocado como uma necessidade natural – “Estado de natureza, garantindo o comprimento das leis e o estabelecimento dos contratos sociai”(Ibid., 84.) Sem esse estado de natureza, não existiria a sociedade racional civilizada, pois os indivíduos se posicionariam em constante luta de uns contra os outros.
O Estado de natureza da sociedade civil baseia-se na lei, nos contratos e respeito ao soberano, por medo dos outros indivíduos. (...) os homens civilizados estabelecem harmonias em relação aos negócios, ofícios, amizade de mercado, facções, ciúmes, risos e senso de ridículo. (...) toda a sociedade é para o lucro, para a glória e para a dominação. (...) uma sociedade de indivíduos que pensam, opinam, raciocinam, esperam e temem. Tudo isso em relação ao outro. (MACPHERSON, 1979:34-37).

Os principais aspectos apresentados podem estar na fisiologia e psicologia do indivíduo. Estabelecido pelo apetite, desejo, aversão, experiência e julgamento em continua mutação. Homens e paixões. Desejos, poder, riqueza, conhecimento e honra. Valores comparativos e atos voluntários e virtuosos. Neste caso, o autor usa todos os indicadores observados em sua vida social de choques e contrastes (burguesia, aristocracia, nobreza, realeza, assalariados, etc).
É importante destacar que a Geografia Cultural que tento relacionar com as demais ciências sociais, considera ao longo do século XX, importantes argumentos centrados na idéia de cultura caracterizada por componentes materiais, sociais, intelectuais e simbólicos. (CORRÊA, op.cit. p. 03).
O mercado competitivo é estabelecido a partir do poder de compra e de venda. Os indivíduos disputam o poder, mais poder como proteção do atual nível de poder ou aceitação do poder. Uma natural luta pelo poder ilimitado pela busca da propriedade e do poder. Temos então uma sociedade competitiva que precisa do soberano como modelo de controle social e contra a violência individual. ( MACPHERSON,1979:57).

Essa construção pode ser observada em alguns modelos sociais por ele apresentadas:
A sociedade de mercado possessivo - uma economia de mercado e poder. O estado de natureza soberana como estrutura legal e mediação dos contratos e poderes. Diferente da sociedade de costumes “status” – baseada nos costumes/tradições/comunidades dominantes. Existindo uma ausência de mercado, a terra, o trabalho e a produção são alvos de disputas entre rivais de outros grupos. Já a sociedade de mercado simples – o mercado não é de trabalho, mas de bens. Existe uma produção e distribuição de bens e serviços pautados no trabalho, na liberdade e nas recompensas sem garantias. (Ibid, p. 58).
Na descrição destes modelos propostos por Hobbes, (2001) em sua teoria política do estado natural da sociedade civilizada de mercado possessivo os indivíduos vão sendo diluídos no tecido social e em suas contradições.
Na sociedade de mercado competitivo moderno, as regras de poder e controle social apontam para um aprofundamento das disputas do mercado. A Guerra como força de coerção e o estabelecimento de novas regras em ralação aos indivíduos, o mercado e o estado marcam o aprofundamento dos embates.
O liberalismo precisará de elementos que garantam aos indivíduos da burguesia um conjunto de teorias que dêem suporte aos seus direitos políticos e econômicos, reconhecidos e garantidos.
Duas questões são levantadas neste momento para a construção do indivíduo liberal: a primeira consiste na busca de garantias para o poder político burguês e a segunda consiste em garantir a propriedade como direito natural.
John Locke, no final do século XVII e inicio do século XVIII, apresentará uma formulação bastante coerente sobre a definição de direito natural a propriedade. Este pensador será analisado Macpherson, como um importante divisor teórico para a idéia de construção do indivíduo liberal, sedimentado do domínio do espaço e pautado em identidades culturais reconhecidas pela sociedade como direito natural do indivóduo:

A propriedade é um direito natural individual e o governo como garantidor das posses dos indivíduos. Direito como vida, liberdade, razão, riquezas (terras e bens). O direito natural com a apropriação pelo uso, trabalho e produção. (MACPHERSON, 1979:209).

