Sábado, 28 de Janeiro de 2006

As tantas Cordas do sonho

De Joana Belarmino

O grito destapou a rolha do silêncio. Era a mãe a chamar para o almoço. Maria ergueu-se do banco de folhas onde estivera sentada, e num jeito de mão atirou para longe os pensamentos que lhe pesavam nos braços magros.
Outra vez o grito, sílabas cristalinas a lamberem as pedras, a estenderem-se para além da serra, espantando a rolinha nova a dormir no seu ninho de família. Maria ia caminhando a pressentir que algo novo viria. Um cheiro, o som de brisa. Maria sabia que alguma coisa ia mudar. A rotina estalaria como bolacha velha, para que outra coisa acontecesse. Outro mudar de pernas, outra cavalgadura.
Maria não pensava isto assim, com essas palavras compridas. Maria apenas sentia, sentia como algo que lhe cutucasse o estômago. Uma ponta de vara. Maria sabia que depois de ter sentido as mãos tão pesadas dos seus pensamentos de todos os dias, Maria sabia que algo lhe pesaria nas mãos, algo diferente, buliçoso, estranhamente colado a si, como a litania dos seus pensamentos, todas as horas, a gritar dentro de si a música insone e sem tréguas.
O vento uivava nas frestas da pequena casa de taipa, o feijão quente esperava no prato. Mas Maria sabia, era outra pessoa que entrava na casa. Outra pessoa já mudada, diferente, a pisar um terreno estranho, feito de palavras que ela ainda não conhecia. Despegou um pequeno fragmento de mato do cabelo e pegou na colher.
O cheiro a suor do pai deu-lhe a notícia já sabida. Ele estava sentado à cabeceira da mesa, comendo lentamente, o que lhe dizia que já estava no segundo prato de feijão, feijão com caldo, como ele gostava sempre no segundo prato. E foi o pai a construir a primeira quilha de palavras por onde começaria aquela coisa nova que cutucava no estômago de Maria.
Ditas assim, aquelas palavras do pai, ensopadas com o caldo e os caroços de feijão, bateram em Maria como se fosse chuva de pedras, as pequeninas pedras que as vezes o vento enfurecido das tardes de ante-chuva atirava-lhe à cara magra.
“Tu vai estudá Maria”, dissera o pai, enquanto mastigava o feijão por entre as sílabas. Um breve soluço da mãe veio do chão, onde ela gostava de comer os bolos de feijão amassados com a mão. Teria se engasgado com a farinha? Estudar. Era aquela palavra intrusa e feia que lhe batia na cara, como manguito verde e azedo. Estudar. Estudar. A palavra reverberando como um sino velho. Estudar. Sílaba por sílaba, a palavra a lhe desapossar de si, das suas coisas, da sua rede e seu lençol branco de saco de açúcar, cheirando ao sabão e a água do rio.
“Vai sê bom pra tu Maria. Uma menina cega, o que tu vai fazer aqui dentro desse mato?” continuou o pai, enquanto engolia o caldo, fazendo ruído a beber direito da beirada do prato.
“Menina cega”, Aquilo a lhe bater como uma corda de sete voltas. “Uma menina cega”. Aquelas três palavras pequenas a lhe roerem por dento como as pequenas baratas das noites de sua casa.
Um segundo soluço da mãe e Maria soube que não era por causa da farinha. Maria precisava gritar. Precisava sair dali para contar ao mato que o perderia. Ergueu-se do pequeno banco que lhe servia de assento e correu para o pátio, a chuva vermelha e quente dos olhos a inundar-lhe a cara.
O vento emprestou-lhe os seus lenços velhos de meio dia, mas a chuva nos olhos de Maria era daquelas grossas, pesadas de sal. Suas pernas cavalgavam o terreno de todas as suas horas, os pequenos arbustos dando-lhe passagem.
A pedra grande. Ela queria a pedra grande. Ali onde os tufos de marmeleiro cheiroso refrescavam seu rosto todos os dias.
