Sábado, 31 de Dezembro de 2005

Sistema de Informação Geográfica

Da cartografia virtual aos novos desenhos e arranjos geográficos.
Belarmino Mariano Neto.

“Matéria, vida e mente – Estes três elementos formam os pilares da ciência contemporânea (...) na divisão do núcleo do átomo, na decodificação do núcleo da célula e no desenvolvimento do computador eletrônico.” (KAKU, 2001: 21).

Estamos começando esse artigo considerando como fundamental essa trilogia proposta por MICHIO KAKU, (2001), pois o autor nos chama atenção exatamente para a idéia do átomo, do computador e do gene. A mente vem simbolizando esse processo revolucionário da ciência e da tecnologia. Seja na perspectiva da física quântica, da informática ou da revolução biomolecular. Estamos vivendo uma experiência de quebra de fronteiras científicas, mas também da formação de novas fronteiras de conhecimentos, criações e descobertas. Esse futuro que se apresenta de forma acelerada tem em suas digitais experiências microeletrônicas, biotecnológicas, telecomunicações, robótica e produção de novos materiais enquanto arranjos e desenhos cartográficos em uma crescente modal sem precedentes na história das civilizações.
Nosso objetivo é entender as diferenças entre sistema de cartografia automatizada e sistema de informação geográfica; fontes de dados geográficos e manipulação em informação espacial; conceito de topologia; SIG’s (Sistema de Informações Geográficas) aplicado ‘a pesquisa; objetos estatísticos e campos dinâmicos; procedimentos de análise espacial em SIG’s; vantagens e desvantagens dos SIG’s e aplicabilidade. Nesse contexto levantamos todo o processo histórico que permitiu essa realidade tecnológica para a atualidade.
PIERRE LEVY, (2000) começa suas escrituras sobre o Ciberespaço levantando uma importante questão sobre os impactos dessas novas tecnologias. E gostaríamos de dizer que não se trata apenas de impactos, mas de um novo mundo que passa a ser construído, mapeado e cartografado pelas digitais tecnológicas do universo virtual presente.
Pensar o século 21 no contexto do atual passa pôr uma reflexão dos comportamentos sócio-econômicos e técnico-científico-informacional por que passa a humanidade em seus diferentes estágios de desenvolvimento. (SANTOS, 2001: 32).
Passa também pela compreensão das novas expressões incorporadas ao cotidiano dos povos, tais como mercadorização generalizada, as revoluções midiáticas, os internautas e a virtualidade do mundo são alguns dos novos elementos que começam a fazer parte do cotidiano nosso. Mundialização da produção, da circulação e circuitos financeiros imediatos, onde o capital especulativo circula a uma velocidade luminar, com paradas de metrô em cada uma das bolsas de valores mundiais. Incontroláveis, transitórias e deixando marcas irreversíveis no mundo do capital produtivo.
Em macros ou microcomputadores circulam grandes volumes de informações e produtos de informação que serão consumidos pelas pessoas desse mundo moderno. Mapas, gráficos e tabelas são algumas linguagens usadas nesses sistemas de circulação das idéias mundiais.
Se as duas guerras mundiais criaram fronteiras militares, ideológicas e políticas que culminaram com os programas da Guerra Fria, foi esta mesma “guerra” que alimentou o progresso tecnológico e econômico, dos Estados Unidos, que vendeu para o mundo do século 20, seu potencial militar e técnico-científico, além das ações imperialistas, calcadas na defesa do mundo e baseadas na agressão, subversão, terror ideológico e dominação econômica e cultural que moldaram o mundo da modernização, modernização esta com um grande fosso de riqueza e pobreza dentro de cada lugar onde o sistema construiu sua hegemonia. Especialmente no tocante a quebra das produções tradicionais e nas periferias dos sistemas centrais. Esse mundo da ‘técnico-ciência e informação’, já possui diversos centros de excelência, seja na Europa Ocidental (U.E.), no extremo oriente (Japão) ou até mesmo em espaços do capitalismo periférico, Como São Paulo, México ou Buenos Aires.
A modernização do mundo nos apresenta um novo conceito de espaço geográfico que pode ser trabalhado a partir da idéia de um conjunto de instalações das relações sociais movidas pelo trabalho que capitaliza o capital, onde espaço é mercadoria. Espaço que se torna raridade nessa construção do sobreviver humano, espaço onde podem ser lidas as contradições das relações e forças produtivas que em sua gênese, combinam-se, complementa-se simultaneamente.
A nova revolução industrial (micro-eletrônica, cibernética, computacional, robótica, cognição, etc.), começa a construir um mundo para homens em sobra, vazios de trabalho, desempregados e contraditoriamente perdidos de sua milenar cultura da atividade. Essa lógica do real/virtual combina-se na construção da sociedade que desfrutará ou não as décadas do século 21. Sendo o Sistema de Informações Geográficas indispensável para os que querem navegar sem muitos náufragos, mesmo para aqueles sem propósitos pré-definidos.