Toda a argumentação descrita é baseada nos princípios do cristianismo. O mundo foi criado por Deus para o homem reinar e mesmo ‘expulso do Paraíso’, o homem continuou com o direito de com o seu suor e trabalho tirar da terra o seu pão. Para Locke (In. Macpherson, 1979), este é o legitimo e natural direito á propriedade privada como fruto do trabalho. Consequentemente, a lógica da propriedade privada dos meios de produção, como direito natural aos que dominam este espaço, justifica a garantia liberal da apropriação.
A burguesia tinha as bases para através do Estado Liberal, garantir o direito natural à propriedade, pois o Estado existe a partir do contrato social. Para o pensamento burguês liberal, quem não consegue com o seu trabalho retirar da terra suas posses, é um parasita, pobre, que não consegue a propriedade privada condição natural . Estes pobres são obrigados a trabalhar para os outros por um salário para que possam garantir sua propriedade, ou sobrevivência cotidiana.
Qual será a função do poder ou Estado soberano? Garantir a propriedade privada, por meio das leis ou da força? A teoria liberal defende que o estado proteja, mas não interfira na propriedade privada. Os proprietários como interessados na preservação ou ampliação de suas posses, são capazes de estabelecerem regras e normas de funcionamento e o Estado garante o funcionamento da sociedade civil. Assim, a propriedade é o ato de posse que cada indivíduo busca enquanto prática do próprio corpo (vida), liberdade e bens conseguidos pela sua própria ação direta (trabalho).
A contradição pode ser a exata medida da idéia de indivíduo proprietário de si, fazendo o que quiser do seu corpo, vida e trabalho. (ARANHA & MARTINS, 1992: 249).

Trabalho assalariado como estado de natureza com salário baseado no livre contrato. Alienação do trabalho como mercadoria vendida livremente. Esta será a base moral positiva para definição da sociedade capitalista. Considera que os operários mesmo sendo proprietários de sua força de trabalho (energia), não dispõem do direito político, pois estes direitos já estão inclusos no direito dos seus patrões. (MACPHERSON, 1979:210).

Estes argumentos lançados por Locke (In. Macpherson, 1979), justificam o ‘individualismo possessivo’ e a idéia de democracia liberal pautada na liberdade do ser humano em qualquer relação com o outro. O indivíduo como proprietário de si, pode alienar sua capacidade de trabalho, pois a sociedade de mercado possessivo estabelece amplas relações mercantis, enquanto que a sociedade política é um artifício humano, para proteção da propriedade do indivíduo perante a sociedade civil. Nesse modelo o poder é estabelecido pela coerção da classe dominante e o sufrágio democrático como idéia de liberdade da sociedade de mercado possessivo coercitivo. (Ibid., p. 214)
O pensamento de Locke em suas teorias, consegue sedimentar as bases para implantação da sociedade liberal e a garantia dos direitos individuais. O direito e o poder não se encontravam nos privilégios da tradição ou herança ou concessão divina, mas no contrato expresso pela livre manifestação da vontade dos indivíduos. O direito natural à propriedade privada e a questão do conhecimento como resultado da experiência, da percepção e da sensibilidade humana, supera as suposições de que os homens possuíam idéias inatas.
Trazer este debate para o universo da Geografia Cultural é reconhecer a importância da vida individual em convergência ou divergência com o grupo, um elemento fundador de uma dimensão espacial da cultural, sobretudo no que diz respeito ao princípio de poder cultural no espaço produzido e vivido pelo liberalismo ocidental.
Macpherson (1979), levanta três importantes categorias como idéia de democracia liberal e individualismo pluralista participativo como uma experiência teórica dos Estados Democráticos Liberais do Ocidente. Ele observa que este arranjo teórico vem desde o século XVII com Hobbes e Benthan que viam “o indivíduo como sendo essencialmente um maximizador e consumidor de utilidades (utilitarismo)”. Enquanto que os pensadores neo-idealistas Stuart e Green consideravam “os indivíduos em pleno exercício de suas faculdades e potencialidades”(Ibid. p. 261)
O mais importante desse capítulo é uma classificação dos tipos de pluralismo em relação ao indivíduo e a participação nas diferentes esferas sócio-econômicas e políticas: Pluralismo religioso – puritanismo do século XVII e capitalismo; Pluralismo humanista e neo-idealista – indivíduos insatisfeitos com os limites do desenvolvimento individual impostos pela sociedade de mercado competitivo; Pluralismo do produtor – o anarcosindicalismo francês e socialismo corporativo inglês. Homem produtor governado por suas associações e ausência de forças estatais na condução dos interesses coletivos e individuais; Pluralismo anarquista – completa defesa da autogestão pluralista comunitária. Defendem a substituição do estado por comunidades autônomas; Pluralismo pragmático – A ciência e a tecnologia a serviço do desenvolvimento humano; Pluralismo liberal contemporâneo e ou americano – Apresenta aspectos contraditórios da sociedade de consumo e capitalismo maduro. Um pluralismo político e econômico em que os quadros políticos são empresários enquanto que os eleitores são os consumidores; Pluralismo libertário conservador – Ver o homem como consumidor e os grupos de interesse do indivíduo com o poder de pressionar o jogo do mercado em seu favor.
Estes diversos argumentos dão uma tônica forte ao debate sobre a construção cultural do indivíduo liberal, que a Geografia poderá resgatar para seu universo de reflexão, pois pensar o espaço a partir da idéia de indivíduo e de cultural é uma preocupação que deve ser remetida para a Geografia enquanto uma ciência da social.