“Eu vou estudar”. Ela sabia que tinha um erre no final da palavra. O pai dissera “estudá”, mas ela sabia que tinha um erre naquela palavra, porque a tinha escutado uma vez, uma única vez antes, no rádio da fazenda. Não que ela tivesse prestado atenção à palavra. Era agora que ela se lembrava. Uma voz grave de homem, falando “estudar”. Ela se lembrava bem do último erre, como som de pedra raspando em pedra.
“Eu vou estudar”, dizia ela com a cara por entre os tufos de marmeleiro, o som do erre saindo como efe, por causa das folhas encostadas aos seus lábios. A pedra grande escutou por um momento e depois abriu as suas palavras crestadas de sol.
“Vai ser bom, Maria. Vai ser bom”. E os tufos de marmeleiro também fizeram sua pequena ladainha de sílabas alegres e cheirosas. “Maria vai ser bom, Maria, vai ser bom”. A rolinha sonolenta não disse nada, porque era ainda muito pequena e Maria dormiu um sono órfão de sonhos em cima da pedra grande, a cara mergulhada nos tufos de marmeleiro.
Por que será que a lembrança daquele dia lhe vinha com tanta força agora? Por que ela sentia com tanta nitidez o cheiro do marmeleiro verde molhado das suas lágrimas quentes? Por que a lembrança do sono sem sonhos lhe visitava agora com tanta intensidade? Maria sabia a pedra grande somente existia agora nas suas lembranças. O mato verde crescia teimosamente num campo que mudara. Um campo mudado. Maria mudada. Maria estudada, escrevendo, viajando. Maria vivendo todos os dias suas perdas, como pequenos desfalques, ínfimas rapinagens, pequenas formas de morrer, todos os dias, para de novo reconstruir um novo lugar, por entre as falhas do solo.
Tantos dias assim deitada naquela cama de hospital, a dor dos ossos como única visita fiel e todo o tempo do mundo para rever sua cegueira.
Era sempre assim, Maria afastando a dor com mãos invisíveis que iam buscar lá no fundo do alforje as lembranças. Esperava, espreitava, forcejava. E a dor, como que penalizada, fingia uma trégua. E Maria tinha de novo suas pernas de menina pequena, a correr pelo mato, a beber as golfadas do vento molhado de chuva, a subir para a pedra grande, apressando a fuga da velha lagartixa.
A pedra grande falava baixo, avisada por Maria, que não queria acordar sua dor. A pedra grande a perguntar, quase num sussurro: “O que é estudar, Maria”?
Maria pesando as palavras, para explicar à pedra. “Estudar, todos os dias, é rever a cegueira”. Os pequenos tufos de marmeleiro sem nada compreender, a pergunta cravada nos tenros caules.
A pedra grande a pesar as sílabas de Maria. “Rever a cegueira”?
A rolinha nova desconjuntando a ordem das palavras, para brincar com elas. “Cegueira a rever... a rever cegueira...”
Maria a retomar o cacho do discurso, com medo da dor. “Rever a cegueira todos os dias. Todas as horas. Viver a cegueira como cegueira mesmo. Viver a cegueira como não cegueira, nas tantas cordas do sonho”.
A pedra calada. Maria calada. A dor a pedir seu pedaço de terra. A realidade a acordar-lhe todas as fibras do ser e ela a agarrar-se à pedra grande para fugir da dor. A rolinha com medo do rosto crispado de Maria a devolver-lhe o discurso intacto. “Rever a cegueira”. A dor a fazer o trabalho de força bruta, para lhe dar o que ela mais deseja agora. A dor a entregar-lhe o silêncio absoluto.
O silêncio absoluto, a cutucar-lhe o estômago, como se ela carregasse a pedra grande dentro de si.
Maria espera pelo grito. Espreita para ver a rolha a saltar longe, para além do ninho da rolinha.
A pedra grande a pedir passagem, a forcejar por dentro, a exigir seu pedaço de terra roubado. A dor a emprestar sua lâmpada aos olhos de Maria, a desapropriá-la do grito da mãe a chamar para o almoço.
(Este Conto foi premiado pela Sociedade dos Cegos de Lisboa/PT.)
publicado por olharesgeograficos às 16:28
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