“O lançamento do projeto infovias provocou grande alvoroço nos Estados Unidos. As ondas que acompanham a série de fusões, aquisições e alianças que hoje acontecem no setor da comunicação e da informática, os anúncios concernentes ‘a futura televisão digital de alta definição..., vários sinais ultimamente têm chamado à atenção do grande público para o que se convencionou chamar de multimídia.” (LEVY, 2000: 11)

LEVY, (2000) consegue nos apresentar os elementos básicos para os contornos ou fronteiras entre o real e o virtual em que a grande onda tecnológica vem carregada por um processo de interconexão de diferentes meios de comunicação/informação gerando com isso o ciberespaço de profunda engenharia virtual que se manifesta em ações práticas e cotidianas dos seres que acessam informações digitais.
Se os inventores dos computadores se utilizaram de Gutenberg para ‘encostar’ suas engrenagens gráficas, acoplando-as ao computador. O SIG’s (Sistema de Informações Geográficas) faz o mesmo com a cartografia tradicional, pois ao se automatizar e tornar-se digital, utiliza-se dos sistemas de informações geográficas convencionais para um geoprocessamento não convencional, onde aparecem os gráficos, tabelas, informações estatísticas, informações aéreas e topologia que armazenados compõem os bancos de dados espaciais. Assim teremos produtos como mapas tridimensionais ou digitais de alta resolução sobre os mais diferentes temas que se possa imaginar.
Os dados geográficos devem vir de uma realidade espacial que será usada inicialmente a partir das coordenadas geográficas. Para tal, a moderna tecnologia oferece o GPS, que via satélite informa com exatidão os diferentes pontos da superfície terrestre. O Banco de Dados, obtido a partir das diversas informações do local mapeado, de forma descritiva. Outra informação importante é a relação tempo espacial do objeto de estudo. Estes elementos serão básicos para o Geoprocessamento como um sistema de análise de artigos geográficos com natureza multidisciplinar.
As informações espaciais vão desde a idéia de localização, aos objetos que caracterizam os dados geográficos. Tratando-se da localização a partir de coordenadas cartesianas, definem-se as dimensões em pontos, linhas, áreas ou polígonos, determinados no tamanho espacial e volume tridimensional que representará o objeto físico.
Nos atributos que estruturam a representação do real em produtos cartográficos, tem-se a posição das coordenadas, seus valores numéricos dentro de uma representação analógica, onde se destacam os modelos vetorial e matricial. As vantagens do sistema vetorial estão na boa representação das imagens, em uma estrutura compactada, com criações topológicas. Enquanto que o modelo matricial apresenta uma estrutura de dados bem mais simples, com associação de diferentes camadas e uma análise espacial de fácil explicação e assimilação. Mesmo sabendo-se que os dois modelos apresentam algumas desvantagens, como: perda de informação nos grandes volumes de dados, dificuldade para ligações em redes e no caso específico do sistema vetorial, uma complexa estrutura de dados dificuldades na filtragem e análise espacial em polígonos.
Quando se chega aos conceitos e paradigmas em informações espaciais, pode-se notar que a informação espacial e a realidade espacial dependem diretamente de um modo escalar. Nesse sentido, o tipo de escala escolhido, a forma dos objetos discretos e estatísticos, e os campos dinâmicos são de importância impar. No tocante a correlação espacial, variabilidade e transição do fenômeno estudado, criando-se uma espécie de dicotomia, em como melhor representar espacialmente o fenômeno.
Essa dicotomia estar diretamente relacionada aos sistemas estáticos e dinâmicos em que a rede topológica é estática e os fluxos (rios, vias, correntes energéticas, etc.) são dinâmicos. Assim têm-se alguns critérios de valores que podem ser simples ou multivalores. Na teoria Booleana, os elementos podem ser representados em campos de sim e não, ou (0 e 1), onde o comportamento dos dados será sempre determinístico e simplificado. Já a teoria de Fuzzy, aponta para a probabilidade e possibilidade dos fenômenos, respeitando-se a incerteza no trato dos dados.
Estas teorias apontam para a inevitabilidade de erros, especialmente quando você deixa uma análise mais simples, como aquilo que existe ou não existe, encobrindo os campos de transição entre o existir e o inexistir. Pois quando o comportamento determinístico nega a incerteza, perde-se o probabilístico. Isso sem esquecer que tem grande peso para os SIG’s, a diferença entre a realidade e a representação da realidade modelada, além da precisão e da qualidade das informações.
Nesse contexto incorpora-se a topologia como um importante processo matemático que define as relações espaciais, levando-se em conta as propriedades geométricas invariáveis, que através dos pontos, linhas e polígonos permite a geo-codificação, fazendo do mapa um meio de comunicação em informação cartográfica armazenadas.
Os SIG’s São apontados como ciência ampla e de múltipla aplicação, pois seus componentes principais como: Hardware, Solfware, Base de Dados e o Ambiente Organizacional, permitem diversos usos e aplicações, tanto em áreas técnicas como em áreas científicas, além do uso pelas pessoas já incorporaram a informática ao seu cotidiano. Podem-se listar aqui as diversas áreas e usos do SIG’s como demonstrativo de sua indispensabilidade para o atual estágio de desenvolvimento da sociedade humana:

• Planejamento (agronomia, agricultura, florestal, ambiental, urbano, rural);
• Criminalística, Justiça, Saúde, segurança, trafego, estradas, trânsito;
• Ciências Marítimas, Ciências Sociais, Ciências Naturais;
• Gerenciamento de Recursos Naturais;
• Temas como: limites geográficos, solos, vegetação, hidrografia, relevo, geologia, climatologia, estatísticas;
• Monitoramento em habitat e vida selvagem e reservas naturais;
• Estudo de áreas de inundação e impactos ambientais;
• Gerenciamento de qualidade de água;
• Sistemas urbanos, redes subterrâneas, redes energéticas, rodovias, cabos, condutos, etc.
Diversos campos da ciência podem fazer uso dos materiais que os SIG’s processam, seja da área de humanas, ciências jurídicas, ciências exatas ou naturais. Mas o Sistema de Informações Geográficas também pode ser usado pela sociedade como um todo, ou por indivíduos em suas atividades diárias, pois diversas áreas do cotidiano social já funcionam dentro de uma rede onde informações geográficas estão facilitando suas vidas. São muitas, as vantagens de uso das informações geográficas, especialmente em espaços urbanos, devido as grandes concentrações demográficas, atividades produtivas e circulação da produção, informação e idéias.
Talvez as desvantagens estejam relacionadas ao fato de se estar trabalhando com dados estatísticos, incorrendo-se em algumas margens de erros que podem distanciar o sistema da realidade. Outra desvantagem é que em muitos casos, muitos dos programas ainda não foram traduzidos para a língua portuguesa, dificultando seu uso.
Atrelado a isso, denota-se uma dependência do Brasil aos programas e tecnologias estrangeiros, tornando-os caros no mercado local. Mesmo assim, o processo de globalização avança sobre esses mercados periféricos gerando entre outras coisas experiências de contrabando e o barateamento de alguns equipamentos, mesmo que de forma restrita. Uma saída para se evitar esse tipo de relação seria um investimento dos governos na perspectiva de equipar as instituições de ensino superior com equipamentos e tecnologias da informação, tidos como essenciais em qualquer tipo de pesquisa científica.

Fontes:
Este curto texto foi elaborado com base no curso sobre Sistema de Informação Geográfica. Ministrado pelo professor Eduardo Viana, com algumas informações de revistas sobre SIG’s.
KAKU, Michio. Visões do Futuro – como a ciência revolucionará o século XXI. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
LÉVY, Pierre. Cibercultura, São Paulo: Editora 34, 2000.
LÉVY, Pierre. A inteligência Coletiva – por uma antropologia do ciberespaço. São Paulo: Edições Loyola, 2000.
SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço-técnica e Tempo, Razão e Emoção. SP: Hucitec, 1996.
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização – do pensamento único à consciência universal. RJ/SP: Record, 2001.
SANTOS, Milton. Natureza e sociedade Hoje: uma leitura geográfica. São Paulo: Hucitec, 1997.
SANTOS, Milton. Ensaios de Geografia contemporânea (Org. Ana Fani). São Paulo: Edusp, 2001.
TEXEIRA, A.; A. Moretti, E. Christofoletti, A. Introdução aos Sistemas de Informação Geográfica. São Paulo: Edição do Autor, 1992.
MARIANO NETO, Belarmino. Ecologia e Imaginário - memória cultural, natureza e submundialização. João Pessoa: Ed universitária da ufpb, 2001.

publicado por olharesgeograficos às 02:49
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