Geografia Cultural, Democracia e individualismo

Muitos são os estudos culturais contemporâneos realizados pela geografia ao longo de sua trajetória, sejam apoiados nas teoria social, espacial ou cultural. No entanto, a idéia de Cultura Política, enquanto categoria do universo geográfico, não aparece com tanta freqüência nos textos e contextos do pensamento geográfico. Mas, apostando num caráter holístico, resolvi pensar neste diálogo da Geografia Cultural com outros autores da Ciência Social a partir da idéia de indivíduo e democracia.
Pensar nos Estados Unidos da América (USA), enquanto um espaço de exercício da democracia liberal, foi uma das preocupação do cientista social americano Alex de Tocqueville, (ARON, 2000: 207). Enfoque este com preocupações relativas a democracia, a liberdade e ao individualismo egoísta culturalmente experimentado pela sociedade Norte Americana.
Trago para esta reflexão uma leitura bastante plural de (MAGALHÃES, 2000:141-164), em seu artigo sobre democracia individualista, no qual, ele consegue fazer argumentações teóricas e críticas em relação ao pensamento de Aléxis Tocqueville em relação à história da democracia moderna, em especial a experiência de democracia individualista nos Estados Unidos.
Sua experiência parte da idéia liberal em relação à liberdade, à democracia burguesa e ao individualismo das sociedades modernas.
Existe uma preocupação em relação à revolução democrática, democracia individualista americana, indiferença em relação aos interesses públicos, exercício de uma tirania com o consentimento popular.
Para evitar tais situações, Tocqueville aponta para um “educar a democracia”. Sua maior preocupação é a possibilidade que a tirania têm para se vestir de democracia e preencher os espaços deixados entre os interesses e práticas da democracia direta e pelos interesses públicos, substituídos pela democracia indireta e interesses privados individuais.
O Artigo de Magalhães apresenta um conceito mais apurado de democracia e liberdade. Esse conceito se contrapõe ao reducionismo da democracia liberal exposta por Tocqueville.

A democracia como luta de sujeitos impregnados de sua cultura contra a ‘lógica dominadora dos sistemas’. (...) A democracia enquanto um crescente poder social sobre a personalidade e a cultura – democracia como método e exercício de poder. (Touraine, APUD. Magalhães, 2000:155).


Considerando a experiência da democracia na perspectiva política de construção espacial de uma cultura social sedimentada nos sujeitos, enquanto indivíduos de poder, tenho que pensar a relação liberal com a democracia e liberdade de forma crítica. Assim:

O capitalismo em seu estágio neoliberal projeta o desmantelamento das organizações trabalhistas, e busca uma economia totalmente atrelada aos ditames da liberdade de mercado”. A democracia direta é basicamente substituída pela democracia econômica representativa, em que as políticas públicas são desvalorizadas em favor dos interesses das corporações privadas. (MAGALHÃES, 2000:155).

Tocqueville parece ser um dos primeiros teóricos a analisar o individualismo levando em consideração uma realidade empírica, a sociedade americana do século XIX, ambiente onde o liberalismo político e econômico ganhou maior força, até porque a jovem nação estava aberta para experiências. Assim, os Estados Unidos da América experienciaram a primeira e completa república federativa liberal-democrática burguesa.
A sociedade americana tende a justificar a legitimidade do indivíduo liberal. Considerando que o estado capitalista, constitucional e democrático tenha se desenvolvido ao longo do século XIX e inicio do século XX, mesmo nas suas diferenciações políticas de legitimação do poder (monárquico parlamentarista, republicano, federativo e até ditatorial) . O ideal de sociedade burguesa como fato social, estabelecido na adoção de interpretações tanto ideológicas quanto sociológicas; abordagens que conferem a originalidade do liberalismo.
(DUPUY, 1988:77) elege as duas principais obras de Adam Smith como fundamentais na construção da ciência econômica, demonstrando que a análise científica pode ir além da vontade manifestada nos indivíduos.
Primeiramente relaciona a modernidade individualista segundo duas visões: o indivíduo isolado, agindo por si só, autonomamente; e o indivíduo concorrente, que disputa, sem perspectiva de objetivos comuns ou projetos coletivos. Uma ação de gozo ou prazer, desvinculada do outro, ou o tendo apenas enquanto concorrente. (Ibid. p. 79)
Estas argumentações convergem para a doutrina econômica do liberalismo e para as teorias de Adam Smith, versando sobre filosofia econômica e a economia política, no fazer de uma sociedade de indivíduos em sua ordem.
De forma superficial poderia dizer que mesmo existindo uma representação de individualismo, inveja e egoísmo que fragmentam o sujeito moderno. O modelo ou ordem econômico liberal consegue com a sua lógica de agregação produtiva ligar os sujeitos aparentemente individualizados.
(DUPUY, 1988:80) surpreende-se com a possibilidade de astúcia da razão ou astúcia da história. No individualismo metodológico os mitos da solidão sublime, romântico e mesmo místicos convergem para a sutileza dos mecanismos e estruturas sociais com indivíduos passivos, sem astúcia coletiva num processo sem sujeitos comuns.
Mesmo havendo algumas contradições argumentativas em relação as diferentes faces do liberalismo e do próprio individualismo, Dupuy (1988) considera como artifício do individualismo liberal três aspectos distintos:

O primeiro trata o indivíduo a partir de uma vontade, consciência de si, razão, força e poder. Não predicativos do indivíduo da econômica política, reduzidos ao princípio da realidade; o segundo aspecto é a passagem da razão para o estado de sentimento ou ordem sensorial, diferindo da ciência ou economia política; o terceiro aspecto trata do individualismo metodológico, contraditório e baseado na dedução do indivíduo social de matriz ou tradição complexa”(DUPUY, 1988: 81 e 82).

O autor apresenta os fundamentos dessa tradição individualista e da idéia de progresso do indivíduo nesse homem econômico, estabelecido pelo individualismo, egoísta e autônomo, satisfeito e sem querer problemas ou conflitos. Soberano de si mesmo e despreocupado com a vida em sociedade, desvinculado do indivíduo do contrato social.
O eixo central de suas análises está em um constante diálogo com as obras de Adan Smith (1776) - Tratados sobre Teoria dos Sentimentos Morais (TSM) e a Riqueza das Nações (RN), são apresentados como bases do conhecimento sobre o domínio da disciplina econômica.
A ordem dos domínios da moral, simpatia e atividade econômica. Estabelecendo uma emancipação da religião, da política e da moral tradicional. Estas obras negam a experiência dos domínios, ou teoria do conflito, apontando para a metáfora da “mão invisível”, em que: “(...) Existindo equilíbrio econômico, haverá sobras e caridade espontânea”.

(...) A simpatia passa a ser um processo diferente do egoísmo. Quando o indivíduo se coloca ele mesmo no lugar do outro, torna-se sensível e identificado, sofrendo um contágio positivo. (...) os princípios para a teoria da moral, os julgamentos morais de aprovação ou reprovação e o prazer da simpatia recíproca enquanto idéia de sentimento agregado. (...) Este é um dos principais prazeres da existência. (Ibid, p. 90 a 97).

Nesse acordo de sentimento agradável, Smith chega ao ideário da simpatia ativa. Os atores sociais passam a representar no teatro social tais sentimentos e valores para uma sociedade equilibrada.
DUPUY (1988), considera a existência de um paradoxo nessa relação em que ator/espectador está em constante cena, simpatizando ou não com o cotidiano e experiências da vida em sociedade. Assim:

Os indivíduos são levados à lógica da imitação (mimética), cópia ou lógica de uma produção, sem saber nem querer. (...) Uma espécie de loucura ignorante do universo do mercado, da incerteza radical e suas probabilidades, interesses e forças obscuras do mercado. (...) O indivíduo como imitação dos outros. Imitação de formas arbitrárias em relação ao indivíduo e a sociedade (Ibid, p. 100 a 102).

DUPUY (1988), não convencido do ideário Smithiano, destaca que o julgamento individual perde seu valor perante o resto do mundo em relação ao comportamento da média ou da maioria. O mercado financeiro estabelece uma busca desenfreada pelos dividendos na lógica dos preços de mercado.
Destacaria o atual estágio do individualista e monopolista, com a seqüente destruição da diversidade cultural, quebra das leis teoricamente naturais da economia de mercado. Outro Exemplo é a oligopolização das corporações capitalistas. Será que o indivíduo perde a astúcia da razão em meio ao novo estágio de centralidade do capital.
Veja os argumentos de DUPUY (1988) em relação aos comportamentos do mercado atual:

Uma psicologia louca dos indivíduos em suas corporações. Ganhador será aquele mais louco, que tiver a coragem de investir o máximo na sua loucura. Este é o individualismo do sujeito mercantil. (...) Nesta loucura psicológica do mercado, os indivíduos imitam todos os outros. A imitação da imitação enquanto potencialidade. Um sistema de atores em que todos se imitam na loucura do objeto mais inesperado. (...) O jogo especulativo em que cada um rouba dos outros, convencidos da vantagem. (Ibid, p. 101 a 105).

Para o autor, esse é um comportamento como razão individual a serviço da loucura individualista. A razão do mercado em títulos líquidos, suprimindo as instituições e ao longo do tempo desestruturando todo o mundo do capital físico ou (produtivo) real, em que a racionalidade fica presa nas regras e julgo do mercado.
Estas argumentações são percebidas com muita clareza no neoliberalismo contemporâneo. O indivíduo imerso na complexidade social.
Estas são talvez as grandes linhas da filosofia social, política e moral. Com experiências no campo do individualismo, anarquia, estado e utopia, argumentando em linhas gerais sobre lei, legislação e liberdade, e principalmente demonstrando a preocupação com a questão do indivíduo e a teoria de justiça social.
Em meio a esta fogueira de idéias DUPUY, (1988), argumenta que o indivíduo deve encontrar sua autonomia frente às contradições impostas quotidianamente, buscando um censo de justiça racional partilhada com seus semelhantes. Defende também uma teoria econômica racional não apenas em relação ao indivíduo, mas ao grupo que ele pertence. Uma idéia de individualismo radical , estabelecido a partir do total respeito dado a uma pessoa humana.

Uma hierarquia encabrestada em que o homem é subordinado a totalidade social manipulada. A complexidade do estado justo, repartição justa para o indivíduo. A cada um segundo seus méritos e capacidade, aceitação de justiça, liberdade enquanto estado de legalidade, ou justiça processual pura. (Ibid, p. 112).

No atual estágio, uma representação cada vez mais distante da teoria do conflito de classes e muito mais próxima dos indivíduos e seus interesses privados. Essa lógica de representação em que o governo se limita em atender as satisfações e direitos individuais, restringe o espaço ao corpus individual, O espaço enquanto cultura produzida coletivamente, perde sentido enquanto fragmentação e estilhaços de cada individualidade.

Um jogo em que os indivíduos estabelecem a concorrência e rivalidade. Os indivíduos reagem segundo uma aceitação do modelo social como um jogo de concorrência e luta para vencer o outro e ser o melhor, o mais capaz. Um vencedor e bem sucedido individualista incluído ao grupo que reconhece esse princípio de forma consensual. (Ibid. p. 112).

O individualismo metodológico pode ser considerado um caminho de análise satisfatório da realidade social, pois o indivíduo e a propriedade privada são bases na construção teórica do liberalismo, raiz de categorias como o contrato social, democracia liberal e do liberalismo político que representam os interesses individuais como sendo sociais.
Dizer que todas estas argumentações em relação à construção do indivíduo liberal já tenham consolidado tal experiência pode representar uma idéia frágil. As novas e vivas experiências nas relações entre os interesses do indivíduo e os interesses sociais devem ser pensados pela Geografia Cultural na perspectiva do espaço. A compreensão de que o plano teórico do individualismo foi alimentado como idéia de plena liberdade da sociedade ocidental, pode ser um ideário da liberdade e do indivíduo em relação às instituições e a própria sociedade.
O próprio conceito de liberdade foi ao longo do tempo dissociado da categoria igualdade e as contradições existentes no seio da vida social vinculadas a restrita liberdade do indivíduo. O individualismo consolida um ideário em que o interesse do indivíduo é a medida de todas as coisas e que a sociedade deve se moldar aos interesses deste. Parece até que não existe a necessidade de luta por este ou aquele modelo social, pois a sociedade de certa forma retira do indivíduo o exercício de sua liberdade e o seu próprio projeto de interesse individual.
No atual estágio de desenvolvimento tecnológico e científico (mecatrônica, microeletrônica, inteligência artificial e cibernética), o universo de homens livres e vazios de capital e de trabalho é muito forte. Indivíduos descartáveis perambulando pelas avenidas das grandes metrópoles sem um lugar definido e, capturados pelo capital, vivem suas contradições.
Considerando à liberdade individual como singularidade humana. A questão é: O indivíduo liberal será capaz de no atual estágio de desenvolvimento, gerar um equilíbrio entre os interesses individuais e coletivos? Ou prevalecerá a instauração de um “reinado da soberania individual ou Associação de Egoístas”?
O “Estado Soberano” construído ao longo da história consolidou o indivíduo liberal possessivo discutidos e analisados por Macpherson ao longo da sua teoria política do individualismo possessivo. Mas a questão da propriedade como sendo apenas de alguns indivíduos, gera uma sociedade de desigualdades conflitantes e de exclusão societária.
Os sentimentos e práticas de solidariedade, cooperação, mutualismo e reciprocidade enquanto fortalecedores do indivíduo e eliminadores do egoísmo individualista não conseguiram sustentação na sociedade liberal. Mesmo assim, o ideário coletivista e societário, continua sendo pensado em diferentes esferas da sociedade liberal.
Para finalizar este artigo considera a seguinte questão: A propriedade como domínio do coletivo e posse do indivíduo para que este desempenhe livremente as suas potencialidades de produtor independente e coletivamente associado, ainda poderá ser um princípio possível de resgate para a sociedade liberal democrática?

Bibliografia

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MATTELART, Armand. História da Utopia Planetária – da cidade profética à sociedade global. Lisboa: Bizâncio, 2000.
OUTHWAITE, Wiliam e Bottomore, Tom. Dicionário do pensamento social do século XX. Editoria brasileira Lessa Prado e WG. Santos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do Contrato Social. São Paulo: Martin Claret, 2001.
SENNETT, Richard. Carne e Pedra – o corpo e a cidade na civilização ocidental. Trad. De Marcos Aarão Reis. Rio de Janeiro - São Paulo: Editora Record, 1994.
publicado por olharesgeograficos às 02:43
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caleidoscópio

CALEIDOSCÓPIO: Geografia do caos em movimento
Belarmino Mariano Neto

Palavras chaves: paradgma, incerteza, complexidade.

O tempo é você que se espalha em chamas e ardente(mente) cria expectativas para o NADA. Os homens tecem suas teias e formam um telhado de arranha(céus) que arranha(mente) e mentirosamente os tornam viúvos da trama que se constrói, onde os atores são autores da autodestruição construtiva alucinada(mente) perdida no espaço de um tempo ESFÍNGICO. Rápida, sorrateira explode uma geográfia caótica e sem ponto de partida. É o caleidoscópio, a complexidade das formas simples, a incerteza em todos os sentidos.
O caleidoscópio, espaço tridimensional construído a partir de três lâminas de vidro espelhadas, postas em oposição, (re)produzem ilusórias imagens. Colocados cacos de vidro coloridos, missangas e outros fragmentos, sem ordem de distribuição, estes representam o caos, a completa desordem, mesmo limitados a cônico espaço de reduzidos diâmetros. Mas se movimentamos este cilindro, observando a posição dos fragmentos, notamos uma verdadeira ordem universal, ou seja, o cosmo em um vitral harmônico, mesmo sabendo que o mecanismo é pura geometria euclidiana.
Em diversas salas de aula, trabalho a partir deste espaço de contradições, percebo o quanto a sociedade tem de caleidoscópio em sua composição. As relações ou comportamentos parecem caos, cosmos.
Isto é, (des)ordem.A sociedade humana, apresenta um trivium de sustentação individual e coletiva que é estruturado em Pensamento-Sentimento-Vontade.Por mais que tente-se controlar ações e estudar reações desse controle, deparamo-nos com a incerteza. O paradigma da complexidade incerta, colocando as ciências bastante distantes do (ir)real. Dependendo do grau da lente de observação, embassa-se completamente a vista. A sociedade é caleidoscópio em cacos multicoloridos, pluraridade. Por mais que tenha-se o dóminio dos mecanismos para mover o caleidoscópio, é ele quem sempre estabelece que combinações de cacos e cores aparessem ao olhar de seu manipulador.
Complica-se ainda mais, quando aparecem alguns para afirmarem que o mundo total chegou, com essa nova fase do capitalismo simulacro, onde ciência e tecnologia se fundem e massificam um espaço de idéias e de concrectudes esfumaçadas, temos que, no reverso, as particularidades se mostram cada vez mais fortes, testemunhando que a diversidade é a destruição do mono. A massificação vem causando um mal estar capaz de mudar radicalmente a cara do que hoje parece ordem nova. e chegamos a conclusão anarquica que, será dos pequenos grupos de afinidades que construiremos um grande mundo.
publicado por olharesgeograficos às 02:37
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Discodianismo

Discordianismo
Por Belarmino Mariano Neto (belogeo@yahoo.com.br)

Podemos começar pensando o discordianismo na perspectiva mitológica, isso para encontrarmos uma idéia de deidade ou divindade da discórdia. Essa divindade e de sexualidade feminina. Éris - Uma das divindades primordiais, filha Nix (a Noite). Em outras versões, é mencionada como filha ou irmã de Ares, o deus da guerra. Acompanhava-o aos campos de batalha, disseminando ódio entre os combatentes. Nix era Filha de Caos, um espaço aberto, matéria rude e informe, à espera de ser organizada, princípio de todas as coisas. Nesse espaço surgiu a Terra (Gaia). Nix gerou uma infinidade de deuses como Nêmesis (a Vingança), Momo (o Sarcasmo), Tánatos (a Morte), Hypnos (o Sono), Éris (a Discórdia). Nix envolvia o Caos como uma sólida casca, dando-lhe o aspecto de um ovo. No interior desse ovo gigantesco originou-se o primeiro ser Fanes (a Luz). Este ser, unindo-se a Nix, engendrou o Céu e o próprio pai dos deuses. Segundo outra corrente da cosmogonia órfica, Nix não formava uma casca. Era uma ave negra de enormes asas. Fecundada pelo vento, pôs um ovo de prata no seio da Escuridão. Desse ovo saiu Eros, o Amor Universal.
Se Éris pode ser considerada como a divindade da discórdia, assim poderíamos até admitir a existência de um primitivismo religioso pautado na adoração de Éris. Não podemos afirma que a deusa tivesse seus adoradores de plantão, mas é importante considerar que o próprio sentido da palavra reforçada pelo principio do caos, do conflito ou da guerra (Ares), como filho legítimo de Zeus e Hera, temos nesse caldo divino da cultura grega a essência para o discordianismo filosófico e teológico. Conta o mito que
Ares revestido de couraça, capacete, armado de escudo, lança e espada, acompanhava-se de Deimos (o Medo) e Fobos (o Terror), seus filhos com Éris. Se Zeus era filho de Cronos com Réia e seu pai devora todos os filhos. Cronos - O mais jovem dos Titãs, filhos da Terra e do Céu. Ao pedido de sua mãe mutilou o pai e ocupou seu lugar no trono do universo. Esposou sua irmã Réia e tiveram alguns daqueles que se tornariam os principais deuses olímpicos.
Assim como Éris, Nix gerou também a Morte que para os gregos era um gênio masculino alado que, entre os gregos, personificava a morte. Era filho de Nix (a Noite) e irmão gêmeo de Hipnos (o Sono). Entre os romanos a Morte era uma deusa, Mors, ou mais freqüentemente, uma pura abstração personificada. Se a morte pode ser irmã de Éris, divindade da discórdia nos deixa diante da grande dicotomia da mística Grega e até certo ponto ocidental. Vida e morte elementos por essência discordantes mas complementares e que alimentam todos os princípios religiosos. A vida para a morte enquanto a possibilidade de uma outra vida
O Discordianismo é ‘a base de todas as religiões. Uma visão geográfica do Espaço Geográfico no qual podemos perceber o limite cultural de uma experiência religiosa, seus princípios e relações fechadas em relação aos outros experimentos culturais. O Discordianismo religioso acontece na zona de contato entre duas culturas ou mesmo na base de compreensão cultural de dois ou mais pensadores e propositores de linha de ligação (religare) entre o humano e a falta de explicação sobre os enigmas ou mistérios da natureza envolvente. Em especial no que tange a visão expansiva do que sai do alcance da mente humana. Quando há um ponto de divergência entre dois ou mais filósofos, místicos ou lideres de um grupo social básico para o desenho religioso nascente. O que apresentamos se confirma em todas as grandes correntes religiosas ou filosóficas, sejam do ocidente ou do oriente. Mas quando observamos os guetos de formação de uma seita e dessa para um espaço de ampliação e até massificação dos contatos inter-grupos o discordianismo vai se estabelecendo. A religião ganha um sentido no processo de validação dos pares, mas e principalmente no processo arranjado pela discórdia de pontos de vistas, rituais e dogmas da religião oposta e/ou diferente da que se apresenta.
O pensamento, o sentimento e a vontade são o trivium para o estabelecimento de uma religião. É na reflexão e na prática de contato entre estes três elementos que se constrói uma unidade religiosa. O mais interessante nesse processo é o fato de que na individualidade, sempre existem pontos discordantes de cada fiel em um todo religioso. Seja em relação a um rito, a um símbolo, a um perfil teórico da base teológica ou até mesmos dos representantes diretos do modelo no qual o individuo se insere.
Nesse sentido o discordianismo tende a ser o elemento chave para na sua ampliação ser gerada uma nova experiência de caráter religioso. Vejamos o caso do cristianismo em sua esfera primitiva com encaminhamentos dos essênios para uma ruptura de alguns valores e dogmas do judaísmo da antiguidade. Estes foram os pilares para uma nova mensagem de fé que demarcou o espaço geográfico do Oriente Médio na Antiguidade. Com a adoção do cristianismo pelos romanos e seu reconhecimento oficial, são estabelecidos os concílios e todo um jogo de regras e disputas de poder na organização hierárquica da Igreja Católica Apostólica Romana. Nesse processo e com um viés espacial demarcado em Roma e em Constantinopla, tivemos elementos discordantes e até mesmo de isolamento cultural que terminaram por provocar uma forte dicotomia no cristianismo católico (ortodoxia e romanismo cristão). É importante ressaltar que o discordianismo pode se estruturar a partir de muitos fatores, mas, o elemento cultural perpassado pelo pensamento, sentimento e vontade delimitados pelo indivíduo e ampliados para demais indivíduos de um grupo religioso, representa o "cimento" de um novo perfil religioso e conseqüentemente a possibilidade de alimentação do discordianismo em sua base. Nessa seqüência e com grandes transformações socioeconômicas, políticas e culturais vividas pela Europa no seu processo histórico de modernidade, fizeram com que o romanismo cristão (cristianismo apostólico romano) sofresse um violento processo discordante em sua base, isso provocou importantes desalinhos na unidade cristã da Europa. O perfil inicial do protestantismo tem suas bases no discordianismo do oficio religioso e hierárquico da estrutura de poder do Vaticano e conseqüentemente na cisão efetiva da base religiosa. Isso gerou cristianismos: luterano, anglicano, dominicano, etc. O principal comprovante da amalgama do discordianismo religioso. Não enquanto construção religiosa efetiva, mas enquanto busca de um desenho divino que se aproxime o máximo possível do desenho cultural que cada grupo apresenta em sua história.
Esse é um processo de sofrimento religioso que se estabelece principalmente em grandes sistemas religiosos que tendem a impor seu modelo, ou que fecham algumas passagens do pensar e sentir dos seres que tentam seguir o modelo. Isso atravessa de cheio o princípio da vontade, atingindo a essência do humano que se constrói na liberdade individuada em si. O preso pensar, o preso sentir e o preso agir são os alimentadores do discordianismo religioso. A Religião que não perceber a importância da flexibilidade, tende a alimentar em seus fies uma divindade da discórdia. Esse Deus da discórdia pode até ser lido como uma figura do mal que atrapalha o fiel em seu caminho, mais em muitos casos, o Deus da discórdia acaba alimentando a criação de novas divindades e/ou a (re) dimensão da base religiosa existente. Quando os princípios religiosos de um grupo social se dão de forma politeísta, o discordianismo em essência já se encontra manifestado naqueles que tentam atrair alguém para sua seqüência ritual. Mas no caso do monoteísmo, o discordianismo religioso pode ser um processo lento e gradual que só estabelece rupturas bruscas quando elementos diversos da sociedade convergem para a quebra de valores que engendra a sociedade como um todo.

Belarmino Mariano Neto é professor de Estudos Integrados do Meio Ambiente pela Universidade Estadual da Paraíba - Brasil. Doutorando em Sociologia pela Universidade Federal de Campina Grande e da Paraíba.
Organizador do Grupo de Estudos sobre Essencialismo &Fenomenologia
Contatos: belogeo@yahoo.com.br
A base mitológica desse artigo se encontra no:
http://www.filonet.pro.br/mitologia/eris.htm
publicado por olharesgeograficos às 02:28
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